
A Viúva Vira o Jogo
Capítulo 2
O telefone tocou no meio da tarde, um som estridente que cortou o silêncio do meu apartamento.
Eu estava regando as plantas na varanda.
Olhei para o identificador de chamadas, era um número desconhecido.
Atendi.
"Senhora Maria?"
"Sim."
"Sou o delegado Martins, da delegacia do porto. Lamento informar, mas houve um acidente com o barco do seu marido, o senhor João."
Fiquei em silêncio, esperando.
O delegado continuou, um pouco desconfortável com a minha falta de reação.
"Ele... ele não sobreviveu. Encontramos o corpo dele e de outra passageira, uma senhora chamada Isabela."
"Entendo."
"Senhora? A senhora está bem? Precisa que eu envie uma viatura?"
"Não precisa, delegado. Agradeço a informação. O que eu preciso fazer agora?"
Ele pareceu surpreso com a minha praticidade.
"Bem, a senhora precisa vir ao necrotério para identificar o corpo."
"É realmente necessário? Vocês já não confirmaram a identidade dele?"
"É o procedimento padrão, senhora."
"Certo. Estarei aí em uma hora."
Desliguei.
Voltei a regar minhas plantas, terminando o que eu havia começado.
Quando a última gota de água caiu na terra do vaso, eu entrei, troquei de roupa, peguei minha bolsa e as chaves do carro.
No necrotério, o cheiro de desinfetante era forte.
O delegado Martins me guiou até uma sala fria.
Um corpo estava coberto por um lençol branco.
Um funcionário puxou o lençol, revelando o rosto de João.
Estava pálido, com alguns arranhões, mas era ele.
"É ele", eu disse, sem emoção.
"Meus pêsames, senhora."
"O que vai acontecer com o corpo agora?"
"A senhora pode contratar uma funerária para cuidar dos preparativos do velório e do enterro."
"Não haverá velório. Nem enterro. Quero que ele seja cremado. O mais rápido possível."
O delegado me olhou, chocado.
"Mas... e a família dele? Seus pais?"
"Eu sou a esposa dele. A decisão é minha. Vou ligar para a funerária agora mesmo e autorizar a cremação imediata."
Saí da sala e fiz a ligação ali mesmo, no corredor.
Resolvi toda a papelada em menos de trinta minutos.
Paguei por tudo com o cartão de crédito dele.
Ao sair do necrotério, o sol da tarde bateu no meu rosto.
Eu não chorei.
Não senti nada além de um vago alívio.
Dirigi até o meu bar favorito, pedi uma taça do champanhe mais caro e brindei sozinha.
Um brinde ao fim.
A notícia da morte de João se espalhou como fogo.
"Empresário influente morre em trágico acidente de barco".
As manchetes diziam que ele era um herói, que morreu tentando salvar sua ex-namorada, Isabela, que também se afogou.
Eles não sabiam de nada.
Eu sabia quem João era de verdade.
Um homem egoísta, infiel.
Um criminoso.
Na semana anterior à sua morte, meu advogado tinha me mostrado as provas.
João estava desviando bens da nossa empresa conjunta.
Estava se preparando para pedir o divórcio.
Ele planejava se casar com Isabela assim que se livrasse de mim.
A morte dele não foi uma tragédia para mim.
Foi uma oportunidade.
Ele me deixou sozinha, viúva, e herdeira de uma fortuna imensa.
Ele achou que ia me deixar sem nada.
Mas o destino tinha outros planos.
Naquela noite, depois de beber meu champanhe, fui para casa.
Abri o cofre de João.
Lá dentro, encontrei uma pasta.
"Divórcio", estava escrito na etiqueta.
Dentro, todos os documentos que ele preparava contra mim.
E também um exame médico.
Um exame que ele escondeu de todos.
Um exame que dizia que ele era estéril.
Peguei os papéis, fui até a lareira e os queimei.
Vi as chamas consumirem seus planos, suas mentiras.
Fiquei ali, olhando o fogo, até a última centelha se apagar.
No dia seguinte, as cinzas dele chegaram em uma urna simples.
Eu a peguei, fui até o banheiro e joguei tudo no vaso sanitário.
Dei a descarga.
"Adeus, João."
Esse foi o único funeral que ele merecia.
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