
Amor Desfeito, Vida Recomeça
Capítulo 2
Hoje era nosso aniversário de casamento de três anos.
Eu tinha reservado uma mesa no nosso restaurante favorito com um mês de antecedência.
Era o lugar onde Pedro me pediu em casamento.
Passei a tarde inteira me arrumando, escolhendo o vestido perfeito, um que eu mesma desenhei, e fazendo uma maquiagem leve que realçava meus traços.
Eu queria que essa noite fosse especial.
Mas Pedro não apareceu.
Liguei para ele várias vezes, mas o celular dele estava desligado.
Uma sensação ruim começou a se instalar no meu peito, mas eu tentei ignorar.
"Ele deve estar ocupado com o trabalho", eu disse a mim mesma. "Alguma emergência."
Esperei por uma hora, sentada sozinha na mesa para dois, sentindo os olhares de pena dos outros clientes.
Finalmente, desisti. Paguei pela água que não bebi e saí do restaurante, sentindo um nó na garganta.
No caminho para casa, decidi passar pelo estúdio de dança de Clara.
Clara era a ex-namorada de Pedro. Eles tinham um romance intenso na adolescência, o tipo de amor que todo mundo achava que duraria para sempre. Mas não durou.
Ela voltou para a cidade há alguns meses, divorciada e, segundo ela, de coração partido.
Desde então, Pedro passava cada vez mais tempo com ela, sempre com a desculpa de que ela precisava de apoio.
Eu não queria acreditar que havia algo mais acontecendo, mas a dúvida estava lá, crescendo a cada dia.
Quando cheguei perto do estúdio, vi o carro de Pedro estacionado na frente.
Meu coração afundou.
Pela janela de vidro do estúdio, eu os vi.
Não havia mais ninguém lá. Apenas os dois.
Clara estava com uma roupa de dança justa, o cabelo preso num coque bagunçado. Ela estava chorando.
Pedro a segurava pelos ombros, o rosto dele cheio de uma preocupação que eu não via direcionada a mim há muito tempo.
Ele a abraçou com força, afagando suas costas, sussurrando algo em seu ouvido.
Era uma cena íntima, dolorosa de assistir.
Eu fiquei ali, parada na calçada fria, invisível para eles, sentindo como se o mundo estivesse desmoronando ao meu redor.
Aquele abraço não era de um amigo consolando outro. Era algo mais.
Eu sabia disso.
Depois de um tempo, ele a soltou, mas ainda segurava suas mãos. Ele olhou para o tornozelo dela, que parecia inchado.
Então, ele se ajoelhou, examinando o pé dela com um cuidado que me fez sentir um gosto amargo na boca.
Ele a pegou no colo, como se ela não pesasse nada, e a levou para o banco do carona do carro dele.
Meu celular tocou naquele exato momento. Era ele.
Atendi, tentando manter a voz firme.
"Sofia? Onde você está?"
"Eu estava no restaurante. Onde você está, Pedro?"
Houve uma pausa.
"Ah, droga, o aniversário. Desculpa, amor. Eu esqueci completamente."
Esqueceu.
"Aconteceu uma emergência com a Clara. Ela torceu o tornozelo durante o ensaio e não tinha mais ninguém para ajudá-la. Estou levando ela para o hospital."
A desculpa era tão ensaiada, tão fácil.
"Entendo", eu disse, a voz saindo mais fria do que eu pretendia.
"Olha, eu sei que você está chateada", ele continuou, o tom agora impaciente. "Mas a Clara está com muita dor. Você pode pegar um táxi para casa? Eu preciso cuidar disso."
Ele não estava perguntando. Estava mandando.
"Tudo bem", eu murmurei, sentindo as lágrimas finalmente brotarem nos meus olhos.
"Ótimo. Te vejo mais tarde. Te amo."
Ele desligou antes que eu pudesse responder.
Eu o vi arrancar com o carro, levando Clara para longe.
Eu fiquei sozinha na rua escura.
Coloquei a mão sobre minha barriga, um gesto que se tornara instintivo nos últimos dias.
Lá dentro, um segredo minúsculo crescia. Um segredo que eu planejava contar a ele esta noite, durante nosso jantar de aniversário.
Eu estava grávida.
Uma risada seca e sem humor escapou dos meus lábios.
Que piada cruel.
Eu me virei e comecei a andar para casa, cada passo mais pesado que o anterior.
A gravidez não foi planejada. Aconteceu há dois meses, numa noite rara em que Pedro parecia ser o homem por quem me apaixonei. Ele chegou em casa com flores, preparou o jantar e nós fizemos amor com uma ternura que eu não sentia há anos.
Naquela noite, eu acreditei que as coisas poderiam voltar a ser como antes.
Eu estava errada.
Uma semana depois, Clara voltou.
Ela ligou para Pedro, chorando, dizendo que seu casamento tinha acabado e que ela não tinha mais ninguém. Pedro, sempre o cavalheiro para ela, correu para o seu lado.
No começo, era apenas um café, um ombro amigo.
Depois, tornaram-se jantares longos, telefonemas tarde da noite.
Ele começou a chegar tarde em casa, cheirando a um perfume que não era o meu.
Ele se tornou distante, irritado. Qualquer pergunta minha era recebida com acusações de que eu era ciumenta e controladora.
Eu tentei me convencer de que era tudo coisa da minha cabeça. Que eu estava sendo insegura.
Mas ver os dois juntos esta noite, a forma como ele olhava para ela, o jeito como a tocava... não havia mais espaço para dúvidas.
Meu casamento estava acabado. Eu só não tinha percebido até agora.
Quando cheguei em casa, o apartamento estava escuro e silencioso.
A mesa que eu tinha arrumado com tanto cuidado para o café da manhã parecia uma zombaria.
Eu me sentei no sofá, o vestido de grife agora amassado e desconfortável.
A imagem de Pedro carregando Clara no colo não saía da minha mente.
Ele a tratava como se ela fosse feita de vidro.
E eu? Eu era apenas um inconveniente. Um compromisso que ele havia esquecido.
Eu me abracei, sentindo o frio se espalhar por todo o meu corpo.
Eu precisava ser forte.
Não só por mim.
Mas pelo bebê.
Meu bebê.
Eu não ia deixar meu filho crescer em um lar desfeito, com um pai que amava outra mulher.
A decisão se formou em minha mente, clara e dolorosa.
Eu iria embora.
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