
A Vingança da Herdeira Esquecida
Capítulo 3
Celina POV
A médica de plantão, uma mulher de semblante cansado e olhos gentis, mal me viu e já percebeu a gravidade da situação. Seus olhos escuros se arregalaram. "Pelo amor de Deus! Precisamos transferi-la imediatamente!"
Ela pegou o comunicador, a voz urgente. Fábio, sou eu, Dra. Almeida. É Celina. Ela está em trabalho de parto, com hemorragia grave e sinais de envenenamento. Há um risco real de que a substância tóxica se espalhe ainda mais. Precisamos agir agora!
Doutora, já disse, não caia nas manipulações dela! Ela é uma bruxa! A voz de Fábio, irritada, reverberou. Não a traga para cá. Não há necessidade de pânico. Conheço o corpo de Celina. Ela é mais forte do que parece. Ela não está em perigo. E o bebê... o bebê é meu. Ela só está agindo por desespero para me fazer ir até ela. Um truque barato.
A médica me olhou com uma tristeza profunda. Eu podia ver a compaixão em seus olhos, mas também a impotência. Ela suspirou, então instruiu os outros enfermeiros. "Preparem a maca. Vamos levá-la para a enfermaria externa. Tentem o básico lá."
Enfermaria externa. Eu nunca havia sido levada para lá. Era o lugar onde os funcionários eram tratados, longe dos olhos da família Figueroa. Lá, eu sabia, os recursos eram escassos.
A médica tentou argumentar com a equipe de Carolina, que guardava a ala principal, mas foi em vão. As ordens de Fábio eram claras e inflexíveis.
"Desculpe, Dra. Almeida. O Alfa Fábio foi explícito. Nenhum recurso pode ser desperdiçado com a senhora Celina. Toda a atenção deve ser voltada para a senhora Carolina e o bebê dela."
Ouvi as palavras de Fábio: "Não quero correr o risco de contaminar Carolina. O filho dela é o mais importante agora. Certifiquem-se de que nada atrapalhe o parto dela." A voz dele era um gelo.
Caí desamparada no chão, um nó na garganta.
De repente, um vislumbre. Pelo canto do olho, vi Carolina. Ela estava lá, observando. Seus olhos encontraram os meus, e um sorriso malicioso se espalhou por seus lábios. Ela não disfarçou o prazer em me ver sofrer.
Ela correu para Fábio, que estava a poucos metros de distância, na sala ao lado. Fábio, querido! Você não vai acreditar no que está acontecendo... Sua voz era uma paródia de preocupação. A Celina... ela está fazendo um alvoroço enorme lá fora. A doutora Almeida está insistindo em trazê-la para cá. Ela está tentando te manipular, Fábio! Não deixe que ela estrague o nosso momento!
Fábio franziu a testa, os dedos massageando as têmporas. Não diga bobagens, Carolina. Celina não pode estar aqui. Ela está no depósito.
Mas ela está, Fábio! Eu a vi! Ela está toda ensanguentada, fazendo um show. Ela deve estar tentando te fazer sentir pena, como sempre. E o bebê! Ela está dizendo que o bebê está morrendo, para te fazer vir. Não caia nessa! Ninguém te diria isso de verdade! Carolina insistiu, sua voz cheia de veneno. E se ela conseguir o que quer? Ela vai querer o direito de herança para esse filho ilegítimo, você sabe. Ela é tão vaidosa. Nunca se sujaria de sangue de verdade.
Os médicos continuavam a discutir, tentando pegar equipamentos essenciais que haviam sido transferidos.
"Pare, ou todos vocês serão demitidos!" A voz de Fábio, alta e autoritária, silenciou a todos.
A médica voltou para mim, seus olhos cheios de desculpas. "Sinto muito, senhora Celina. Não há nada que possamos fazer aqui."
Tentei falar, mas nenhum som saiu. Minha visão ficou borrada, as luzes da enfermaria externa dançando em uma névoa. A dor, o veneno e a perda de sangue me puxavam para a inconsciência.
Ouvi as vozes dos médicos, distantes, como se estivessem debaixo d'água. "O veneno... é muito agressivo..." "O batimento cardíaco do bebê está fraco... muito fraco..."
"Chamem os equipamentos de ressuscitação!" A voz da Dra. Almeida.
Tentei gritar. Tentei me mover. Mas meu corpo não me obedecia. Eu só podia observar as figuras borradas ao meu redor.
Minha mão, a mão boa, caiu sobre minha barriga, que agora estava vazia. As lágrimas escorriam, misturando-se ao sangue seco em meu rosto.
Perdão, meu anjo. Perdão por não ter sido forte. Perdão por ter te trazido a este mundo cruel. Minha mente gritava, cheia de culpa e desespero.
Uma única lágrima escorreu do meu olho, caindo na minha pele gelada.
Então, a escuridão me engoliu completamente.
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