
A Vingança Dela, o Amor Eterno Dele
Capítulo 3
Na manhã seguinte, um e-mail chegou. Era uma notificação formal da CVM. Minha licença havia sido revogada. Minha carreira estava oficialmente acabada.
Dirigi até o escritório para pegar meus pertences pessoais. Era uma cidade fantasma, meu nome já removido da porta. Olhei para meus cadernos, cheios de anos de pesquisa, análises e estratégias. Eram um testamento de uma vida que eu não tinha mais. Eram também meu bem mais valioso. Embalei-os com cuidado.
Quando saí do prédio, uma multidão me esperava. Eram investidores, pessoas que haviam perdido seu dinheiro no escândalo.
"Lá está ela! A fraude!", gritou um homem.
"Você nos arruinou!", gritou uma mulher, o rosto contorcido de raiva.
Eles me cercaram, sua raiva uma força física. Alguém jogou um sanduíche meio comido que se espatifou no meu casaco. Outro jogou uma lata de refrigerante amassada que atingiu minha testa, uma dor aguda. Eu era uma desgraça, uma criminosa aos olhos deles.
Então eu o vi. Dário. Ele estava do outro lado da rua com Júlia, assistindo ao espetáculo. Ele estava encostado em seu carro, parecendo completamente composto, quase real. Júlia se agarrava ao seu braço, uma imagem de delicada inocência.
"Não fui eu!", tentei gritar por cima do rugido da multidão, mas minha voz se perdeu.
Alguém ergueu um jornal. A manchete gritava: "Analista da Wilkinson & Co., Ana Ribeiro, Única Responsável pelo Colapso do Mercado." O artigo detalhava minha "confissão" e me pintava como uma operadora desonesta e incompetente. Não havia menção a Júlia Montenegro. Eles a haviam apagado completamente da história.
Nossos olhos se encontraram do outro lado da rua. Uma troca silenciosa e ardente. Não vi culpa em seus olhos, nem pena. Apenas uma finalidade fria e distante. Ele havia vencido.
Ele se virou, abriu a porta do carro para Júlia, e eles foram embora, me deixando para os lobos.
A multidão se aproximou novamente. Um cotovelo me atingiu nas costelas e caí de joelhos na calçada suja. Por entre a floresta de pernas raivosas, observei seu carro preto desaparecer na esquina.
No carro, Júlia olhou para Dário com falsa simpatia. "Pobre Ana. Ela deve estar tão envergonhada."
Dário nem olhou para ela. "Ela mesma causou isso. É o que acontece quando você esquece o seu lugar."
Suas palavras, embora eu não pudesse ouvi-las, pairavam no ar como uma profecia. Ele acreditava que eu não era nada sem ele. Que minha posição na vida era determinada por seu capricho. Minha dor era uma consequência necessária da minha posição.
Deitei no chão, as lágrimas se misturando com a sujeira no meu rosto. Os gritos raivosos da multidão caíam sobre mim como golpes. Comecei a rir de novo, aquele mesmo som quebrado e desequilibrado.
Lembrei-me de uma vez que cortei o dedo com papel, e ele se preocupou comigo por uma hora, agindo como se fosse um ferimento grave. "Minha brilhante Ana não pode se machucar", ele sussurrou, beijando meu dedo. Ele uma vez prometeu construir uma fortaleza ao meu redor, para me proteger do mundo. Agora, era ele quem me empurrava para o fogo.
O homem que um dia mais me amou, agora mais me odiava. Ou pior, não sentia absolutamente nada.
Minha risada se tornou histérica, meu corpo tremendo com uma mistura de luto e loucura. A multidão, talvez pensando que eu finalmente tinha enlouquecido, começou a se afastar. Os seguranças do prédio finalmente chegaram, formando um círculo frouxo ao meu redor.
"Senhora, precisa de ajuda?", um deles perguntou, a voz cautelosa.
Levantei-me, balançando a cabeça. Eu não precisava da ajuda deles. Eu não precisava da ajuda de ninguém.
Afastei-me, cada passo um testemunho da minha resolução. Fui direto para o hospital. Juntei todas as coisas da minha mãe e assinei os papéis da alta.
Enquanto as enfermeiras me ajudavam a movê-la para uma van de transporte que esperava, enviei uma única mensagem para Felipe.
"Está na hora. O plano está de pé."
Olhei para minha mãe, seus olhos se abrindo. Apertei sua mão.
"Estamos indo para casa, mãe", eu disse, uma promessa de um futuro que ele nunca poderia tocar.
Bem quando a porta da van estava prestes a fechar, o carro de Dário parou com um guincho atrás de nós. Ele saltou, o rosto uma máscara de fúria.
"Ana! Onde você pensa que vai?"
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