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Capa do romance Amarras do Passado Quebrado

Amarras do Passado Quebrado

Após meses em missão, o retorno de um agente é marcado pela dor da traição. Sofia, sua esposa, abrigou um amante e a filha dele em sua casa, tratando o marido com frieza absoluta. Ao descobrir que foi usado apenas como peão para ela acessar dados sigilosos, o amor se torna desprezo. Decidido a romper as amarras desse passado falso, ele aceita o perigoso Projeto Vanguarda. Com o coração endurecido, ele ingressa na base militar para reconstruir sua vida do zero.
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Capítulo 3

No exato momento em que Sofia ia começar a gritar, seu celular tocou. Ela olhou para a tela e seu rosto mudou instantaneamente de raiva para preocupação.

"Pedro? O que aconteceu? A Lili está bem?"

Ricardo observou a transformação, seu coração se tornando ainda mais frio. A preocupação dela era toda para o outro homem e sua filha.

"O quê? Ela está com febre alta? Estou indo para aí agora mesmo. Não se preocupe, eu cuido de tudo."

Ela desligou o telefone e pegou a bolsa apressadamente, sem sequer olhar para Ricardo.

"Lili está doente. Preciso ir," ela disse, já se movendo em direção à porta.

Ela não se importava com o divórcio que ele acabara de propor. Ela não se importava com os sentimentos dele. Ela o deixou ali, parado no meio da sala de estar, para correr para o lado de seu amante.

A porta se fechou com um clique suave, deixando Ricardo sozinho no silêncio da casa.

Ele ficou parado por um longo tempo, a dor em seu peito era uma presença física. Mas, estranhamente, ele não estava surpreso. Ele já estava acostumado a ser deixado para trás, a ser a segunda opção.

Com um suspiro pesado, ele subiu as escadas. Ele não ia mais tolerar aquilo. Ele entrou no quarto deles e pegou uma mala. Ele começou a arrumar suas coisas, de forma metódica e silenciosa. Roupas, livros, seus documentos de pesquisa. Cada item era uma lembrança de uma vida que ele agora percebia ser uma mentira.

Enquanto arrumava suas coisas, uma vizinha, Dona Elvira, bateu na porta. Ela era uma senhora idosa e fofoqueira, mas tinha um bom coração.

"Ricardo, meu filho! Eu vi você chegar! Fiquei tão feliz!" ela disse, com um sorriso caloroso.

"Olá, Dona Elvira. É bom vê-la também," Ricardo respondeu, forçando um sorriso.

"Eu vi Sofia sair correndo. Aconteceu alguma coisa? A pequena Lili está doente de novo?"

"De novo?" Ricardo perguntou, franzindo a testa.

"Sim. Coitadinha. Parece que toda semana ela tem alguma coisa. Febre, dor de barriga... Sofia está sempre correndo para o hospital com ela. Ela é uma boa mulher, cuidando da filha do namorado como se fosse sua," Dona Elvira disse, sem perceber a dor que suas palavras causavam.

Ricardo sentiu um nó na garganta. Ele se lembrou de uma vez, anos atrás, quando ele pegou uma gripe forte. Ele pediu a Sofia para comprar um remédio para ele, mas ela disse que estava muito ocupada com o trabalho. Ele teve que se arrastar para fora da cama e ir à farmácia sozinho, tremendo de febre.

A comparação foi brutal. Ela nunca se importou com ele, mas tratava a filha de Pedro com uma dedicação que ele nunca recebeu. A verdade era um veneno amargo, queimando por dentro.

Ele terminou de fazer as malas. Ele olhou para a casa, para a vida que ele pensou ter construído, e sentiu uma onda de tristeza, mas também de alívio. Ele estava finalmente se libertando.

Ele pegou um calendário na parede e circulou a data de hoje com uma caneta vermelha. O dia em que sua antiga vida terminou e uma nova começou. Ele escreveu ao lado: "Liberdade" .

Mais tarde naquela noite, Sofia voltou. Ela parecia cansada, mas satisfeita.

"Lili está melhor. Era só uma febre baixa," ela disse, como se esperasse que ele se importasse.

Ricardo não respondeu. Ele estava sentado na poltrona, lendo um de seus livros de física.

"Você ainda está bravo?" ela perguntou, tentando soar conciliadora. "Eu fiz o jantar. Sua comida favorita."

Ele continuou a ler, ignorando-a.

"Ricardo, não seja assim. Vamos conversar," ela disse, aproximando-se dele.

Ele finalmente olhou para ela, seus olhos vazios de qualquer emoção.

"Eu não quero sua comida," ele disse, sua voz monótona. "Você pode guardá-la para o seu... namorado."

A palavra saiu com um gosto amargo.

Sofia recuou, ofendida. "Por que você está sendo tão cruel? Eu só estava ajudando um amigo."

Ela tentou se sentar no colo dele, um gesto que costumava acalmá-lo no passado. Mas desta vez, ele a empurrou para longe.

"Não me toque," ele disse, sua voz baixa e cheia de repulsa.

O toque dela, que antes era seu conforto, agora o enojava.

Sofia o encarou, chocada e magoada com a rejeição. Ela começou a sentir um pingo de ansiedade. A calma dele era mais assustadora do que qualquer explosão de raiva.

"Ricardo, o que há de errado com você? Eu sei que errei, mas podemos consertar isso. Eu ainda te amo," ela disse, sua voz começando a tremer.

Ele a olhou, e um sorriso sem alegria tocou seus lábios.

"Amor? Você não sabe o que essa palavra significa, Sofia."

Ele se levantou e foi para o quarto de hóspedes, fechando a porta atrás de si. Ele ouviu os soluços dela do outro lado, mas não sentiu nada. Absolutamente nada. Seu coração, que ela havia quebrado tantas vezes, finalmente havia se transformado em pedra. Ele sabia, com uma certeza assustadora, que era o fim.

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