
A Vingança do Amor
Capítulo 2
A mão de Arthur pegou o guardanapo de linho, seus movimentos eram elegantes e medidos, como sempre. Ele se inclinou sobre a mesa e limpou um canto da minha boca com uma delicadeza que parecia ensaiada.
"Tem um pouco de molho aí", ele disse, sua voz era baixa e sem emoção, a mesma voz que ele usava em reuniões de negócios.
"Obrigada", eu respondi, forçando um pequeno sorriso.
Nós nos olhamos por um segundo. Nos seus olhos não havia calor, apenas o reflexo das velas caras na nossa mesa de jantar. Nos últimos cinco anos, cada jantar era assim, uma performance de um casal perfeito para uma plateia invisível. Nossos talheres de prata batiam suavemente na porcelana fina, o único som no vasto salão de jantar. A intimidade era uma formalidade, um ato coreografado que ambos executávamos com precisão.
Depois do jantar, ele foi para o seu escritório e eu subi para o meu quarto. Os quartos eram separados, claro. Passei pelo espelho do corredor, a mulher que me encarava era linda, vestida com roupas de grife, mas seus olhos estavam vazios. A casa inteira parecia um mausoléu, frio e silencioso, um invólucro para um casamento morto.
Entrei no meu quarto e tranquei a porta. O alívio foi imediato. Finalmente, eu podia parar de atuar. Fui até a gaveta da minha penteadeira e tirei uma pasta de couro. Dentro dela, estavam os papéis do divórcio, já preenchidos e esperando apenas pela assinatura dele. Ao lado dos papéis, havia uma pequena foto gasta pelo tempo, um jovem sorrindo sob o sol, seus olhos cheios de vida. Leo.
Meu peito se apertou. Eu estava fazendo isso por ele, e por mim. Eu precisava ser livre. O desejo de acabar com tudo isso era uma chama constante dentro de mim, me dando forças para continuar.
Nosso casamento foi um acordo, um contrato de cinco anos para unir nossas famílias de negócios. Quando nos casamos, ambos tínhamos outras pessoas. Eu tinha Leo, o amor da minha vida. Arthur tinha Letícia, sua paixão de infância. O acordo era simples: seríamos o casal modelo em público, mas em particular, nossas vidas e corações pertenciam a outros. O contrato estipulava que após cinco anos, se nenhum herdeiro fosse produzido, o casamento seria dissolvido, e eu receberia uma compensação generosa. Ninguém jamais esperava que nos apaixonássemos, e não o fizemos. Mas o destino foi cruel, Leo morreu em um acidente de carro um ano depois do meu casamento, e eu fiquei presa neste limbo dourado.
O som do telefone de Arthur tocando no andar de baixo me tirou dos meus pensamentos. Ouvi sua voz, agora cheia de uma urgência que ele nunca usava comigo.
"O que aconteceu? Ela está bem? Estou indo agora mesmo."
Ouvi seus passos apressados no corredor. Ele estava indo para a porta. Eu peguei a pasta e desci as escadas correndo.
"Arthur, espere", chamei.
Ele parou com a mão na maçaneta, já vestindo o casaco, a impaciência clara em seu rosto. "Estou com pressa, Elisa. É a Letícia, ela está no hospital."
"Eu sei, só preciso que você assine uma coisa. É para a empresa, um documento urgente", eu disse, estendendo a pasta e uma caneta. Mantive meu rosto neutro, escondendo a batida acelerada do meu coração.
Ele nem olhou. Sua mente estava em outro lugar, com outra pessoa. Ele pegou a caneta, rabiscou sua assinatura no local que eu apontei e me devolveu a pasta. "Preciso ir."
Ele saiu batendo a porta. Eu fiquei ali, parada na entrada, com os papéis do divórcio assinados na minha mão. Um sorriso amargo tocou meus lábios. Ele nem sabia que tinha acabado de assinar sua própria liberdade, e a minha.
Voltei para o meu quarto e peguei meu telefone. Disquei o número do meu advogado.
"Ele assinou", eu disse, minha voz firme. "Podemos iniciar o processo. Quero que tudo esteja finalizado o mais rápido possível."
Depois de desligar, fui até a janela e olhei para a cidade iluminada. Eu não sentia nada, nem alegria, nem tristeza. Apenas um vasto vazio e a determinação de preenchê-lo. Eu já tinha um plano. Eu iria para a Cidade do Sul. Anos atrás, eu vi um artigo sobre um jovem pintor de lá, um artista de rua que se parecia assustadoramente com Leo. Ele seria meu ponto de partida. Eu não estava procurando por amor, não mais. Eu estava procurando por um substituto, uma sombra para me agarrar. Era um pensamento doentio, eu sabia, mas era a única coisa que me mantinha de pé. A dor da perda de Leo era uma ferida que nunca cicatrizou, e eu estava desesperada por qualquer tipo de alívio, mesmo que fosse uma ilusão.
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