
A Vingança da Mulher Invisível
Capítulo 3
No dia seguinte, meus pais adotivos, Fernando e Lúcia, voltaram. Desta vez, trouxeram Isabela com eles. Ela entrou no meu quarto como se fosse a dona do lugar, seus saltos fazendo um barulho irritante no assoalho de madeira.
"Veja, Marília," disse Lúcia, com um falso tom de preocupação. "Isabela está tão abalada com tudo isso. Ela só quer o seu bem."
Isabela estava usando um vestido de seda azul que eu amava. Em seu pescoço, o colar de pérolas. Em seu pulso, uma pulseira de diamantes que eu nunca tinha visto antes. Um presente de Pedro, sem dúvida.
"Eu só quero que sejamos uma família de novo," disse Isabela, com a voz melosa. Seus olhos, no entanto, estavam cheios de desprezo. "Pedro está tão estressado. Ele precisa de apoio, não de uma esposa que o desafia."
Fernando cruzou os braços. "Sua irmã está certa. Você está sendo egoísta. Pense no nome da família. Pense em tudo que Pedro fez por você."
"O que ele fez por mim?" , perguntei, levantando-me da cama. "Ele me trancou neste quarto. Ele me tirou tudo."
Isabela se aproximou de mim, seu perfume caro enchendo o ar. Ela pegou um pequeno medalhão de ouro que estava na minha mesa de cabeceira. Era a única joia que me restava, um presente da minha avó biológica, a única pessoa que realmente me amou.
"Isso é bonito," ela disse, com um sorriso cruel. "Mas é um pouco simples demais para a esposa de Pedro Alcântara, não acha?"
Sua mão se abriu e o medalhão caiu no chão. O fecho se partiu com o impacto. O som minúsculo foi como um trovão no silêncio do quarto. Eu olhei para o pequeno pedaço de ouro quebrado no chão, e algo dentro de mim se partiu junto com ele. A última conexão com o meu passado, com o amor incondicional, tinha sido destruída na minha frente.
Naquele exato momento, Pedro entrou no quarto. Ele viu o medalhão no chão, viu a expressão no meu rosto e o sorriso satisfeito no de Isabela. Por um instante, vi uma sombra de surpresa em seus olhos, talvez por me ver de pé, com o queixo erguido, em vez de encolhida na cama.
"O que está acontecendo aqui?" , ele perguntou, a voz controlada.
"Nada, querido," Isabela correu para o seu lado, agarrando seu braço. "Eu só estava tentando conversar com Marília, mas ela... ela está tão instável. Ela jogou o medalhão no chão em um acesso de raiva."
Pedro olhou de mim para o medalhão quebrado, e seu rosto se fechou. Ele não questionou, não duvidou. Ele acreditou nela instantaneamente.
Ele caminhou até mim, parando a centímetros de distância. Sua altura me intimidava, mas eu não recuei. Eu o encarei, olho no olho, deixando que ele visse o vazio que havia substituído o meu amor.
"A partir de hoje," ele disse, a voz baixa e perigosa, "as regras mudam. Você não sai deste quarto. Para nada. As refeições serão trazidas até você. Você não fala, a menos que alguém fale com você. Sua única função nesta casa é existir. Você é meu amuleto, Marília. E amuletos não têm vontade própria. Eles ficam guardados na caixa. Entendeu?"
Cada palavra era uma pá de terra sendo jogada sobre o meu caixão. Ele não me via mais como uma pessoa. Eu era um objeto, uma posse. A fonte da sua sorte, que ele precisava manter aprisionada para que não escapasse.
Eu não respondi. Apenas continuei a encará-lo, o silêncio sendo a minha única arma.
Ele esperou por uma resposta, e quando não a obteve, sua mandíbula se contraiu de raiva. Mas ele não me tocou. Ele apenas se virou.
"Vamos," ele disse para Isabela e meus pais. "Deixem-na com seu mau humor. Ela vai aprender a lição."
Eles saíram, fechando a porta e, desta vez, eu ouvi o som inconfundível da chave girando na fechadura do lado de fora.
Eu fiquei ali, de pé, no meio do quarto, por um longo tempo. O sol da tarde entrava pelas grades da janela, desenhando listras de luz e sombra no chão. Olhei para o medalhão quebrado. A mulher que amava Pedro, a mulher que acreditava em família, a mulher que perdoava tudo, morreu naquele instante. Em seu lugar, nasceu outra pessoa. Uma pessoa forjada pela traição e pela dor. Uma pessoa que não tinha mais nada a perder. E uma pessoa que faria Pedro Alcântara se arrepender amargamente do dia em que decidiu me colocar em uma caixa.
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