
A Viúva Vira o Jogo
Capítulo 3
Com a certidão de óbito em mãos, eu era oficialmente a única herdeira de tudo.
Passei a semana seguinte com meu advogado, o Dr. Almeida, um homem mais velho, astuto e leal.
Fizemos um inventário completo da fortuna de João.
Imóveis, carros de luxo, ações, obras de arte, contas bancárias no exterior.
Era mais dinheiro do que eu poderia gastar em dez vidas.
"Ele era um homem muito rico, Maria", disse o Dr. Almeida, ajustando os óculos.
"Ele era um homem muito bom em esconder coisas, doutor."
Foi então que descobrimos o desfalque.
Uma semana antes de morrer, João havia feito uma transferência vultosa.
Cinco milhões de reais.
Direto para uma conta em nome de Isabela.
"Ele limpou a conta de investimentos que estava apenas no nome dele", explicou o advogado, apontando para o extrato. "Como vocês eram casados em comunhão parcial de bens, e essa conta foi aberta antes do casamento, legalmente ele podia fazer isso. Mas foi uma doação. E uma doação de valor tão alto para uma amante, enquanto ele planejava um divórcio... isso pode ser contestado."
Meu sangue ferveu.
Não pela perda do dinheiro, mas pela audácia.
Ele realmente achou que ia me passar para trás e sair impune.
"Nós vamos reaver esse dinheiro, doutor. Cada centavo."
"Será uma briga, Maria. A família dela pode alegar que foi um presente."
"Então vamos brigar. Isabela está morta. Quem vai lutar por esse dinheiro? A mãe dela? O pai?"
"Provavelmente", ele concordou.
"Ótimo. Contrate os melhores investigadores. Quero saber tudo sobre a família de Isabela. Dívidas, segredos, qualquer coisa que possamos usar."
O Dr. Almeida sorriu, um sorriso fino e predador.
"Já estou fazendo isso."
Duas semanas depois, com as informações que precisávamos, entramos com uma ação judicial.
Notificamos a família de Isabela, exigindo a devolução imediata dos cinco milhões de reais, alegando que a transferência foi feita sob coação moral e fraude, como parte de um plano para lesar a herdeira legítima, eu.
A mãe de Isabela, uma mulher chamada Sônia, me ligou no dia seguinte.
Sua voz era uma mistura de falsa tristeza e raiva mal contida.
"Dona Maria, recebi uma carta dos seus advogados. Deve haver algum engano."
"Não há engano nenhum, Sônia. Seu genro transferiu cinco milhões para sua filha uma semana antes de morrer. Esse dinheiro pertence ao espólio dele, e eu sou a única herdeira."
Usei a palavra "genro" de propósito.
"Mas... mas foi um presente! João amava minha filha! Ele ia se casar com ela!"
"Ele era casado comigo, Sônia. E o amor dele, pelo visto, tinha um preço bem alto. Se o dinheiro não for devolvido em 48 horas, vamos prosseguir com a ação e bloquearemos todos os bens da sua família até que o valor seja pago."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha.
"Você não pode fazer isso! É desumano! Minha filha acabou de morrer!"
"Seu genro também. E ele morreu tentando salvá-la, não foi? Acho que a vida dele valia um pouco mais do que cinco milhões. Considere isso uma indenização pela minha perda."
Desliguei o telefone na cara dela.
Dois dias depois, a campainha tocou.
Olhei pela câmera e vi Sônia, a mãe de Isabela, parada na minha porta.
Sua expressão era dura.
Abri a porta.
"O que você quer?", perguntei.
"Eu vim conversar sobre o dinheiro", disse ela, tentando entrar.
Bloqueei a passagem com o meu corpo.
"Não temos nada para conversar. Meu advogado trata desse assunto."
"Você é uma mulher sem coração", ela cuspiu as palavras. "Meu neto vai ficar sem nada por sua causa!"
Neto?
Franzi a testa.
"Que neto?"
"O filho da Isabela! O filho do João!"
Eu ri.
Uma risada curta e seca.
"Isabela não tinha filhos. E mesmo que tivesse, certamente não seriam do João."
"Ela tinha sim! E ele é filho do João! Temos provas!"
"Que ótimo. Apresente-as no tribunal. Agora, se me der licença, tenho mais o que fazer."
Tentei fechar a porta, mas ela colocou o pé, impedindo.
"Você acha que pode simplesmente apagar minha filha e o filho dela da história? João a amava! Ele ia deixar você, sua vaca infértil!"
Aquelas palavras não me atingiram.
Eram apenas o desespero de uma mulher gananciosa.
Eu a encarei, meus olhos frios como gelo.
"Sabe, Sônia, é uma pena que o seu 'genro herói' não tenha conseguido salvar a sua filha. Talvez ele não tenha se esforçado o suficiente. Ou talvez, no fundo, ele tenha percebido que ela não valia o esforço."
O rosto dela ficou pálido, depois vermelho de raiva.
"Ele a amava! Ele morreu por ela!"
"Ele morreu porque foi estúpido", eu disse, minha voz baixa e cheia de veneno. "E agora, tanto ele quanto sua filha estão mortos. E o dinheiro é meu. Todo ele. Agora tire o pé da minha porta antes que eu chame a polícia e a acuse de invasão."
Ela recuou, chocada com a minha crueldade.
Eu bati a porta na cara dela.
A guerra tinha apenas começado.
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