
Acusação e Anel: O Preço da Vingança
Capítulo 3
O choque no rosto de Ricardo foi imediato, uma mistura de incredulidade e irritação. Ele olhou de mim para Pedro, que ainda estava no chão, como se não conseguisse processar minhas palavras. Os cochichos ao redor se transformaram em murmúrios audíveis de surpresa.
"Como assim, Ana Paula? O Pedro fez tudo isso por você!"
A voz de uma antiga colega soou, carregada de reprovação.
"Ele esperou por você por cinco anos! Que mulher não sonharia com isso?"
Outra acrescentou, e eu senti os julgamentos deles como pequenas agulhas na pele. Eles viam um homem rico e arrependido, e uma mulher ingrata e de coração duro. Eles não viam a verdade.
Ignorei todos eles. Minha atenção não estava mais ali, naquele salão abafado e cheio de fantasmas. Peguei meu celular da bolsa, a tela se iluminando com uma foto. Um homem sorridente de cabelos escuros me abraçava em uma praia ensolarada, e em seus braços, uma garotinha de cachos loiros ria para a câmera. Minha família. Meu presente. Meu futuro.
Uma mensagem de Gabriel apareceu na tela: "Princesa, a Sofia não para de perguntar da mamãe. Já estamos com saudades. Tudo bem aí?"
Um sorriso genuíno finalmente brotou em meus lábios. Digitei rapidamente uma resposta: "Também estou com saudades dos meus amores. Já estou quase saindo."
Guardei o celular no exato momento em que Pedro se levantou. Seu rosto estava pálido, a expressão de confiança substituída por uma vulnerabilidade que eu nunca tinha visto. Ele deu um passo à frente, sua voz um apelo desesperado.
"Ana, por favor. Eu sei que errei. Eu sei que te magoei de uma forma terrível. Mas eu te amo. Eu sempre te amei. Me dê uma chance de consertar tudo. Case comigo."
Ele tentou pegar minha mão, mas eu recuei instintivamente.
O diamante no anel parecia zombar de mim. Brilhante, caro e completamente vazio.
"Pedro" , eu disse, meu tom calmo, mas inflexível. "Você não entende. Não há nada para consertar."
"Claro que há! Eu destruí seu futuro, sua formatura... mas eu posso te dar tudo de volta! Uma vida que você merece!"
Eu ri, um som seco e sem humor.
"Você não destruiu meu futuro, Pedro. Você destruiu o futuro que você imaginava para mim. O meu futuro, eu mesma construí. Longe de você."
A confusão em seu rosto se aprofundou. Ele não conseguia conceber um mundo onde ele não fosse o centro.
"Você fala como se... como se não se importasse mais."
"E não me importo" , afirmei, olhando diretamente em seus olhos. "O que você fez comigo não foi um simples erro, Pedro. Foi uma traição."
A palavra pairou no ar, carregada de todo o peso daqueles cinco anos. Ele estremeceu, como se eu o tivesse atingido.
"Eu precisei ir embora, recomeçar do zero, carregar uma vergonha que não era minha. E enquanto eu fazia isso, você vivia sua vida de sucesso, talvez com a consciência um pouco pesada, mas nada que o dinheiro e a influência da sua família não pudessem aliviar."
O silêncio dele era uma confissão.
"Então, não" , continuei, sentindo uma onda de força. "Eu não vou me casar com você. Nunca."
Ele balançou a cabeça, recusando-se a aceitar. "É por causa de outro homem? Você conheceu alguém em Portugal?"
A pergunta era patética, uma última tentativa de encontrar uma desculpa que não o colocasse como o único vilão da história.
Decidi acabar com aquilo de uma vez por todas. Respirei fundo, preparando-me para lançar a bomba final.
"Sim, Pedro. Eu conheci alguém."
O rosto dele se contraiu em uma máscara de dor e ciúme.
"E não, não é apenas 'alguém' . Ele é meu marido."
O ar pareceu ser sugado dos pulmões de Pedro. Os murmúrios ao redor cessaram completamente. O silêncio era total.
"Eu sou uma mulher casada, Pedro."
Fiz uma pausa, deixando as palavras assentarem, antes de dar o golpe de misericórdia.
"E nós temos uma filha. O nome dela é Sofia."
A cor sumiu completamente do rosto de Pedro. Ele deu um passo para trás, seu corpo balançando como se tivesse sido empurrado com força. Seus olhos, antes cheios de uma esperança arrogante, agora estavam vazios, refletindo um homem que acabara de ver seu mundo cuidadosamente construído desmoronar em pó.
"Você... casada?" ele gaguejou, a palavra saindo como um sopro. "Uma... filha?"
Eu apenas assenti, friamente.
"Traição, Pedro" , eu disse, minha voz baixa, mas cortante. "Não é quando você protege a mulher que você secretamente deseja. Traição é quando você destrói a mulher que dizia amar para fazer isso. E isso é algo que um anel de diamante não pode apagar."
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