
Abandonado em Paris, Renascido em Londres
Capítulo 3
Ponto de Vista: Charlotte Ferraz
A escuridão aveludada da noite parisiense era um cobertor macio. As luzes da cidade cintilavam como diamantes espalhados, lindas e indiferentes. Chegamos ao hotel, um grande edifício antigo perto do Sena, bem depois da meia-noite. Eu estava exausta do voo, da conversa fiada forçada e da consciência constante das tentativas desesperadas do Damião de reacender algo que há muito se transformara em cinzas.
Enquanto o carregador descarregava nossas malas, o celular do Damião vibrou, um zumbido áspero e indesejado no saguão silencioso. Ele olhou para a tela e seu rosto se contraiu instantaneamente. Um nome familiar brilhou no visor. Eva.
Ele atendeu, sua voz baixa e tensa. "Eva? O que foi? Você está bem?"
Sua preocupação foi imediata, visceral. Era o tipo de preocupação genuína que eu costumava desejar, o tipo que ele só parecia reservar para ela. Meu coração nem sequer palpitou. Era apenas mais uma batida previsível no ritmo monótono de nosso relacionamento moribundo.
Suas palavras se tornaram curtas, urgentes. "O quê? Perdido? Como você pôde... Não, não, não chore. Estou a caminho. Fique onde está. Estarei aí o mais rápido que puder."
Ele desligou, seus olhos arregalados com uma energia frenética que eu não via direcionada a mim há anos. Ele murmurou algo para o carregador, praticamente arrancando as chaves do carro da mão dele.
"O que foi, Damião?" perguntei, minha voz neutra. Eu já sabia, é claro.
Ele se virou para mim, seu rosto uma máscara de preocupação em pânico. "É a Eva. Ela está aqui. Aparentemente, ela pegou um voo de última hora porque sempre quis ver Paris, e o passaporte dela sumiu. Ela está completamente transtornada. Eu preciso ir."
Passaporte perdido. O truque mais antigo do livro dela. Ou era "medo do escuro"? "Cachorro perdido"? "Um pneu furado no meio do nada"? As emergências da Eva eram sempre perfeitamente cronometradas, sempre perfeitamente inconvenientes, sempre afastavam o Damião de mim. Desta vez, era Paris.
"Ela está aqui," repeti, entorpecida. "Em Paris. Que coincidência."
Ele não percebeu o sarcasmo. Ou se percebeu, ignorou. "Eu sei, né? Ela é tão indefesa às vezes. Eu tenho que ir, Char. Ela está com muito medo. Eu simplesmente não posso deixá-la sozinha." Ele pegou minha mão, seu aperto fugaz. "Você sobe para o quarto. Descansa. Eu volto assim que resolver isso. Prometo."
E com isso, ele se foi. Um borrão de movimento, o cantar de pneus nas pedras e o eco de sua promessa apressada. Abandonada. De novo. Em um país estrangeiro. Minha bagagem, contendo meu passaporte e carteira, provavelmente ainda estava em seu carro, ou com seu assistente, ou... em algum lugar. Os detalhes não importavam. O que importava era a picada familiar da negligência, que, surpreendentemente, não era mais uma picada. Apenas uma dor surda e oca.
Percebi que não tinha nem a chave do meu quarto. Nem meu passaporte. Nem nenhuma moeda local. Nem um celular funcionando, já que eu ativaria um novo chip local mais tarde. O carregador olhou para mim, com um olhar educado e inquisitivo. Tentei explicar, tropeçando no meu francês limitado, depois recorrendo a gestos frenéticos e a um aplicativo de tradução.
A recepcionista do hotel, uma mulher de rosto severo, olhou para mim com uma mistura de pena e suspeita. "Madame, sem identificação, não posso fazer seu check-in. Seu nome está na reserva, sim, mas preciso ver seu passaporte."
Meus ombros caíram. Damião estava com meu passaporte. Claro que estava. Ele sempre cuidava da "logística", o que muitas vezes significava guardar todos os documentos importantes. Eu estava ilhada. Sozinha. Exausta.
Afundei em um sofá de veludo macio no saguão opulento, a grandiosidade do ambiente zombando da minha situação atual. O relógio acima da recepção marcava lentamente, cada minuto um peso de chumbo. Uma hora se passou. Depois duas. Damião não voltou. A onda inicial de frustração deu lugar a uma apatia familiar. Eu não estava com raiva. Eu estava apenas... cansada. Cansada de suas prioridades, cansada das crises fabricadas da Eva, cansada de ser um pensamento secundário.
