
A Vingança da Herdeira Esquecida
Capítulo 2
Celina POV
Priscila avançou, seus olhos fixos na barra de metal enferrujada que segurava. "Você é um problema, Celina. E Fábio está cansado de problemas. É hora de você aprender seu lugar."
A barra fria e áspera atingiu minha coxa com força brutal. Senti um rasgo profundo, não apenas na pele, mas na carne. Um grito primal escapou de mim, mais alto e mais desesperado do que qualquer um antes. A dor era excruciante, o tendão lacerado gritando em protesto.
O metal, enferrujado e sujo, havia rasgado um buraco em mim. Senti algo se espalhar dentro de mim, uma sensação de queimação, e minha respiração ficou ainda mais difícil. O ar parecia ácido. Meu corpo estava falhando, envenenado.
Eu lutei para me manter consciente, minha mente turva pela dor e pelo choque. Tentei pressionar a ferida com a mão boa, mas o sangue não parava de jorrar, quente e pegajoso. A ferida na minha mão já parecia ter vida própria, pulsando com uma dor lancinante.
Encolhi-me no chão frio, meu corpo tremendo incontrolavelmente. Não conseguia me mover. Não conseguia lutar. As lágrimas rolavam pelo meu rosto, silenciosas agora, sem som. Eu estava entregue.
Uma dor nova e agonizante se espalhou por cada fibra do meu ser, como se mil cobras venenosas estivessem me mordendo por dentro. Minha visão escureceu, a ferida recém-aberta na minha coxa começou a ficar preta, e o fluxo de sangue não diminuía.
Por um breve momento, desmaiei, flutuando em um vazio escuro, onde a morte me chamava.
Quando abri os olhos novamente, Priscila estava de volta. Seu rosto estava pálido. Seus olhos estavam fixos na barra de metal que agora segurava. Havia sangue nela. Muito sangue.
Ela começou a bater na porta do depósito, freneticamente. "Celina? Celina, você está aí? Você está bem?" Sua voz estava tremendo. Havia um toque de pânico nela agora. Mas eu não podia responder. Eu não tinha forças.
Ela tentou abrir a porta, mas a trava de segurança, instalada por Fábio, era forte demais. Ela estava presa do lado de fora, e eu, presa do lado de dentro. Seu pânico aumentou.
Então, a porta se abriu com um tranco. Não sei como. A escuridão ainda me envolvia, mas senti suas mãos em meus cabelos, puxando minha cabeça para cima. Seus olhos, antes cheios de pânico, agora tinham um brilho de desdém.
"Sua vagabunda! Está fingindo? Pensei que estivesse morta, sua rata! Onde estão seus gritos agora?" Ela me jogou de volta no chão, minha cabeça batendo no concreto frio.
Seu olhar me causava enjoo. Um nojo puro e profundo. "Você é tão egoísta, Celina! Sempre pensando em si mesma! Nem para morrer sem fazer barulho você serve!"
Ela brincava com a barra enferrujada em suas mãos, e um sorriso malicioso se espalhou por sua boca. Meu corpo se encolheu. Um pressentimento sombrio me dominou. O que ela faria agora?
Olhei para cima, o máximo que pude, e vi. A barra de metal, que havia me ferido, estava mudando de cor. O sangue nela, meu sangue, estava brilhando com uma luz fraca, quase imperceptível, mas ali.
Antes que eu pudesse sequer processar o que aquilo significava, Priscila explodiu. Ela me chutou na barriga, com toda a força que tinha.
"Você sujou minha arma, sua imunda! Fábio vai me matar se souber que você contaminou algo meu! Eu vou dizer a ele que você tentou me agredir! Ele vai te expulsar do clã, sua vagabunda! Você nunca mais vai ter acesso à nossa linhagem!" Ela gritou, sua voz cheia de ódio. "Só o filho de Carolina merece as bênçãos e a herança! Não o seu lixo!"
Ela se afastou furiosa, chutando mais sujeira e detritos em volta da porta, como se para garantir que eu não me levantasse. O ar ao meu redor ficou pesado com um cheiro acre, como um veneno se espalhando. Meu corpo inteiro tremia, convulsionando.
