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Capa do romance Abandonado em Paris, Renascido em Londres

Abandonado em Paris, Renascido em Londres

Após três anos sendo negligenciada por Damião em favor de sua amiga Eva, uma viagem a Paris deveria salvar meu namoro. Em vez disso, ele me abandonou sem documentos para socorrer Eva, acusando-me de traição ao ser acolhida por um amigo. Cansada de manipulações, escolhi a indiferença. Enquanto ele implorava perdão e prometia mudanças, parti para Londres para assumir a carreira que antes recusei por ele, deixando-o sozinho com seus arrependimentos e sua amiga.
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Capítulo 1

Por três anos, fui o segundo plano na vida do meu namorado para a "amiga de infância" dele, a Eva.

Quando o Damião finalmente me levou para Paris para reacender nossa chama que estava morrendo, achei que as coisas poderiam mudar.

Em vez disso, no momento em que chegamos, ele me abandonou no saguão do hotel, sem meu passaporte, porque a Eva ligou com uma "crise".

Passei minha primeira noite em Paris, perdida e sem um tostão, enquanto ele corria para consolá-la.

Quando ele finalmente voltou na manhã seguinte, não pediu desculpas.

Ele explodiu de raiva porque eu tinha procurado abrigo no quarto de um velho amigo da faculdade, me acusando de traição enquanto ele ainda cheirava ao perfume barato dela.

Ele chegou a socar o único homem que me ajudou, gritando que eu era a tóxica da história.

Aquele gaslighting foi a gota d'água. Eu não sentia mais raiva, apenas uma indiferença fria e libertadora.

Enquanto ele implorava de joelhos, largando o emprego e prometendo cortar a Eva para sempre, eu simplesmente fui embora.

Embarquei em um avião para Londres para uma promoção que eu tinha recusado por ele, deixando-o com nada além de seus arrependimentos e a "amiga" que ele escolheu em vez de mim.

Capítulo 1

Ponto de Vista: Charlotte Ferraz

Ele estava me observando de novo.

Aquele olhar familiar, quase possessivo, queimando minhas costas do outro lado da galeria lotada.

Eu não precisava me virar para saber que era o Damião. O ar sempre parecia mais rarefeito, mais tenso, quando ele estava por perto.

Três anos. Três anos disso.

Meu coração, que antes batia como um tambor frenético sempre que ele entrava em um lugar, agora pulsava no ritmo lento e constante de um metrônomo ajustado para a indiferença.

"Charlotte." A voz dele, suave como sempre, cortou o zumbido baixo da conversa.

Virei-me lentamente, com um sorriso ensaiado e vazio estampado no rosto. "Damião."

Seus olhos se estreitaram um pouco. Ele não esperava aquele tom, aquela polidez distante. Estava acostumado com meu calor, minha preocupação, minha exasperação. Não com aquele vazio silencioso.

"Você está aqui." Não era uma pergunta, mas uma acusação.

"Até onde eu sei, tenho permissão para ir a aberturas de galerias," eu disse, com a voz neutra. Meu olhar varreu a arte, demorando-se em uma peça abstrata particularmente vibrante. Era tão viva. Tão diferente de mim, ultimamente.

"Eu te liguei," ele insistiu, ignorando minha evasiva. "Várias vezes. Você não atendeu."

Um zumbido fraco de irritação vibrou no meu peito, um eco residual de mágoas antigas. Lembrei-me dos dias em que eu me agarrava ao celular, desesperada por suas ligações, por qualquer sinal de que ele se lembrava de mim quando estava com a Eva. Ele me chamava de "controladora", "carente", por querer comunicação básica. Agora, era ele quem queria. Que piada cruel.

"O celular estava no silencioso," menti, sem esforço. "Ocupada admirando a arte."

"Charlotte! Você veio!" O Léo, meu colega da agência de marketing, passou um braço sobre meu ombro, me afastando um pouco do Damião. Ele deu um aceno frio para o Damião. "Não esperava te ver por aqui, Guedes. Pelo que eu saiba, arte moderna não é muito a sua praia."

