
A Vingança da Ex: O Karma Chegou
Capítulo 2
A cirurgia para a curetagem após o aborto espontâneo tinha acabado, e já era noite. A dor em meu ventre era um eco surdo da dor em meu coração. Eu estava sozinha.
Lá fora, a tempestade que castigou a cidade o dia todo havia se transformado em uma garoa fina. Meu celular estava na mesinha de cabeceira, e eu lutei contra a tontura da anestesia para pegá-lo.
Hoje era nosso aniversário de casamento. Três anos.
Eu havia planejado uma surpresa para Gabriel. Agora, a única surpresa era o vazio que tomava conta de mim.
Abri as redes sociais, um hábito estúpido para preencher o silêncio. Foi quando vi. Uma foto postada por um dos melhores amigos de Gabriel.
Nela, Gabriel sorria, o braço ao redor dos ombros de Mariana, sua ex-namorada de infância. Estavam em um restaurante caro, cercados por amigos, um brinde no ar. A legenda era curta, mas dizia tudo: "Celebrando com os de sempre".
Meu coração, que eu achava que não podia doer mais, se partiu em mais um pedaço.
Eu não fazia parte dos "de sempre".
Eu era a esposa. A que estava em casa, se recuperando de ter perdido nosso filho. Um filho que ele nem sabia que existiu.
Enviei uma mensagem para ele, um teste final para a minha sanidade.
"Onde você está?"
A resposta veio quase imediatamente, fria e distante.
"Jantar de negócios. Não me espere acordada."
Jantar de negócios.
Olhei novamente para a foto. O sorriso dele, a intimidade com Mariana. Aquilo não era um jantar de negócios. Era a vida dele, a vida real da qual eu nunca fiz parte.
Um sorriso amargo e sem humor surgiu em meus lábios. Eu me senti patética. A arquiteta talentosa, a esposa perfeita, uma grande farsa.
Lembrei-me da manhã, da dor aguda, do sangue. Liguei para Gabriel desesperadamente, mas ele não atendeu. "Estou em uma reunião importante, Lívia, não posso falar agora", ele disse em uma mensagem de texto antes de desligar.
Fui para o hospital sozinha. Enfrentei os médicos, os formulários, o procedimento, tudo sozinha. E enquanto eu perdia nosso bebê, ele estava "em uma reunião importante".
Agora eu sabia que reunião era essa.
Ele chegou em casa tarde da noite, cantarolando baixo, cheirando a vinho caro e um perfume feminino que não era o meu.
Ele me viu na cama, pálida, e sua expressão mudou para uma de leve irritação.
"Nossa, que cara é essa, Lívia? Aconteceu alguma coisa?"
Sua completa ignorância sobre a minha realidade era a prova final. Ele não fazia ideia do que eu tinha passado. Ele não se importava.
"Nada," minha voz saiu rouca, vazia. "Só estou cansada."
"Ah," ele disse, aliviado, tirando o paletó. "O dia foi uma loucura. Fechamos um grande negócio. Você ficaria orgulhosa."
Ele se aproximou para me beijar, mas eu virei o rosto. O cheiro do perfume de Mariana estava impregnado nele.
Ele franziu a testa, confuso com a minha rejeição.
"O que foi? É o nosso aniversário, e você está assim?"
"Como foi o jantar de negócios?" perguntei, minha voz perigosamente calma.
"Foi ótimo, já te disse. Um sucesso." Ele mentiu sem sequer piscar.
Eu apenas o encarei, o silêncio se estendendo entre nós. Pela primeira vez, eu não via o empresário carismático que todos admiravam. Eu via um estranho, um mentiroso. E eu sabia, naquele momento, que meu casamento havia acabado.
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