
Além do desprezo
Capítulo 3
A noite em Berlim caía lenta e sombria. O céu permanecia cinza, como se resistisse à escuridão total, enquanto a chuva persistente criava um tapete brilhante nas ruas iluminadas por farois e postes distantes. Maya observava a cidade pela janela do táxi, tentando ignorar o desconforto crescente em seu estômago. Estava a caminho do jantar que Gabriel sugeria - um jantar que definiria o destino da fusão e, consequentemente, de sua carreira.
Seu reflexo no vidro devolve um olhar tenso: olhos castanhos bem abertos, mas cansados. Você está no controle, disse a si mesma, respirando fundo. Já havia enfrentado situações piores - e pessoas piores. Gabriel Thorne era apenas mais uma pedra no caminho, um obstáculo temporário que, eventualmente, superaria. Pelo menos, era o que tentava acreditar.
Quando o táxi parou em frente ao restaurante - um estabelecimento elegante, porém discreto - Maya pagou a corrida e saiu rapidamente, tentando evitar que a chuva molhasse ainda mais o vestido escolhido. Um vestido preto simples, mas que lhe conferia postura, força e confiança. Queria estar impecável naquela noite. Gabriel não podia ver fraqueza, não naquele momento crucial.
Ao entrar, foi recebida por um maître que a conduziu diretamente à mesa reservada. O ambiente do restaurante era acolhedor, com luzes suaves e música instrumental ao fundo, criando uma atmosfera sofisticada e calma. Uma boa escolha, admitiu, mesmo contra a vontade de reconhecer que ele sabia impressionar quando queria.
Gabriel já a esperava, sentado com um copo de vinho à frente. Usava uma camisa social branca e calça jeans azul-escura. Nos pés, sapatos sociais pretos. Ao vê-la, levantou-se e fez um leve aceno de cabeça - um cumprimento cordial, mas distante, típico dele.
- Maya, que bom que pôde vir - disse, a voz tranquila, como se estivessem ali para um encontro casual. Mas ela sabia que tudo ali era estratégico.
- Não me restava muita escolha, não é? - respondeu, sentando-se à mesa com uma sobrancelha levemente arqueada.
Gabriel sorriu de canto - algo que a irritou mais do que gostaria de admitir.
- Sempre há escolhas, Almeida. Mas fico feliz que tenha escolhido a mais sensata dessa vez.
Ela manteve o olhar firme, sem ceder à provocação. Gabriel Thorne gostava de jogar, e ela sabia que qualquer demonstração de desconforto seria uma vitória para ele. Estava ali para uma batalha silenciosa - e não deixaria que ele a desestabilizasse tão facilmente.
- Onde está Weber? - perguntou, desviando o olhar para o cardápio à sua frente, mais interessada em saber quando aquilo terminaria.
- Ele se atrasou - respondeu Gabriel, tomando um gole do vinho, parecendo completamente à vontade. - Mas já está a caminho.
Maya suspirou internamente. Claro que Weber se atrasaria. Era o tipo de homem que gostava de deixar todos em suspense, como se sua presença fosse a peça final de um quebra-cabeça. Enquanto esperavam, o silêncio entre ela e Gabriel crescia - mas não era uma quietude confortável. Era uma mudez densa, cheia de palavras não ditas, tensões veladas e uma rivalidade que ambos se recusaram a resolver.
A garçonete apareceu, interrompendo o momento.
- Algo para beber, senhorita? - perguntou com um sorriso educado.
Maya hesitou por um instante, mas decidiu que precisaria de algo para lidar com a situação.
- Um vinho tinto, por favor - disse firme, apesar da ansiedade interna.
Gabriel a observou enquanto a garçonete se afastava. Quando voltou a olhar para Maya, trazia uma expressão que ela não conseguiu decifrar de imediato. Havia algo de diferente nele naquela noite - algo mais calmo, menos agressivo - o que a deixava ainda mais desconfiada.
- Você está particularmente quieta hoje - comentou, recostando-se na cadeira.
- E você está particularmente mais agradável do que o normal - rebateu, mantendo o tom sarcástico.
Ele riu, um som baixo e controlado, como se soubesse exatamente o que estava fazendo.
- Quem sabe eu esteja me esforçando para melhorar nossa "relação de trabalho", como você mesma mencionou mais cedo.
Maya franziu o cenho, o olhar afiado fixo nele.
- Se vamos falar de relação de trabalho, Thorne, então sejamos francos. Isso aqui - ela gesticulou entre os dois - não passa de um esforço para garantir que Weber não cancele seu apoio à unificação. Não pense que, por um segundo, estou aqui para melhorar qualquer coisa entre nós.
Gabriel ficou em silêncio por um momento, os olhos azuis fixos nos dela, como se estivesse medindo suas palavras. Quando finalmente falou, seu tom era mais sério do que antes.
- Você acha que eu me importo tanto com o que você pensa de mim?
Maya foi pega de surpresa pela pergunta, mas rapidamente recuperou a compostura.
- Acho que você se importa o suficiente para tentar me manipular sempre que tem oportunidade - respondeu seca. - E, para ser honesta, não dou a mínima.
O silêncio que se seguiu foi ainda mais tenso do que o anterior. Maya se arrependeu um pouco de ter sido tão direta, mas também sabia que não podia continuar fingindo que tudo estava normal. Gabriel era perigoso, e qualquer passo em falso poderia colocar todo o seu trabalho em risco.
A garçonete voltou com sua bebida, aliviando momentaneamente a tensão. Maya tomou um gole do vinho, apreciando o calor que se espalhava em seu peito enquanto tentava se acalmar. Gabriel, por sua vez, parecia relaxado, como se a discussão anterior não tivesse acontecido.
- Vai continuar assim? - ele perguntou, rompendo o silêncio.
- Assim como? - Maya respondeu, sem esconder a irritação.
- Se defendendo de mim, como se eu fosse seu pior inimigo.
Ela colocou o copo de vinho sobre a mesa com um leve estrondo, olhando diretamente para ele.
- E não é?
Gabriel a encara, um sorriso provocador voltando ao rosto.
- Digamos que sou apenas alguém que gosta de desafios.
Maya estava prestes a responder quando um movimento na entrada do restaurante chamou sua atenção. Jonas Weber finalmente havia chegado, trazendo um guarda-chuva e um olhar de cansaço.
- Desculpem o atraso - disse, aproximando-se da mesa e apertando a mão de Gabriel antes de fazer o mesmo com Maya.
Weber estava vestido com um terno cinza-escuro bem ajustado, que realçava sua figura esguia. Usava uma camisa branca impecável e uma gravata preta que lhe conferia um ar de sofisticação. Os sapatos de couro brilhavam, indicando atenção aos detalhes. Seu estilo era clássico, mas refletia autoridade e profissionalismo.
Maya sorriu, escondendo a irritação da troca anterior com Gabriel.
- Sem problemas, Weber. Estávamos apenas discutindo algumas ideias enquanto esperávamos.
Weber sorriu levemente, acomodando-se na cadeira.
- Ótimo, porque tenho algumas preocupações que gostaria de discutir com vocês dois.
A noite, finalmente, começou.
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