O maxilar do Damião se contraiu. "Só vim apoiar a exposição de uma amiga." Ele gesticulou vagamente para um canto. "A Eva está aqui. Ela conhece o artista."

Claro que a Eva estava aqui. A Eva estava sempre aqui. Em todos os lugares. Sempre uma presença, uma sombra, uma prioridade.

Não senti nada ao ouvir o nome dela. Nem raiva, nem ciúme, apenas... nada. Um vazio silencioso.

"Bom, divirtam-se vocês dois," disse o Léo, seu aperto no meu ombro uma âncora reconfortante. "Charlotte e eu estávamos discutindo os méritos das pinceladas caóticas sobre o realismo estruturado. Uma conversa muito mais estimulante do que... bem, você sabe." Ele piscou, insinuando sutilmente a superficialidade habitual do Damião.

Damião ficou irritado. "Charlotte, precisamos conversar," ele insistiu, aproximando-se, tentando recuperar minha atenção. "Tentei falar com você a semana toda. Deixei recados."

Uma memória veio à tona, nítida e clara: "Você pode parar de explodir meu celular? Estou ocupado. É sufocante, Charlotte. Preciso de espaço." Ele disse isso depois que eu liguei para ele duas vezes em uma hora, preocupada porque ele deveria estar em casa para o jantar e não respondia minhas mensagens há cinco horas. Ele estava com a Eva naquela vez também. Sempre a Eva.

"Deixou?" perguntei, minha voz desprovida de curiosidade. "Meu celular anda meio instável." Outra mentira sem esforço. A verdade é que eu simplesmente tinha parado de olhar. Parado de me importar com o que ele tinha a dizer.

Eva, esguia e etérea em um vestido branco esvoaçante, materializou-se ao lado do Damião, com os olhos grandes e inocentes. "Damião, querido, está tudo bem?" Ela olhou para mim, um brilho indecifrável em seu olhar. "Ah, Charlotte! Não tinha te visto aí. Você parece... diferente."

"Estou bem, Eva," eu disse, minha voz tão plana quanto a parede da galeria.

"Vocês dois deveriam mesmo colocar o papo em dia," Eva cantarolou, seu braço deslizando pelo do Damião. "O Damião estava tão preocupado com você. Ele estava dizendo que não conseguia te encontrar, e ele sempre se preocupa quando você não está por perto."

Eu quase ri. Preocupado? Ele se preocupava com suas posses, não comigo. Olhei para o Damião, que parecia desconfortável, mas não se afastou do toque da Eva. "Tenho certeza que estava," murmurei, meus olhos voltando para a pintura abstrata. A vibração das cores zombava da minha própria paleta emocional.

Damião pigarreou. "Olha, Charlotte, podemos... ir para um lugar mais quieto? Podemos conversar. Estive pensando, talvez pudéssemos ir àquele restaurante baiano novo que você sempre quis experimentar. Aquele que abriu no Itaim."

O restaurante baiano. Meu favorito. Meu estômago, que por tanto tempo foi um nó emaranhado, não sentiu nada. Outra memória, vívida e dolorosa: "Aquele cheiro? De jeito nenhum, Charlotte. Vai empestear o apartamento inteiro por dias. Você sabe que eu não suporto cheiros fortes. Você pode se deliciar com isso quando eu estiver fora da cidade." Eu tinha desistido do meu amor por moqueca por ele, por seu apartamento impecável e sem cheiro, por seu conforto. Assim como eu tinha desistido de tantas outras coisas.

"O restaurante baiano?" repeti, minha voz ainda sem graça. "Ah, claro. Aquele. Tudo bem, Damião. Tanto faz."

Um lampejo de alívio cruzou seu rosto, rapidamente substituído por um sorriso possessivo. Ele estendeu a mão, roçando a parte inferior das minhas costas, como se para me guiar. "Viu? Eu sabia que você ia ceder."

