
Alma Perdida, Inocência Quebrada
Capítulo 2
Minha alma flutuava, uma testemunha silenciosa da dor que se desenrolava.
Leo, meu filho, meu pequeno Leo, agarrava-se à minha perna imóvel, o rosto banhado em lágrimas.
"Papai, acorda! Papai!"
Sua voz era um eco agudo de desespero.
Sofia, minha esposa, estava parada à porta, o rosto uma máscara de frieza.
Carlos Alberto, o "salvador da infância" dela, pairava atrás, um sorriso quase imperceptível nos lábios.
"Leo, pare com esse show," a voz de Sofia cortou o ar, gélida. "Seu pai está apenas querendo atenção."
Leo soluçou, agarrando-se mais forte. "Não, mamãe! O papai não está bem!"
"Chega!" Sofia avançou, afastando Leo de mim com um empurrão.
Meu menino caiu, o som baço do seu corpo batendo no chão ecoou no meu ser etéreo.
Ele choramingou, a mãozinha no braço machucado.
Sofia não olhou para trás, saindo com Carlos Alberto.
A porta se fechou, deixando Leo e minha alma na penumbra.
Eu queria gritar, queria abraçar meu filho, mas eu era apenas uma sombra, uma dor.
A imagem da queda de Leo, o olhar de indiferença de Sofia, queimavam em minha consciência.
Por quê? Por que ela se tornou assim?
Lembrei-me do sangue.
Sofia me obrigara a doar uma quantidade absurda de sangue para Carlos Alberto.
Ele fingira uma emergência médica, mais uma de suas manipulações.
Eu sofria de anemia aplástica leve, uma condição que se agravaria fatalmente com grande perda de sangue.
Sofia sabia.
Mas ela, cega pela adoração a Carlos Alberto, ordenou que eu não recebesse tratamento.
"É tudo encenação sua, João Miguel," ela dissera, as palavras de Carlos Alberto saindo de sua boca.
E agora, eu estava morto.
Morto pela negligência dela, pela crueldade dele.
Mesmo com meu corpo sem vida ali, a dúvida ainda pairava nos olhos dela quando ela saiu.
A frieza dela era uma lâmina em meu peito fantasma.
Leo, meu pequeno guerreiro, levantou-se mancando.
Seu rostinho estava sujo de lágrimas e poeira.
Ele se aproximou do meu corpo, tocando meu rosto frio.
"Papai, não se preocupe, eu vou buscar ajuda."
Ele pegou o telefone, discando o número de Sofia com os dedos trêmulos.
A chamada caiu na caixa postal.
Ele tentou de novo. E de novo.
Desistindo, ele olhou para mim, a determinação brilhando em seus olhos infantis.
"Eu vou até a mamãe."
Ele saiu mancando da sala, uma pequena figura de coragem e dor.
Minha alma o seguiu, um nó de angústia apertando o que restava de mim.
A jornada até a empresa de Sofia era longa para suas perninhas.
Cada passo hesitante dele era uma facada em minha alma.
Ele tropeçava, chorava baixinho, mas continuava.
Finalmente, ele chegou ao imponente prédio da empresa de Sofia.
O segurança na entrada tentou impedi-lo, mas Leo, com a força do desespero, conseguiu passar.
Ele encontrou Sofia na sala de reuniões.
Com Carlos Alberto, claro.
Rodeados por executivos.
"Mamãe!" A voz de Leo era fraca, mas carregada de urgência.
Sofia virou-se, o rosto contraído em irritação ao ver o estado do filho.
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