
Alma Despedaçada, Amor Resgatado
Capítulo 2
A porta se fechou atrás de mim, e o som do clique da fechadura pareceu ecoar pela casa vazia, um som final, como um prego no caixão da nossa vida. Eu fiquei ali parado na sala escura, sentindo o cheiro de mofo e desespero no ar. As luzes estavam apagadas, mas eu não precisava delas para ver a devastação.
Sofia estava ajoelhada no meio da sala, o corpo encolhido, os ombros tremendo sem parar. Ela não chorava alto, era um soluço silencioso, que rasgava o silêncio de uma forma muito pior. Ela estava assim desde que eu cheguei do trabalho, há horas. Uma noite inteira de joelhos.
Na mesinha de centro, ao lado dela, estava a carteira vazia. Não apenas vazia de dinheiro do dia a dia, mas vazia de futuro. Vinte mil reais. Um ano inteiro do meu suor, do meu lombo quebrado na fábrica, do meu cheiro de graxa que nunca saía, não importava o quanto eu esfregasse. Vinte mil reais que tinham nomes, que tinham destinos.
O primeiro nome era a faculdade da nossa filha. Ela sonhava em ser enfermeira, e cada real daquela mensalidade era uma promessa que eu fiz a ela.
O segundo nome era a cirurgia do meu pai. O velho estava com a vista cada vez pior, e o médico disse que era operar ou ficar cego. Cada real era um pedaço da luz que eu queria devolver aos olhos dele.
O resto era para as contas, para a comida, para a vida simples que a gente tentava levar. Era o nosso colchão de segurança, o nosso chão.
E agora, não havia mais nada. Só o chão frio onde Sofia estava ajoelhada.
Ela levantou o rosto, os olhos inchados e vermelhos, um mapa de dor e vergonha.
"Pedro, me perdoa."
A voz dela era um fiapo, quebrada.
"Me perdoa, por favor. Eu não queria... eu fui enganada."
Eu caminhei lentamente até a geladeira, peguei uma garrafa de água e bebi um longo gole. O líquido gelado desceu pela minha garganta, mas não apagou o fogo que queimava por dentro. Eu não sentia raiva dela. Era algo mais frio, mais duro. Era a constatação da realidade.
Coloquei a garrafa na pia e me virei para ela. Me agachei na sua frente, peguei a carteira vazia e o pouco de troco que tinha sobrado no meu bolso. Eram umas notas amassadas, talvez duzentos, trezentos reais. O dinheiro do nosso pão para a semana.
Eu estendi a mão e coloquei as notas na frente dela.
Sofia me olhou, a confusão se misturando ao desespero em seu rosto. Ela não entendeu.
"O que é isso, Pedro?"
"Pega."
Minha voz saiu firme, sem emoção.
"Volta lá."
Os olhos dela se arregalaram, um pânico novo surgindo.
"O quê? Não! Pedro, nunca mais! Eu juro, eu nunca mais chego perto de um baralho na minha vida!"
Eu segurei a mão dela e forcei as notas para dentro dos seus dedos.
"Você vai voltar. Você vai sentar naquela mesa e vai jogar de novo. Com este dinheiro."
Ela tentou puxar a mão, o corpo todo tremendo.
"Não, Pedro, por favor, não me peça isso! Eu perdi tudo! Você quer que eu perca o que nos resta?"
Eu a olhei nos olhos, e pela primeira vez naquela noite, eu deixei que ela visse um pouco do que se passava dentro de mim. Não era loucura. Era certeza.
"Você não vai perder. Você vai sentar lá, vai apostar, e eu vou estar bem atrás de você. E nós vamos pegar de volta cada centavo."
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