
Adeus, Vida Antiga
Capítulo 3
A caminhada de Sofia não tinha destino. As luzes da mansão ficaram para trás, e logo a rua residencial silenciosa foi envolvida por uma garoa fina que começou a cair. Ela não se importou. A chuva fria em seu rosto parecia real, uma sensação física que a ancorava em meio ao turbilhão de emoções. Ela andou por quarteirões, o tecido do seu vestido vermelho ficando pesado e escuro com a água. Era um ato pequeno e silencioso de rebeldia, caminhar na chuva em vez de chamar um táxi, um último momento de desconforto autoimposto antes de enfrentar a realidade.
Depois do que pareceu uma eternidade, ela finalmente pegou um táxi. O motorista a olhou de forma estranha, a mulher encharcada em um vestido de festa, mas não disse nada. Ela deu o endereço da mansão, o único lar que conhecia nos últimos anos. A esperança, teimosa e dolorosa, ainda pulsava dentro dela. Uma única razão a fazia voltar: Lucas. Seu filho.
Ela entrou silenciosamente na casa, que agora estava quieta. A festa havia acabado. Ela subiu as escadas, o coração batendo forte com a antecipação de ver seu menino.
A imagem do passado surgiu em sua mente, tão nítida quanto a dor que causava. Logo após o nascimento de Lucas, Sofia sofreu de uma exaustão profunda. Dona Beatriz, sua sogra, usou isso como pretexto. Ela declarou que Sofia era "frágil demais" e "incapaz" de cuidar de um recém-nascido. Ricardo, sempre priorizando a paz com sua mãe em vez do bem-estar de Sofia, concordou.
Dona Beatriz assumiu o controle total de Lucas. Ela contratou as babás, decidiu os horários, a alimentação, tudo. Sofia foi relegada ao papel de uma visitante na vida de seu próprio filho. Ela podia vê-lo, mas sempre sob o olhar atento da avó. Qualquer tentativa de Sofia de assumir um papel mais ativo era recebida com críticas e sabotagem. "Você vai estragá-lo", Beatriz dizia. "Você não sabe o que está fazendo".
Agora, parada do lado de fora do quarto de Lucas, Sofia sentia a profundidade daquele abismo que criaram entre eles. Ela abriu a porta devagar. A luz fraca de um abajur iluminava o quarto. Lucas dormia pacificamente em sua cama.
Ela se aproximou, o coração apertado de um amor que não tinha para onde ir. Ela queria tanto pegá-lo no colo, sentir seu calor, cantar uma canção de ninar como fazia nos primeiros dias, antes de ser afastada. Ela queria ser a primeira pessoa que ele via ao acordar, a voz que o acalmava no meio da noite. Mas ela não era.
Seu olhar percorreu o quarto. Havia um novo conjunto de carrinhos de corrida na prateleira, um que ela nunca tinha visto antes. O pijama que ele usava, com estampa de foguetes, também era novo. Pequenos detalhes, mas cada um era uma prova da sua ausência, da sua irrelevância na rotina diária dele. Ele estava crescendo em um mundo construído por outra pessoa, um mundo no qual ela era apenas uma espectadora. A distância entre eles não era apenas física; era um abismo emocional que se aprofundava a cada dia.
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