
Abandonada no Altar
Capítulo 2
Leonhart Moreau
Aquela mulher realmente era diferente. Imaginava uma coisa e, como um golpe seco no escuro, ela me surpreendia em cada detalhe.
Não houve drama, nem perguntas, nem sequer ressentimento. Apenas dignidade. Silêncio. E um olhar que dizia: "Eu caí, mas não estou quebrada."
- Clóvis, preciso que pesquise tudo sobre Elena Vasquez D'Amato. Tudo o que aconteceu em Nova York e tudo o que ela passou. - Disse, girando o líquido âmbar na taça de cristal.
- Já estou fazendo essa pesquisa. Sabia que iria me pedir. - Ele respondeu, sem tirar os olhos do notebook, os dedos digitando com precisão.
- Por isso você trabalha para mim. - Sorri, levando o copo aos lábios.
Clóvis não era apenas meu assistente. Era meus olhos, meus ouvidos e, por vezes, minha consciência. Um homem meticuloso, leal e extremamente discreto. Seu talento era encontrar segredos onde nem se imaginava que existiam.
- Ela foi manchete em todos os tabloides ontem. - Clóvis continuou. - Abandono no altar, vestido assinado por uma estilista exclusiva de Manhattan, flores francesas, convidados da alta sociedade... e um vídeo que já passou dos dez milhões de acessos.
- Arthur Prescott. - Digo o nome como quem pronuncia um insulto. - Esse imbecil trocou Elena por uma ex-namorada superficial?
- Valentina Leclerc. Filha de um magnata francês decadente. Retornou a Nova York esta semana e publicou uma foto provocativa com a legenda "de volta e solteira" na véspera do casamento.
- E ele caiu como um adolescente apaixonado. - Completei com sarcasmo. - Fraco.
Clóvis permaneceu em silêncio, como de costume. Sabia quando eu precisava pensar.
- E o passado dela? Antes de Nova York?
- Mais complexo do que pensávamos. - Ele respondeu, com o cenho franzido. - Elena foi encontrada aos quatro anos em um bordel clandestino. Há indícios de que foi traficada. Foi resgatada pela família Vasquez, que a adotou legalmente e a criou ao lado do filho biológico, Diego.
Franzi a testa, o copo a meio caminho dos lábios. Aquilo explicava muito.
- E os D'Amato?
- A encontraram quando ela tinha dezessete anos. Houve uma reunião, ela chegou a visitar a casa da família biológica, mas fugiu dias depois e voltou para os Vasquez. Nunca mais quis contato.
- Por quê?
- Fontes indicam que ela foi tratada com frieza. Havia um acordo arranjado: casamento com o filho de aliados. Ela recusou e se sentiu usada. Depois disso, cortou relações.
Suspirei, sentindo o peso daquelas palavras. Elena era feita de camadas. Sobrevivente. Orgulhosa. Independente.
E agora ela estava vindo para Florença, para se casar comigo.
- E depois disso?
- Cresceu em Nova York com os Vasquez. Estudou, trabalhou, construiu uma reputação sólida como organizadora de eventos para a elite. Até que conheceu Arthur. O resto você sabe.
- Os pais adotivos?
- Morreram há cerca de um ano. Um acidente de carro. Restou apenas Diego. Ele é protetor com ela.
Assenti. Faria sentido ela ter ligado de volta para os D'Amato. Não por afeto, mas por estratégia. Por sobrevivência.
Meu celular vibrou. Uma nova mensagem de Elena:
"Se vamos fingir que somos perfeitos, é bom que você sorria pelo menos uma vez."
Sorri de lado. Aquela mulher...
- Responda por mim, Clóvis.
- O quê exatamente?
- Diga que aceito o desafio. E que o sorriso... vem no casamento.
Ele sorriu, digitando a resposta.
Levantei-me e caminhei até a janela do meu escritório. Florença se estendia abaixo, antiga e eterna. As torres, os telhados vermelhos, o perfume das flores que vinha das sacadas. Tudo parecia calmo... mas dentro de mim havia um furacão.
O casamento seria em breve. Um acordo entre as famílias D'Amato e Moreau, selando alianças antigas. Mas não era isso que me movia.
Era ela.
Eu queria entender quem era aquela mulher que caminhou sozinha até a calçada da igreja, sujou o vestido de noiva e, mesmo assim, manteve a cabeça erguida. A mulher que recusou um lar frio e preferiu o calor do improvável. Que agora, por escolha ou desespero, aceitava se casar comigo.
Não havia romance. Não ainda.
Mas havia curiosidade.
E isso, para mim, era o início de tudo.
- E o que achou dela? - Clóvis perguntou por fim, encarando-me por cima da tela.
Girei o copo de whisky entre os dedos, observando o âmbar dançar sob a luz do escritório.
- Ela não é o que eu esperava - disse com honestidade. - Achei que teria que lidar com uma herdeira mimada, chorando por ter sido rejeitada no altar. Mas encontrei alguém... firme. Ferida, sim. Mas com a cabeça erguida.
Clóvis arqueou uma sobrancelha. - Está dizendo que gostou dela?
Soltei um meio sorriso.
- Estou dizendo que ela tem potencial. E se tudo correr como planejado, será uma excelente Moreau.
Houve uma breve pausa, então ele completou com um olhar mais sério:
- Mas se ela estiver quebrada demais... eu não vou colar os cacos.
- Entendido.
Me levantei e caminhei até a estante de livros de couro. Precisaria de mais do que estratégia para lidar com aquela mulher. Precisaria de controle. E talvez... um pouco de sorte.
Na tela do notebook de Clóvis, a imagem congelada de Elena no altar - o momento exato em que virou as costas ao "felizes para sempre" - ainda estava aberta.
Mas para mim, essa história estava só começando.
{...}
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