
A Vingança de Sofia
Capítulo 3
No dia seguinte, recebi alta do hospital contra o conselho dos médicos.
Vesti o vestido preto que a enfermeira me ajudou a encontrar na mala que os paramédicos trouxeram do local do acidente.
O meu corpo doía a cada movimento, um lembrete constante do que tinha perdido.
Cheguei ao cemitério.
O céu estava cinzento, a condizer com o meu humor.
Vi Tiago de longe.
Ele estava a cumprimentar os convidados, a aceitar os seus pêsames, a desempenhar o papel do genro de luto na perfeição.
A sua mãe, a Clara, estava ao seu lado.
Ela nunca gostou de mim.
Sempre achou que eu não era boa o suficiente para o seu filho precioso.
Quando me viu, a sua expressão endureceu.
Ela caminhou na minha direção, o seu rosto uma máscara de desaprovação.
"Sofia. Pensei que estarias de cama," disse ela, sem um pingo de simpatia na sua voz.
"Eu precisava de estar aqui. Pela minha mãe," respondi, a minha voz firme.
"Claro. Mas devias ter cuidado. O Tiago está a passar por muito. Ele está devastado. Perdeu a tua mãe, que ele adorava, e o seu próprio filho."
O seu filho.
Ela disse-o como se a perda fosse apenas dele.
"Eu também perdi o meu filho," disse eu, olhando-a diretamente nos olhos. "E a minha mãe."
Clara bufou.
"Não sejas dramática. Acidentes acontecem. O importante é que o meu filho está bem. Ele tem uma carreira brilhante pela frente. Não podes deixá-lo desmoronar por causa disto."
A sua crueldade deixou-me sem fôlego.
Ela estava mais preocupada com a carreira do filho do que com as duas vidas que foram destruídas.
"Eu não vou deixá-lo desmoronar," disse eu, com uma calma que a surpreendeu. "Vou libertá-lo."
Virei-lhe as costas e caminhei em direção a Tiago.
Ele viu-me a aproximar e o seu rosto abriu-se num sorriso triste e ensaiado.
"Sofia, meu amor," disse ele, estendendo a mão para me tocar.
Afastei-me do seu toque.
"Tiago," disse eu, em voz alta o suficiente para que os que estavam mais próximos ouvissem. "Eu sei o que fizeste."
O sorriso dele vacilou.
"Do que estás a falar?"
"Tu desviaste o carro para te salvares. Tu sacrificaste a minha mãe e o nosso bebé."
Um murmúrio percorreu a pequena multidão.
O rosto de Tiago ficou vermelho.
"Sofia, para com isso! Estás a fazer uma cena. Estás a envergonhar a memória da tua mãe."
"A única vergonha aqui és tu," respondi, a minha voz a ganhar força. "O nosso noivado acabou. Quero que fiques longe de mim."
Tirei o anel de noivado do meu dedo.
Era pesado, um símbolo de mentiras.
Joguei-o na direção dele.
O anel bateu no seu peito e caiu na relva, brilhando contra o verde húmido.
Clara ofegou.
"Sua ingrata! Depois de tudo o que fizemos por ti!"
Ignorei-a.
Olhei para o caixão da minha mãe, que estava a ser preparado para ser baixado à terra.
"Desculpa, mãe," sussurrei. "Desculpa por ter trazido este monstro para as nossas vidas."
Virei-me e afastei-me, sem olhar para trás, deixando para trás o som das suas vozes chocadas e zangadas.
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