
Alma Antiga, Novo Corpo
Capítulo 3
Os primeiros dias no corpo da minha avó foram uma lição de paciência.
Tudo era lento, difícil.
Vestir-me era uma tarefa que levava uma hora.
Caminhar até a cozinha parecia uma maratona.
Mas eu usei esse tempo para observar, para me acostumar com a casa, com os sons, com as rotinas.
A casa da minha avó era um santuário para meu pai, cheia de fotos dele em cada fase da vida, desde bebê até o empresário de sucesso que ele se tornou.
Não havia uma única foto minha ou da minha mãe.
Isso confirmou o que eu já sabia, a avó nunca gostou de Ana, sempre a considerou simples demais para seu filho ambicioso.
E eu, a neta, era apenas uma consequência dessa união que ela desaprovava.
Meu pai, José, vinha me visitar todos os dias.
Ele sentava ao lado da minha cama, segurava minha mão enrugada e falava.
"Mãe, a senhora precisa ficar boa logo. Eu preciso da senhora."
Ele parecia genuinamente preocupado, mas eu via através dele.
Ele não estava preocupado com a saúde da mãe dele, ele estava preocupado em perder a sua rocha, a sua fonte de aprovação incondicional.
Eu apenas ouvia, com os olhos fechados, fingindo estar fraca demais para falar.
Eu estudava seu tom de voz, suas palavras, a maneira como ele suspirava quando falava de negócios.
Ele estava estressado, a falência que Bruna estava orquestrando já mostrava seus sinais.
E então, eu decidi que era hora de agir.
A primeira pessoa que eu queria ver era a minha mãe, Ana.
Em uma manhã, quando José veio me visitar, eu abri os olhos e falei com a voz fraca e rouca da minha avó.
"José, meu filho."
Ele pulou da cadeira, seus olhos se arregalaram.
"Mãe! A senhora acordou! A senhora falou!"
"Chame... chame a Ana para mim. Eu quero vê-la."
José ficou paralisado.
Sua expressão era uma mistura de choque e confusão.
"A Ana? Mãe, por que a senhora quer ver a Ana? A senhora nunca..."
"Apenas faça o que eu digo, José. Chame-a."
Minha voz era fraca, mas firme, carregada com a autoridade da matriarca que ele sempre obedeceu.
Ele hesitou por um momento, mas depois assentiu e pegou o telefone.
Minha mãe chegou uma hora depois.
Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar.
Ela parecia mais magra, mais abatida do que eu me lembrava.
Meu coração doeu ao vê-la assim.
Ela parou na porta, incerta, olhando para mim com uma mistura de medo e respeito.
"A senhora... mandou me chamar?"
Eu estendi minha mão trêmula para ela.
"Venha, minha filha. Sente-se aqui."
A palavra "filha" a pegou de surpresa.
A avó nunca a tinha tratado com nada além de uma frieza polida.
Ela se aproximou lentamente e sentou-se na beirada da cama, rígida, desconfortável.
Eu segurei a mão dela.
As mesmas mãos que me criaram, que cozinharam para mim, que me abraçaram.
"Eu sinto muito, Ana", eu disse, minha voz embargada com uma emoção que não era fingida. "Eu fui cega. Eu errei com você, com a minha neta."
Lágrimas brotaram nos olhos da minha mãe.
Ela não entendia a mudança, mas a sinceridade na minha voz a desarmou.
"Senhora..."
"Não. Me perdoe. Por favor. Eu quero consertar as coisas."
Ela começou a chorar, um choro silencioso que sacudia seus ombros.
Eu a puxei para um abraço desajeitado.
Foi estranho abraçar minha própria mãe no corpo da minha avó, mas era tudo que eu podia fazer.
"Tudo vai ficar bem, Ana. Eu prometo. Eu vou cuidar de você e da Maria."
José, que tinha ficado na porta observando a cena, estava boquiaberto.
Ele não conseguia processar a transformação de sua mãe.
A mulher que sempre criticou Ana agora a estava consolando.
A confusão em seu rosto era o primeiro passo do meu plano.
Desestabilizá-lo, fazê-lo questionar tudo que ele achava que sabia.
Na tarde seguinte, Bruna apareceu.
Ela entrou no quarto como se fosse a dona do lugar, com seu filho a tiracolo.
O menino, com uns dez anos, era uma cópia em miniatura da mãe, com o mesmo olhar arrogante e entediado.
"Vovó! Que bom que a senhora está melhor!", disse Bruna, com um sorriso falso estampado no rosto.
Ela tentou me dar um beijo, mas eu virei o rosto.
"Não estou com disposição para visitas", eu disse, com uma voz fria.
Bruna ficou sem graça.
"Mas, vovó, nós viemos te ver, trazer um pouco de alegria."
Ela empurrou o filho para frente.
"Diga olá para a vovó, querido."
O menino me olhou de cima a baixo com desdém.
"Oi."
"Seja educado", Bruna sibilou para ele.
Eu olhei para os dois, a víbora e sua cria.
Meu estômago se revirou de nojo.
Mas eu forcei um sorriso fraco.
"Tudo bem, Bruna. É bom ver que você está cuidando do meu filho."
A tensão no rosto dela se dissipou.
Ela achou que tinha me conquistado com sua falsa preocupação.
"Claro, vovó. José é tudo para mim."
"Eu sei. E é por isso que preciso de um favor."
"Qualquer coisa, vovó."
"Eu preciso de alguém para cuidar de mim aqui em casa. José está muito ocupado com os negócios, e eu não quero incomodar a Ana."
Eu fiz uma pausa, olhando diretamente nos olhos dela.
"Eu gostaria que você viesse morar aqui por um tempo, para cuidar de mim."
O sorriso de Bruna congelou.
Cuidar de uma velha doente não fazia parte dos seus planos de vida de luxo.
Mas ela não podia recusar.
Não na frente de José, que tinha acabado de entrar no quarto.
Recusar seria admitir que sua preocupação era falsa.
"Mas é claro, vovó! Será uma honra!", ela disse, com os dentes cerrados.
Eu sorri para mim mesma.
O jogo tinha começado.
Eu a tinha trazido para o meu território, para debaixo do meu teto.
Aqui, as regras eram minhas.
E ela iria aprender, da maneira mais difícil, o que acontece quando se mexe com a família errada.
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