Meus olhos pesaram. A fadiga do longo voo, o esgotamento emocional dos últimos três anos, finalmente me alcançaram. Inclinei a cabeça contra o veludo frio, entrando e saindo de um sono agitado. O saguão, antes movimentado, agora estava quieto, exceto pelo murmúrio suave da equipe noturna.
"Charlotte? É você mesmo?" Uma voz baixa e familiar cortou a névoa do meu sono.
Acordei sobressaltada, meus olhos piscando. Uma figura alta estava sobre mim, silhuetada contra as luzes suaves do saguão. Ele tinha uma bolsa de câmera pendurada no ombro e um sorriso leve e divertido no rosto.
"Connor?" sussurrei, minha voz grossa de sono e incredulidade. Connor Neves. Meu antigo parceiro de laboratório da faculdade. O cara descontraído e infinitamente paciente que sempre me fazia rir, mesmo quando nossos experimentos explodiam.
Ele sorriu. "O único. O que você está fazendo dormindo no saguão de um hotel chique em Paris, Ferraz? Seus planos de viagem deram errado?"
Um sorriso genuíno e espontâneo se espalhou pelo meu rosto. Na vasta e solitária extensão de uma cidade estrangeira, encontrar um rosto familiar parecia uma âncora milagrosa. "Connor! Meu Deus, é você mesmo." Levantei-me rapidamente, sentindo um rubor subir pelas minhas bochechas. "É, pode-se dizer que sim. Longa história."
"Eu tenho tempo," ele disse, seu olhar varrendo o saguão vazio, depois voltando para o meu estado desgrenhado. "Você está com... o Damião?"
Dei de ombros, um gosto amargo na boca. "Ele estava aqui. Recebeu uma ligação. Uma 'emergência'. Teve que ir." Não me dei ao trabalho de elaborar. Connor, sempre observador, já parecia ter juntado as peças.
"Deixa eu adivinhar," ele disse, um olhar de quem sabe nos olhos. "A amiga 'indefesa' dele precisava de resgate?"
Eu simplesmente assenti, uma risada sem alegria escapando dos meus lábios.
"Imaginei." Ele balançou a cabeça. "Então, onde você está hospedada? E por que está presa aqui embaixo?"
"Não estou com meu passaporte," expliquei. "O Damião está com ele. Então o hotel não vai me deixar fazer o check-in."
A expressão de Connor endureceu um pouco. "Ele te deixou sem seu passaporte? Em um país estrangeiro?" Sua voz continha uma nota de raiva genuína. Era um contraste gritante com o abandono conveniente do Damião.
"Está... tudo bem," eu disse, embora não estivesse. Mas eu não queria me demorar nisso. "Escuta, Connor, você poderia me fazer um favor enorme? Teria como você me ajudar a conseguir um quarto para a noite? Eu posso te pagar de volta, claro. Só... qualquer lugar. Estou tão cansada."
Ele não hesitou. "Claro. Meu quarto é logo ali no corredor. Eles geralmente são bem tranquilos em me dar um extra se eu precisar para equipamento. Deixa eu só verificar com o gerente da noite."
Ele caminhou em direção à recepção, falando francês fluente com o gerente noturno perplexo. Alguns minutos depois, ele voltou, com um cartão-chave de quarto na mão.
"Pronto, tudo certo," ele disse, me entregando o cartão. "Quarto 407. É só um padrão, nada chique, mas está vazio e tem uma cama. Você pode dormir lá esta noite. Eu estarei no 409. Se precisar de qualquer coisa, sério, é só bater. Ou ligar. Meu número já está salvo no seu celular desde a faculdade, certo?"
Eu ri, uma risada genuína e sincera que parecia estranha em meus lábios. "Você lembrou do meu número?"
"Claro, Ferraz," ele disse, um sorriso caloroso em seus olhos. "Algumas coisas a gente simplesmente não esquece." Ele fez uma pausa, um olhar pensativo no rosto. "Durma um pouco, Charlotte. Podemos resolver o desastre do Damião pela manhã. E não se preocupe com o quarto. Considere um favor do seu antigo parceiro de laboratório."
"Obrigada, Connor," eu disse, as palavras parecendo inadequadas. "Sério. Obrigada."
"A qualquer hora," ele respondeu, sua mão tocando brevemente meu ombro, um gesto de apoio puramente platônico e reconfortante. "Bons sonhos."
Assenti, sentindo uma estranha mistura de alívio e... outra coisa. Esperança? Caminhei em direção aos elevadores, o cartão-chave um peso pequeno e quente na minha mão. Pela primeira vez em muito tempo, senti um lampejo de algo além da indiferença. E não era pelo Damião.
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