
Alma Reencarnada, Destino Reescrito
Capítulo 2
A dor aguda na parte inferior do meu abdômen me despertou, um eco fantasma de uma vida passada. Abri os olhos lentamente, a luz do sol da tarde entrando pela janela e poeira dançando no feixe de luz. O cheiro de sândalo no quarto era familiar, mas por um momento, meu cérebro não conseguiu processar onde eu estava.
Então, a memória me atingiu como uma onda violenta. A poção amarga que Clara me forçou a beber, o sangue manchando minhas coxas, a vida do meu filho se esvaindo junto com a minha. As últimas palavras dela ecoaram em minha mente, cheias de desprezo e triunfo.
"Como posso deixar uma bastarda me dominar? A culpa é dela e daquele bastardo por estarem no meu caminho!"
Meu corpo tremeu incontrolavelmente. Eu estava morta. Eu me lembrava do frio, da escuridão.
Mas agora... eu estava viva.
Olhei para minhas mãos. Elas não eram as mãos esqueléticas e pálidas da mulher que morreu na cama, mas sim cheias e saudáveis. Toquei meu rosto, minha barriga. Estava lisa, mas havia uma sensação sutil, uma pulsação de vida que eu conhecia muito bem.
Era o dia. O dia em que o médico da corte confirmou minha gravidez.
Eu renasci.
Uma risada seca escapou dos meus lábios, um som que era meio soluço, meio alívio. A dor, a raiva, a traição... tudo ainda estava fresco, queimando dentro de mim. Mas junto com a agonia, uma nova sensação surgiu: uma determinação fria e cortante.
Desta vez, as coisas seriam diferentes.
A porta se abriu suavemente e minha empregada, Lúcia, entrou com uma bandeja. Ao me ver acordada, ela sorriu.
"Senhora, você acordou. O médico disse que a senhora precisava descansar. Como se sente?"
Olhei para Lúcia. Na minha vida anterior, foi ela quem me serviu a poção final de Clara, seus olhos cheios de uma mistura de pena e ganância. Ela foi comprada, corrompida pela promessa de um futuro melhor ao lado de Clara.
Agora, seu rosto era apenas o de uma jovem empregada, ansiosa para agradar.
"Estou bem, Lúcia. O médico já foi?"
"Sim, senhora. Ele deixou as instruções para sua dieta. Ele parecia muito feliz."
Claro que ele estava feliz. A primeira gravidez da esposa do Quarto Príncipe era uma grande notícia. Significava estabilidade, um herdeiro, favor do imperador.
Na minha vida anterior, eu corri para contar a Lucas, o Quarto Príncipe, meu marido. Eu estava radiante, acreditando que um filho solidificaria nosso casamento e me traria a afeição que eu tanto desejava. Que tola eu fui. Minha felicidade foi o gatilho para a inveja de Clara, o início do meu fim.
"Lúcia," eu disse, minha voz calma e firme, "prepare um banho para mim. E depois, mande uma mensagem para minha irmã, Clara. Diga a ela que tenho ótimas notícias e quero compartilhá-las com ela primeiro."
Lúcia pareceu surpresa.
"Sua irmã, senhora? Não vai contar ao Príncipe primeiro?"
"O Príncipe está ocupado com os assuntos do estado," eu disse, inventando uma desculpa facilmente. "Minha irmã e eu somos muito próximas. Quero que ela seja a primeira a saber. É uma coisa de irmãs."
Um brilho de compreensão, ou talvez de pena pela minha ingenuidade, passou pelos olhos de Lúcia. Ela não sabia que eu estava lhe dando exatamente o que ela queria.
Enquanto Lúcia saía para cumprir minhas ordens, olhei para o meu reflexo no espelho de bronze. A mulher que me encarava era jovem, bonita, mas seus olhos continham uma sabedoria e uma dor que não pertenciam à sua idade.
Clara, minha querida irmã adotiva. Ela rejeitou o casamento com Lucas porque estava apaixonada por Miguel, um estudioso pobre. Eu, a filha adotiva sem importância, fui usada para preencher a vaga. Mas quando Clara viu a glória e o poder que ela havia desprezado, o arrependimento a corroeu. Ela voltou, cheia de inveja, e tirou tudo de mim.
Ela acreditava que eu havia roubado o que era dela por direito. Ela me via como uma usurpadora.
Desta vez, eu lhe daria de bom grado o que ela tanto desejava.
Dizem que o que não se tem é sempre o mais desejado. A fruta proibida é a mais doce. Eu ia me certificar de que Clara e Lucas tivessem um ao outro. E eu me sentaria e assistiria enquanto eles se destruíam.
Meu filho... desta vez, eu o protegeria. Eu garantiria que ele não apenas vivesse, mas que tivesse tudo. E para isso, eu precisava ser calculista. Precisava ser manipuladora. Precisava ser tudo o que eles me acusaram de ser, e muito mais.
A primeira peça do meu jogo estava prestes a ser movida. Clara estava a caminho, ansiosa para ouvir minhas "boas notícias". E eu estava ansiosa para ver o rosto dela.
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