
A Vingança da Mulher Invisível
Capítulo 2
O cheiro de café torrado e bolo de fubá, que antes preenchia a casa com uma sensação de lar, agora parecia o aroma de um velório. Sentada à mesa de jantar de mogno, polida até brilhar, eu observava as faces sorridentes da minha família. A minha família. Que piada.
Pedro, meu marido, o homem por quem eu havia desistido de tudo, levantou sua taça de vinho. Seus olhos, que um dia me olharam com amor, agora brilhavam com um tipo de ambição fria que me causava arrepios.
"Um brinde," ele disse, com a voz ressoando pela sala de jantar. "A Isabela, minha nova sócia. Que a sua visão traga ainda mais prosperidade para os negócios da família."
Isabela, minha irmã adotiva, sentada ao lado dele, sorriu. Era um sorriso vitorioso, venenoso. Seus olhos encontraram os meus por um segundo, e neles eu vi a satisfação de quem finalmente consegue o que sempre cobiçou. Ela usava um colar de pérolas que Pedro havia me dado no nosso primeiro aniversário de casamento. Eu não o via há meses. Agora sabia onde estava.
Todos na mesa aplaudiram. Meus pais adotivos, Fernando e Lúcia, que me criaram, olhavam para Isabela com um orgulho que nunca me direcionaram. Para eles, Isabela, a filha biológica que tiveram anos depois de me adotarem, era o verdadeiro tesouro. Eu era apenas a peça reserva, a estranha que eles acolheram por caridade.
Ninguém olhou para mim. Eu era invisível, uma peça de mobília esquecida no canto da sala. Meu lugar na empresa, meu lugar nesta casa, meu lugar ao lado de Pedro, tudo estava sendo publicamente entregue a ela. E eu deveria sorrir e aceitar.
Minha mente voltou para o quarto escuro no andar de cima, onde eu passava a maior parte dos meus dias. As grades na janela não eram visíveis do jardim, um truque de arquitetura que Pedro planejou com cuidado. Para o mundo exterior, éramos o casal perfeito, o rei e a rainha do império do café. Mas dentro destas paredes, eu era sua prisioneira.
Tudo começou a desmoronar lentamente, e eu fui tola demais para perceber. Começou com comentários maldosos de Isabela, pequenos venenos sussurrados no ouvido de Pedro. "Marília parece tão cansada ultimamente, querido." "Ela não entende de negócios como nós."
Depois, vieram as discussões. Pedro se tornava cada vez mais impaciente, irritado com a minha presença. O amor se transformou em tolerância, e a tolerância, em desprezo.
Uma noite, ouvi uma conversa que não deveria. Eu estava descendo para beber um copo d' água e a porta do escritório de Pedro estava entreaberta. A voz de Isabela era clara como cristal.
"Ela não serve mais para nada, Pedro. Ela é só um peso morto. O sucesso que você tem... nós podemos mantê-lo sozinhos. Você não precisa mais dela."
Houve uma pausa. Eu prendi a respiração, rezando para que Pedro me defendesse, para que ele dissesse que ela estava louca.
"Eu sei," ele respondeu, e sua voz estava cansada, resignada. "Mas temos que ter cuidado. Você sabe que as coisas começaram a dar certo quando ela chegou. Não quero arriscar."
Isabela riu. "Isso é superstição, querido. Coincidência. A sua genialidade é a única razão do seu sucesso. Ela é só uma mulher simples, uma camponesa com sorte. Sorte essa que agora é sua, por direito."
Naquele momento, um frio percorreu minha espinha. Eles não entendiam. Não era sorte, não era coincidência. Era eu. Havia algo em mim, uma energia, uma força que eu mesma não compreendia completamente, mas eu sabia que estava ligada à prosperidade. Desde criança, as plantas que eu cuidava floresciam mais rápido, os pequenos negócios que eu ajudava na minha vila natal prosperavam. Quando me casei com Pedro, sua fazenda de café, que estava à beira da falência, tornou-se a mais produtiva da região em menos de dois anos.
Ele sentia isso, mas não entendia. Ele e Isabela me viam como um amuleto da sorte, um objeto a ser guardado e controlado. E agora, achavam que podiam simplesmente me descartar. Eles não sabiam que, sem mim, o castelo de cartas que construíram iria desmoronar. Essa era a minha única carta, o meu segredo. A minha vingança silenciosa.
No dia seguinte, meus pais adotivos vieram me visitar no meu quarto-prisão. Lúcia não me olhava nos olhos.
"Marília, você precisa entender," ela começou, ajeitando o vestido. "Pedro é um homem importante. Ele tem responsabilidades. Isabela está mais preparada para ajudá-lo."
"Preparada?" , eu sussurrei, a voz rouca por falta de uso. "Ela me roubou tudo."
Fernando, meu pai adotivo, franziu a testa. Sua expressão era dura, impaciente.
"Não seja dramática. Você tem uma vida boa aqui. Comida, um teto sobre sua cabeça. Muitas mulheres sonhariam com isso. Seja grata e não crie problemas para sua irmã."
"Minha irmã?" , repeti, sentindo um gosto amargo na boca. "Ela nunca me viu como uma irmã. Para ela, eu sempre fui a rival, a intrusa."
"Chega!" , ele disse, elevando a voz. "Isabela é nossa filha. Nós sempre vamos protegê-la. Você deveria fazer o mesmo. É o seu dever como parte desta família."
Eles se viraram e saíram, fechando a porta com uma batida seca que ecoou no meu coração vazio. Família. Dever. As palavras não tinham mais nenhum significado. Eu estava sozinha. Completamente sozinha. Mas a raiva que começava a borbulhar dentro de mim era mais quente do que qualquer solidão. Eles me subestimaram. Todos eles. E iam se arrepender.
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