Eu me encolhi, quase imperceptivelmente, afastando-me de seu toque como se estivesse queimada. A pele onde ele havia tocado parecia fria, estranha. Ele não pareceu notar, ou escolheu não notar. Ele apenas sorriu, um brilho de triunfo em seus olhos. Ele achava que ainda me tinha. Ele achava que eu ainda era a garota que largaria tudo por uma migalha de sua atenção.

Ele estava enganado.

Era tarde, as luzes da cidade um mosaico embaçado do lado de fora da janela do táxi. A volta para casa foi longa, silenciosa e pesada com as expectativas não ditas do Damião. Quando finalmente chegamos ao nosso apartamento, o silêncio familiar do corredor me oprimiu. Procurei minhas chaves, exausta até os ossos. O pensamento de desabar na cama era a única coisa que me mantinha de pé.

No momento em que entrei, as luzes se acenderam. Damião estava na sala de estar, de braços cruzados, sua camisa branca impecável um farol na luz fria. Ele estava esperando.

"Onde você estava, Charlotte?" Sua voz era fria, acusadora, desprovida de qualquer preocupação genuína. Era o tom que ele usava quando eu perturbava seu mundo cuidadosamente ordenado.

Eu não tinha energia para isso. Não hoje à noite. Provavelmente nunca mais. Meus ombros caíram. "Na rua. Com o Léo. Na galeria."

"Até depois da meia-noite?" Ele zombou, seus olhos me percorrendo como se procurassem evidências de transgressão. "O que você estava fazendo todo esse tempo?"

"Admirando arte. Conversando. Vivendo minha vida," retruquei, as palavras planas e sem vida. Passei por ele, indo direto para o quarto. Tudo que eu queria era rastejar para debaixo das cobertas e desaparecer.

Ele se moveu mais rápido, parando na minha frente, bloqueando meu caminho. Sua presença parecia uma parede. "Você não acha que isso é um pouco demais? Você sabe que eu me preocupo. E sair tarde assim sem nem uma mensagem? É desrespeitoso."

Desrespeitoso. A ironia era um gosto amargo na minha boca. Eu apenas o encarei, meu olhar vazio. Não havia mais raiva, apenas um cansaço vasto e ecoante.

Ele viu meu olhar vazio e sua expressão suavizou um pouco, transformando-se em um charme ensaiado. Ele enfiou a mão no bolso do paletó. "Olha, eu sei que você ficou chateada mais cedo. Por causa da Eva. E sobre... minha agenda lotada." Ele tirou uma pequena caixa de veludo. "Eu comprei uma coisa pra você. Uma oferta de paz."

Ele a abriu, revelando um delicado colar de prata com um pequeno pingente brilhante. Era bonito, de um jeito genérico. Um pedido de desculpas genérico para um problema genérico que ele não entendia de verdade.

"Você está sendo um pouco infantil, sabia," ele continuou, um sorriso paternalista no rosto. "Exagerando. A Eva é só uma amiga. Você precisa confiar em mim. Quando você vai crescer e perceber que eu só tenho olhos para você?"

Eu nem me dei ao trabalho de olhar direito para o colar. Apenas peguei a caixa da mão dele, meus dedos roçando os dele, e a joguei descuidadamente no aparador perto da porta. Aterrissou com um baque suave. O som foi engolido pelo silêncio repentino.

Ele piscou, seu sorriso vacilando. "Charlotte? Você não vai... experimentar?"

Eu não respondi. Apenas passei por ele, meus pés se arrastando. A cama era um santuário. Desabei nela, totalmente vestida, e fechei os olhos. O sono me tomou instantaneamente, um esquecimento profundo e sem sonhos. Não ouvi o suspiro frustrado do Damião, nem o clique suave da porta do quarto se fechando. Não senti sua presença persistente, nem o peso de sua decepção. Eu não senti absolutamente nada.

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