
Adeus, Vida Antiga
Capítulo 2
A festa na mansão de Ricardo estava no auge, as risadas e o som de taças de champanhe ecoando pelo salão luxuoso. Sofia se sentia um fantasma no meio de tudo aquilo, um acessório silencioso ao lado do homem com quem vivia há cinco anos. Ela usava um vestido vermelho, uma cor que amava, mas que raramente se permitia usar.
Mariana, a prima de Ricardo, se aproximou com um sorriso venenoso nos lábios. Seus olhos percorreram o vestido de Sofia com desprezo.
"Sofia, que ousadia a sua", disse Mariana, com a voz alta o suficiente para que todos ao redor ouvissem. "Você não se lembra? Vermelho era a cor de Helena. Só ela ficava bem de vermelho".
O nome da ex-noiva falecida de Ricardo pairou no ar como uma maldição. O rosto de Sofia ficou pálido. O murmúrio ao redor parou, e todos os olhos se voltaram para ela. Ela olhou para Ricardo, esperando que ele a defendesse, que dissesse qualquer coisa.
Ele apenas franziu a testa, o olhar frio e crítico.
"Mariana tem razão", disse Ricardo, sua voz baixa e dura. "Esse vestido não combina com você. Vá para o quarto e troque. Coloque algo mais discreto".
A humilhação foi pública, afiada e total. Cada palavra era uma confirmação do seu lugar naquela casa: uma substituta, uma sombra que nunca poderia preencher o espaço da mulher idealizada que veio antes dela.
Sofia sentiu um calor subir pelo seu rosto, mas não era de vergonha. Era raiva. Ela se virou sem dizer uma palavra e caminhou em direção ao interior da casa, não para o quarto, mas para o banheiro de hóspedes no corredor.
Trancada lá dentro, ela se olhou no espelho. Por cinco anos, ela acreditou que aquilo era o mais perto do amor que ela conseguiria. Ela cuidou da casa dele, suportou sua família esnobe e aceitou a distância emocional dele, tudo na esperança de que um dia ele a visse de verdade. Ela lhe deu um filho, Lucas, mas até isso não foi suficiente.
Ela percebeu, com uma clareza dolorosa, a estupidez de sua própria esperança. Eles não eram casados. Nunca houve um papel, uma certidão, nada que desse a ela qualquer segurança ou reconhecimento. Ela era apenas a "mulher do Ricardo", uma posição conveniente para ele, uma prisão invisível para ela.
A porta se abriu de repente. Ricardo estava ali, a impaciência marcando seu rosto bonito.
"Você ainda não se trocou? As pessoas estão comentando. Pare de fazer cena e coloque o vestido azul que eu comprei".
Sofia olhou para ele, não para o homem que ela tentou amar, mas para um estranho controlador. Pela primeira vez em cinco anos, uma palavra se formou em sua mente e saiu de seus lábios com uma calma surpreendente.
"Não".
Ricardo pareceu chocado por um momento.
"O que você disse?"
"Eu não vou trocar de vestido", ela repetiu, a voz firme. Ela passou por ele, saindo do banheiro.
Ela não voltou para a festa. Continuou andando, passando pelos convidados que a olhavam com curiosidade, atravessou o grande hall de entrada e abriu a porta da frente. O ar frio da noite a atingiu, um alívio bem-vindo ao ambiente sufocante da casa.
Ela não olhou para trás. Enquanto caminhava pela entrada de cascalho, ela pôde ver pela janela da sala de estar. Ricardo não a seguiu. Ele já havia se virado e agora estava conversando com uma jovem, Isabela. A garota era nova no círculo social deles, e sua semelhança com as fotos antigas de Helena era perturbadora. Ricardo sorria para ela, o mesmo sorriso encantador que ele raramente dirigia a Sofia.
Naquele momento, Sofia entendeu. Ela nunca foi a pessoa. Ela era apenas um lugar vago, e agora, ele já havia encontrado uma nova candidata para preenchê-lo. A decisão, que parecia impossível há uma hora, agora era a única opção.
Ela continuou andando, para longe da casa, para longe da festa, para longe de cinco anos de uma vida que não era sua.
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