Minha mente estava nublada, mas no fundo, eu ouvi. O choro do meu bebê. Não era um som real, mas uma sensação, um lamento que vinha de dentro de mim. Meu filho estava chorando.
Mamãe... me salve... A voz, fraca, quase inaudível, era a dele.
Eu desabei. Lágrimas quentes e amargas jorraram dos meus olhos. Eu nunca tive a chance de segurá-lo. Eu deveria ter dado à luz hoje. Deveria ter visto seu rosto. Mas aqui estava eu, morrendo neste lugar imundo, e levando meu filho comigo.
Um rugido animalesco saiu da minha garganta, um som de fúria e desespero. A esperança de ser resgatada havia morrido. Completamente.
Com a pouca força que me restava, acariciei minha barriga, que agora parecia um túmulo. "Perdão, meu amor. Perdão por não ter sido forte o suficiente para te proteger. Se houver outra vida, que você nasça em um lugar cheio de amor, longe de toda essa crueldade."
Minha respiração era um fio tênue. Meu sangue estava gelado. Eu estava morrendo.
Um rangido alto. A porta se abriu com um estrondo, e uma luz forte invadiu o depósito, ofuscando meus olhos.
Uma figura alta e imponente parou na soleira da porta, seus olhos arregalados de horror ao me ver caída em uma poça de sangue.
Rastejei alguns centímetros, o último resquício de instinto de sobrevivência me impulsionando. "Ajuda...", sussurrei, minha voz quase inaudível.
"Pelos céus! O que aconteceu aqui?" A voz do homem tremia. Ele era um guerreiro Caetano, um dos guardas de honra da minha família. Seus olhos estavam cheios de cautela, de dúvida. "Quem é você? E por que o Fábio te puniria assim?"
"Sou Celina... A esposa... A companheira de Fábio", respondi, minha voz um farfalhar. Com dificuldade, puxei a manga da blusa, revelando a marca em meu pulso, o símbolo de minha ligação com Fábio, agora quase irreconhecível sob o sangue seco e a sujeira.
O guarda de honra, Otávio, se aproximou, seus olhos fixos na marca. Ele confirmou. Seus olhos se arregalaram de choque. Ele estendeu a mão para me ajudar, mas hesitou, parecendo em conflito.
Ele levantou o comunicador. Fábio, sou eu. Otávio. Eu a encontrei. Celina. Ela está... em estado grave. Sangrando muito. Parece estar morrendo. A voz de Otávio era tensa.
Celina? Impossível. Ela está bem. Priscila está cuidando dela. Essa deve ser mais uma das suas manipulações baratas. Não caia nessa, Otávio. A voz de Fábio, fria e distante, ressoou na minha mente, através do elo que ainda se mantinha com Otávio.
Mas senhor, a marca em seu pulso... está coberta de um tipo de substância escura. Parece... parece veneno. E ela está coberta de sangue. Não é uma manipulação, senhor. Otávio insistiu, sua voz carregada de preocupação. Seu sangue, senhor... está escuro. Como se estivesse contaminado por uma energia maligna...
Pare de bobagens, Otávio! É tudo parte do show dela. Não a traga para cá. Ela é uma bruxa. Não confie em nada que ela disser. Eu sei o que estou fazendo. Volte ao seu posto. A voz de Fábio estava impaciente, então a conexão se cortou.
Otávio me olhou com pena, então se virou para pegar algumas caixas. Pensei que ele iria me abandonar.
Mas ele voltou, seu olhar determinado. "Não posso deixar você morrer aqui, minha senhora." Sua voz era firme. "Não importa o que o Alfa diga. Não vou chamar uma desgraça para minha casa. minha esposa está esperando um filho, e eu não vou permitir que essa escuridão me siga."
Ele me pegou nos braços, com uma força surpreendente. Tudo escureceu novamente enquanto ele corria, me levando dali, para o que eu esperava ser a salvação. Senti um alívio momentâneo. Eu estava salva. Nós estávamos salvos.
Mas quando chegamos à enfermaria, tudo estava vazio. As prateleiras, antes cheias de suprimentos e equipamentos, estavam desoladamente vazias. Fábio havia transferido tudo para a enfermaria de Carolina. Eu estava ferrada.
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