
A Vingança da Maré
Capítulo 3
Dois dias depois, fui libertada sob fiança, com uma condição estrita.
Não me podia aproximar de Pedro ou de Sofia a menos de 500 metros.
Fui para o apartamento vazio que antes chamava de casa.
As roupas de Pedro tinham desaparecido. Os brinquedos de Sofia tinham desaparecido.
Era como se nunca tivessem existido.
Apenas as minhas coisas permaneciam, um testemunho silencioso de uma vida desfeita.
Sentei-me no chão da sala de estar, o silêncio a pressionar-me.
O meu telemóvel tocou. Era a minha mãe.
"Inês? Querida, o que se passa? O Pedro ligou-me, disse coisas terríveis..."
Comecei a chorar.
Não eram lágrimas altas e dramáticas, mas soluços silenciosos e dolorosos que me sacudiam o corpo.
Contei-lhe tudo, a minha voz a falhar.
Ela ouviu em silêncio.
"Eu vou já para aí," disse ela. "Não fiques sozinha."
Uma hora depois, ela estava à minha porta, com uma mala na mão e uma expressão determinada no rosto.
Ela não me abraçou. Em vez disso, olhou em volta para o apartamento vazio.
"Ele levou tudo," disse ela, a sua voz dura.
"Quase tudo."
"Aquele bastardo. Sempre soube que ele não prestava."
A minha mãe nunca gostou de Pedro.
Ela dizia que ele tinha olhos frios.
Eu achava que era romântico. Misterioso.
Agora, eu via o que ela via. Um vazio.
"O que vais fazer?" perguntou ela, sentando-se no sofá em frente a mim.
"Eu não sei. O Tiago diz que temos de lutar."
"Claro que temos de lutar. Ele não pode tirar-te a tua filha."
"Mãe, a Sofia disse-lhes que eu a empurrei."
A minha mãe franziu o sobrolho.
"Ele manipulou-a. Ele e aquela irmã víbora dele."
Ela levantou-se e começou a andar de um lado para o outro.
"Precisamos de provas, Inês. Provas de que ele está a mentir. Provas do tipo de pessoa que ele realmente é."
Era mais fácil dizer do que fazer.
Pedro era um mestre da manipulação.
Para o mundo exterior, ele era o marido perfeito, o pai dedicado.
Sócio de uma empresa de tecnologia de sucesso, voluntário na comunidade, encantador e carismático.
Ninguém acreditaria em mim.
"Como?" perguntei, a minha voz um sussurro.
A minha mãe parou e olhou para mim, os seus olhos a arder com uma intensidade que eu não via há anos.
"Deixa isso comigo," disse ela. "Tu concentra-te em manter-te forte. Eu vou tratar do Pedro."
Naquela noite, não consegui dormir.
Continuei a ver o rosto de Sofia, assustado e acusador.
Continuei a ouvir a sua pequena voz.
"Mamã, porque é que me empurraste para a água?"
Cada palavra era uma facada no meu coração já ferido.
Pedro não me estava apenas a tirar a minha filha.
Ele estava a destruir o amor dela por mim.
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