
Abandonada no Altar
Capítulo 3
Elena Vasquez D'Amato
Em breve eu deixaria de usar o sobrenome que eu mais amava e o que eu mais odiava, para usar o que eu mal conhecia.
Logo eu seria a senhora Moreau.
O quão tranquilo seria esse casamento? Eu e Leonhart tínhamos concordado em sermos leais, e nada mais. Mas será que eu conseguiria viver muitos anos sem um amor? Ou será que um dia nos apaixonaríamos? Ou será que um dia eu abriria meu coração? E esqueceria tudo que passei com Arthur?
Não parecia provável.
Em meio aos meus devaneios, recebi uma ligação histérica de meu irmão, Diego. A notificação mal piscou na tela antes de eu atender. Era sempre ele o primeiro a se preocupar comigo, a me defender do mundo - mesmo quando eu insistia em me jogar de cabeça nele.
- Elena?! Que porra é essa?! - ele berrou assim que atendi. - Você me doou toda a sua parte da herança? Vai se casar com um desconhecido?! Voltou pra aquela gente?!
Fechei os olhos, respirando fundo antes de responder. O carro preto que me conduzia pelas ruas de Florença parecia ainda mais silencioso diante do tom da voz dele.
- Eu precisava fazer isso, Diego. - falei baixinho.
- Isso é loucura. Você não precisava de nada! Você tinha um lar comigo, tinha opções. Elena, você estava destruída e agora vai se enterrar num casamento arranjado com um cara que você mal conhece?!
- Eu preciso seguir em frente. - minha voz falhou por um segundo, mas me recompus. - E você sempre disse que não queria essa herança. Só estou formalizando o que a gente já sabia.
- Formalizando? Elena, você acabou de ser abandonada no altar e está correndo para se casar de novo? E nem com alguém que ama! Isso é punição ou é fuga?!
Talvez fosse as duas coisas.
A verdade é que eu não sabia. Só sabia que ficar em Nova York era impossível. Ser a mulher rejeitada no altar, viralizada nos stories de centenas de convidados, eternamente lembrada como a noiva que ouviu um "não"... isso não era uma opção. E mais do que isso, eu não suportava mais viver entre as cinzas do que havia sido minha vida com Arthur.
- Só me promete que vai cuidar de você. - ele disse por fim, num tom mais calmo, cansado. - E que, se isso der errado, você me liga. Não importa a hora. Nem o lugar.
- Eu prometo. - murmurei, com um aperto no peito.
O carro parou diante de um portão imponente. Florença se abria à minha frente com sua arquitetura histórica e elegância atemporal. Era um lugar belo demais para uma alma ferida como a minha, mas eu estava ali.
A mansão dos Moreau parecia saída de um filme. A fachada de pedras claras, as janelas com molduras escuras, e um jardim perfeitamente cuidado. Era tudo luxuoso, sofisticado, e ao mesmo tempo... impessoal. Como se a beleza servisse apenas como máscara para segredos muito bem guardados.
Do lado de fora, uma mulher me aguardava. Vestia-se como alguém que administrava tudo - da casa aos escândalos da família.
- Senhorita D'Amato. - ela disse com um leve aceno de cabeça. - Sou Céline. Governanta da casa. O senhor Moreau está à sua espera.
Assenti e desci do carro com um pouco de hesitação. O salto afundou levemente no cascalho da entrada, como se o chão também testasse minha firmeza.
Leonhart me aguardava no saguão. Alto, impecável, frio como o mármore sob nossos pés. Seus olhos cinzentos me estudaram como se eu fosse uma peça de um jogo que ele precisava entender.
- Seja bem-vinda, Elena. - disse com um leve sorriso. Não havia calor, mas tampouco desprezo.
- Obrigada, senhor Moreau.
- Leonhart. - corrigiu com um movimento de cabeça. - A menos que prefira manter as formalidades.
- Não. Leonhart está ótimo. - respondi, tentando parecer firme.
Nos encaramos por alguns segundos. Ele era bonito de um jeito perigoso. Tinha aquele tipo de presença que dominava qualquer sala. Eu me sentia como alguém que estava prestes a assinar um contrato cujas cláusulas em letras pequenas eu ainda não tinha lido.
- Vai querer descansar antes de discutirmos os termos da convivência? - ele perguntou.
- Não. Prefiro resolver tudo agora. Assim já sei com o que estou lidando.
Um dos cantos da boca dele se ergueu em algo parecido com aprovação.
Caminhamos juntos até a biblioteca da mansão. Era um lugar silencioso, forrado por estantes de madeira escura e livros encadernados em couro. Uma lareira apagada e duas taças de vinho já nos aguardavam na mesa.
- Primeira regra - ele começou, servindo o vinho. - Respeito. Não nos casamos por amor, mas não aceitarei desrespeito ou escândalos. Você será uma Moreau em todos os sentidos - inclusive diante da mídia.
Assenti, pegando a taça. - Está bem. Segunda?
- Liberdade. - ele disse, me encarando com um olhar firme. - Não espero que finja algo que não sente. Mas quero honestidade. Se quiser partir, será livre para fazê-lo - desde que me avise com antecedência.
- Entendido.
- Terceira e última regra. - ele se aproximou levemente, e agora seu tom era mais lento. - Lealdade. Se você aceitar este casamento, terá minha proteção, meu nome, e minha aliança. Mas eu exijo fidelidade - não no sentido romântico, mas no sentido político. Você será minha esposa. E eu, seu aliado.
Aquilo não era um conto de fadas. Era um acordo. Um pacto entre duas almas feridas demais para amar, mas orgulhosas demais para se curvar.
- Eu aceito. - disse por fim, tocando minha taça na dele. - Desde que você prometa não me tratar como uma peça de xadrez. Eu já fui usada demais na vida.
Leonhart se inclinou ligeiramente.
- Nunca subestimo uma rainha, Elena.
O vinho desceu como fogo pela garganta. Era oficial. Eu estava prestes a me tornar alguém que nunca planejei ser: esposa de um estranho, filha de uma aristocracia que me abandonou, e protagonista de uma história que não escrevi - mas que, pela primeira vez, pretendia reescrever.
{...}
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