
Amor Além da Vida e Morte
Capítulo 3
O dia seguinte encontrou Maria Eduarda na garagem, não com lágrimas nos olhos, mas com uma caixa de ferramentas ao seu lado. A luz da manhã entrava pela janela suja, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. Ela tinha um objetivo claro: desmontar o sistema de som do carro de Rafael.
"A chave... no som."
A frase ecoava em sua mente. Que chave? Uma chave literal? Uma senha? Uma pista?
Ela usou uma chave de fenda para soltar os parafusos do painel. Suas mãos, acostumadas a digitar em um teclado, eram desajeitadas, mas a determinação a guiava. Cada pedaço de plástico que ela removia parecia uma camada de mentira sendo arrancada.
De repente, o som da porta da garagem se abrindo a fez pular de susto.
Era Carolina, parada na entrada, com dois copos de café na mão e uma expressão de preocupação no rosto.
"Duda? O que você está fazendo? Eu bati na porta, mas você não atendeu. Fiquei preocupada."
Maria Eduarda se moveu instintivamente, colocando seu corpo entre Carolina e o painel desmontado do carro. Uma onda de proteção pelo velho sedã a surpreendeu.
"Eu estava... só limpando umas coisas."
Carolina se aproximou, seus olhos passando da caixa de ferramentas para o painel aberto do carro. Um vinco de desaprovação se formou em sua testa.
"Limpando? Duda, você está desmontando o carro. Por quê? Eu te disse para vender essa lata velha."
"Não chame o carro dele de lata velha," Duda respondeu, a voz perigosamente baixa.
Carolina ergueu as mãos em um gesto de rendição, mas seus olhos permaneceram duros.
"Desculpe. Mas sério, o que está acontecendo? Você não está bem. Ontem você estava estranha no telefone, e agora isso. É por causa do aniversário, não é? Está te afetando mais do que você admite."
Ela tentou tocar o braço de Duda, mas Duda se afastou.
"Eu estou bem, Carol. Só preciso de um tempo sozinha."
A rejeição pareceu chocar Carolina. Ela colocou os cafés no chão, a gentileza forçada em seu rosto se desfazendo por um segundo.
"Tudo bem. Se é o que você quer. Mas saiba que isso não é saudável, Duda. Ficar obcecada por... coisas velhas."
Ela se virou e saiu, deixando Duda sozinha com o eco de suas palavras. "Obcecada." Talvez ela estivesse. Mas não era por coisas velhas. Era pela verdade.
Quando teve certeza de que Carolina tinha ido embora, Duda voltou ao trabalho com uma fúria renovada. Horas depois, com as mãos sujas de graxa e suor escorrendo pela testa, ela finalmente conseguiu remover o aparelho de som.
Era um modelo pesado, antigo. Ela o sacudiu. Nada. Ela o examinou por todos os lados. Havia um pequeno compartimento na parte de trás, selado com fita adesiva preta. Seu coração acelerou. Com os dedos trêmulos, ela rasgou a fita.
Dentro, havia um espaço vazio.
A decepção a atingiu como um soco. Vazio. Ela tinha imaginado um pendrive, um pedaço de papel, qualquer coisa. Mas não havia nada.
Ela se sentou no chão frio da garagem, derrotada. Teria sido tudo imaginação?
Ela fechou os olhos e se concentrou, lembrando da voz. "A chave... no som." Não "no rádio". "No som". O que isso significava?
Ela se levantou e olhou para o carro. Os alto-falantes.
Naquela noite, depois de passar horas pesquisando manuais de carros antigos online, ela voltou para a garagem. Usando as ferramentas certas, ela começou a desmontar o forro da porta do motorista para acessar o alto-falante.
Sozinha na escuridão, ela falou em voz alta, um sussurro para o fantasma que ela acreditava estar ali.
"Eu vou descobrir, Raf. Eu juro por tudo que nós tivemos."
Era uma promessa. Um voto.
"Eu vou fazer eles pagarem. Cada um deles."
E no silêncio que se seguiu, ela sentiu, não ouviu, uma presença. Uma aprovação. Uma força que se somava à sua.
De volta à garagem, Maria Eduarda finalmente conseguiu remover o alto-falante da porta. Havia algo colado na parte de trás do ímã.
Um pequeno pendrive preto, envolto em fita isolante para protegê-lo da umidade.
Ela o segurou na palma da mão. Era pesado. Pesado com a verdade.
Sua imaginação não a tinha enganado. Rafael estava com ela.
O primeiro passo de seu plano estava claro. Ela não podia ir à polícia como uma viúva enlutada e delirante. Ela precisava de provas concretas.
E ela sabia exatamente com quem falar. Inspetor Silva. O detetive que arquivou o caso de Rafael como um "acidente".
Desta vez, ela não iria até ele com lágrimas. Iria com fatos. Com o legado de Rafael em suas mãos. A caçada havia começado.
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