
Alma Despedaçada, Amor Resgatado
Capítulo 3
O rosto de Sofia se contorceu em puro horror. Ela olhou para o dinheiro na mão dela e depois para mim, como se eu fosse um completo estranho.
"Você enlouqueceu, Pedro? Você quer que eu volte para aquele inferno?"
De repente, ela jogou o dinheiro no chão e, num gesto de desespero absoluto, começou a se esbofetear. Uma, duas, três vezes. O som oco das palmas no seu próprio rosto ecoou na sala silenciosa.
"Eu sou uma idiota! Uma desgraçada! Eu mereço isso!"
Antes que eu pudesse reagir, ela correu para a cozinha. O som da gaveta de talheres se abrindo me gelou o sangue. Eu a segui em duas passadas largas e a vi pegar a faca de cortar carne.
"É essa mão! Essa mão maldita que perdeu nosso dinheiro! Eu vou cortar ela fora!"
Ela levantou a faca, os olhos vidrados, a respiração ofegante. Eu agarrei o pulso dela com força, a lâmina parando a centímetros da sua outra mão espalmada na tábua de cortar. A força dela era surpreendente, a força do desespero.
"Larga isso, Sofia! Larga essa merda agora!" eu gritei, torcendo o braço dela até que a faca caiu no chão com um barulho metálico.
Ela desabou em meus braços, chorando convulsivamente. Eu a segurei firme, sentindo os tremores do seu corpo.
"Calma... respira... acabou."
Eu a levei de volta para a sala e a sentei no sofá. Fui até a cozinha, peguei um copo de água com açúcar e a fiz beber. Aos poucos, os soluços diminuíram.
Eu me sentei ao lado dela, o silêncio pesado de volta.
"Escuta" , eu disse, a voz agora mais suave. "Não foi sua culpa."
Ela balançou a cabeça. "Foi sim. Eu apostei. Eu perdi."
"Não" , eu insisti. "Você não perdeu vinte mil reais num jogo de cartas amigável com a sua 'amiga' Ana Paula. Ninguém ganha ou perde vinte mil reais assim, do nada, numa noite. Isso não é jogo, Sofia. Isso é um golpe. Fizeram uma cama pra você, uma armadilha."
Eu conhecia aquele tipo de jogo. Eu conhecia o cheiro da ganância, a forma como os predadores cercam a presa. Eles a deixaram ganhar um pouco no começo, a fizeram se sentir sortuda, confiante. Depois, quando a aposta era alta o suficiente, eles puxaram o tapete.
Sofia fungou, limpando o nariz com as costas da mão.
"O que a gente vai fazer, Pedro? Eu... eu posso arrumar outro emprego na fábrica, fazer hora extra, a gente dá um jeito... Em alguns anos a gente recupera..."
A ideia era nobre, mas inútil. Anos. Em anos, a faculdade da nossa filha já teria passado. Em anos, a cirurgia do meu pai poderia ser tarde demais.
"Não" , eu disse, cortando a ideia dela. "Não temos anos, Sofia. Nós temos que resolver isso agora."
Ela me olhou, a esperança quase morta em seus olhos.
"Como?"
"Fazendo o que eu te disse. A gente vai voltar lá. Eles armaram um circo pra pegar o nosso dinheiro. Agora, a gente vai voltar e pegar o circo inteiro pra gente."
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