
Alma Antiga, Novo Corpo
Capítulo 2
A memória do meu pai, José, está amarrada ao cheiro de sal e peixe, um cheiro que impregnava suas mãos calejadas e a casa que ele construiu com a minha mãe, Ana, tábua por tábua, de frente para o mar que lhe deu tudo.
Ele era um pescador humilde, mas com uma ambição que o oceano não conseguia conter.
Essa ambição o levou para longe do mar e para os braços de Bruna.
Bruna era mais jovem, com olhos famintos e um sorriso que não alcançava esses olhos.
Ela não amava meu pai, amava o que ele tinha se tornado, um homem de negócios com uma pequena frota de barcos de pesca, um nome que começava a ser respeitado na cidade.
A primeira coisa que Bruna fez foi convencer meu pai a expulsar minha mãe de casa.
Ana, minha mãe, uma mulher de poucas palavras e muito trabalho, que dedicou cada segundo de sua vida a ele e a mim, foi posta na rua com uma mala de roupas e o coração partido.
Eu vi tudo, a humilhação no rosto da minha mãe, a frieza no de meu pai.
"É para o seu bem, Ana. Você não se encaixa mais neste mundo", ele disse, sem sequer olhar para ela.
Minha mãe não chorou na frente dele, ela apenas me abraçou forte e sussurrou no meu ouvido: "Seja forte, minha filha. Por nós duas."
Depois que minha mãe se foi, Bruna e seu filho mimado se mudaram. A casa que antes cheirava a maresia e comida caseira, passou a ter o cheiro de perfume caro e desinfetante.
Bruna era inteligente, manipuladora.
Pouco a pouco, ela se infiltrou nos negócios do meu pai.
Contratou amigos, demitiu funcionários leais, fez investimentos arriscados que ela chamava de "modernização".
Meu pai, cego pela paixão, assinava tudo que ela colocava na sua frente.
Ele a via como uma parceira de negócios, uma mulher sofisticada que o elevava.
Eu via uma parasita, sugando a vida e a fortuna que meu pai e minha mãe construíram com suor e sacrifício.
Eu tentei avisá-lo, mostrei as contas, as inconsistências, os nomes estranhos na folha de pagamento.
"Maria, você está com ciúmes", ele dizia, rindo. "Bruna só quer o nosso bem. Deixe de ser criança."
A última discussão que tivemos foi a pior.
Eu tinha acabado de descobrir um desvio de dinheiro enorme, uma transferência para uma conta no nome de Bruna.
Confrontei os dois na sala de estar.
Bruna se fez de vítima, chorando e dizendo que eu a estava acusando injustamente.
Meu pai, como sempre, ficou do lado dela.
"Chega, Maria! Peça desculpas a Bruna agora mesmo!"
"Eu não vou pedir desculpas por dizer a verdade. Ela está te roubando, pai! Você não vê?"
Ele levantou a mão para mim, mas parou no ar. Seus olhos estavam cheios de uma raiva que eu nunca tinha visto.
"Saia da minha casa. E não volte até aprender a respeitar a minha mulher."
Eu saí, batendo a porta com toda a minha força.
Liguei para minha mãe, que estava morando em um pequeno apartamento alugado, e disse que estava indo para lá.
Peguei meu carro, minhas mãos tremendo no volante, as lágrimas cegando minha visão.
A última coisa que eu vi foi um par de faróis vindo na minha direção em alta velocidade.
Depois, escuridão.
O som de um bipe constante e distante.
Uma voz abafada.
"O acidente foi grave... ela está em coma."
Eu podia ouvir, mas não conseguia me mover, não conseguia abrir os olhos.
Eu era uma prisioneira no meu próprio corpo.
Os dias se transformaram em uma névoa de vozes e sensações.
A mão quente da minha mãe segurando a minha.
O choro dela, baixo e constante.
A voz do meu pai, uma única vez, cheia de um remorso superficial.
"Me desculpe, filha."
E a voz de Bruna, sussurrando perto do meu ouvido quando ela pensava que estava sozinha.
"Foi uma pena o que aconteceu com você, querida. Mas não se preocupe, eu cuidarei muito bem do seu pai e de tudo que era seu."
O ódio me deu força.
Um ódio tão puro e intenso que parecia queimar através da névoa que me prendia.
Eu lutei, lutei com cada fibra do meu ser para acordar, para voltar.
Eu precisava proteger minha mãe.
Eu precisava fazer Bruna pagar.
E então, um dia, a escuridão cedeu.
Mas a luz que eu vi não era a luz branca e estéril de um quarto de hospital.
Era a luz amarelada de um abajur antigo, filtrada por uma cortina de renda.
Eu pisquei, confusa.
Tentei levantar a mão, mas o braço que se moveu era velho, enrugado, coberto de manchas da idade.
Olhei para baixo.
Meu corpo não era o meu.
Era um corpo frágil, pequeno, vestido com uma camisola de algodão.
Havia um espelho na parede oposta.
Com um esforço enorme, me levantei da cama.
Meus joelhos estalaram, minhas costas doeram.
Caminhei lentamente até o espelho e olhei para o meu reflexo.
O rosto que me encarava de volta não era o meu.
Era o rosto da minha avó paterna.
A mãe de José.
Uma mulher que eu mal conhecia, uma matriarca forte, respeitada, mas que sempre colocou o filho acima de tudo e de todos, inclusive da minha mãe e de mim.
Ela tinha morrido há uma semana. Eu ouvi as enfermeiras comentando.
Um calafrio percorreu meu novo corpo.
Eu não estava apenas acordada.
Eu tinha renascido.
Eles me deram uma segunda chance.
Um novo corpo, uma nova identidade.
A identidade da única pessoa que meu pai ainda ouvia e respeitava.
A mãe dele.
Um sorriso lento se formou nos lábios enrugados que agora eram meus.
Bruna, você não perde por esperar.
Pai, você vai aprender da maneira mais difícil o que significa trair sua família.
Mãe, eu vou te devolver a sua dignidade, eu vou te dar a vida que você merece.
Meu nome é Maria, mas agora, para o mundo, eu sou a matriarca.
E a vingança está apenas começando.
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