
A Vingança da Bailarina Esquecida
Capítulo 3
Uma enfermeira com o rosto cansado empurrou minha maca para uma sala de observação fria e impessoal. As luzes brancas do teto pareciam me perfurar os olhos. O tempo começou a se arrastar de uma forma torturante. Cada segundo era preenchido pela dor da fratura, que irradiava em ondas de fogo pela minha perna, e pelas contrações, que vinham cada vez mais fortes e mais próximas. Eu mordia o lábio para não gritar, um suor frio cobrindo minha testa.
O monitor cardíaco ao meu lado apitava num ritmo desesperado, um som que parecia ser o do meu próprio pânico. Onde estava Lucas? Ele realmente tinha me deixado aqui para morrer? A imagem dele, defendendo Joana com uma ferocidade que ele nunca tinha demonstrado por mim, se repetia em minha mente.
Uma médica jovem, com óculos de aro fino e uma expressão preocupada, entrou na sala. Ela se apresentou como Dra. Alice, uma residente de obstetrícia. Ela olhou meus sinais vitais no monitor e sua expressão se tornou ainda mais grave.
"Mari, os batimentos do bebê estão caindo muito a cada contração. Isso é sofrimento fetal agudo. A gente precisa agir agora."
Pânico me gelou por dentro. Meu filho. Meu bebê estava em perigo por causa da loucura de Lucas.
"A cesárea... por favor...", eu supliquei, a voz um fio.
"Eu sei, eu sei", disse a Dra. Alice, a voz tensa. "Estou tentando localizar o Dr. Pedro, nosso chefe de obstetrícia. Ele estava de folga, mas mora perto. O problema é que, mesmo que ele venha, precisamos da autorização do seu marido, e ele... ele não está atendendo o telefone."
"Ele está com ela", eu sussurrei, as lágrimas finalmente rolando quentes pelo meu rosto. "Ele está com a Joana."
A Dra. Alice fechou os olhos por um instante, uma expressão de pura frustração em seu rosto. "Eu ouvi o que aconteceu no corredor. Sinto muito, Mari. Isso é... inacreditável."
Ela pegou o telefone do hospital e tentou ligar para o celular de Lucas novamente. Nada. Ela então ligou para a sala de parto onde Joana estava.
"Aqui é a Dra. Alice, da observação. Preciso falar com o Sr. Lucas... Sim, o marido da paciente com a fratura... Como assim ele não pode atender? O que é mais importante do que a vida da esposa e do filho dele?"
A voz dela se elevou em indignação. Eu podia ouvir fragmentos da resposta do outro lado da linha. "Acalmando a prima...", "momento delicado...", "ele pediu para não ser incomodado".
A Dra. Alice desligou o telefone com força. "Eles disseram que ele está 'dando apoio emocional' para a prima, que o parto dela está complicado. Complicado? O seu bebê está morrendo e você tem uma fratura exposta! Que tipo de monstro faz isso?"
A realidade da minha situação me atingiu com a força de um trem. Eu estava presa. Presa pela burocracia do hospital, presa pela crueldade do meu marido, presa em um corpo que estava me traindo e falhando com meu filho.
"Não tem mais ninguém?", perguntei, a esperança se esvaindo. "Minha mãe... o número dela está no meu celular..."
"Vamos tentar", disse a Dra. Alice, mas seu rosto mostrava que seria um processo lento. Encontrar o celular, achar o contato, ligar, explicar a situação... tempo que não tínhamos.
Nesse momento, um enfermeiro entrou correndo na sala. "Doutora, o Dr. Pedro chegou. Ele veio assim que soube da situação."
Um homem alto, de cabelos escuros e olhos intensos, entrou na sala logo atrás dele. Ele não usava jaleco, apenas uma camisa amassada e calça jeans, como se tivesse saído de casa às pressas. Ele olhou para o monitor, depois para mim, e seu rosto se fechou numa expressão de extrema seriedade.
"Sou o Dr. Pedro. O que temos aqui?", ele perguntou, a voz calma, mas carregada de autoridade.
A Dra. Alice resumiu a situação rapidamente: a fratura, a bolsa rompida, o sofrimento fetal agudo, a recusa do marido em autorizar a cesárea e o anestesista ocupado com a "prima frágil".
Dr. Pedro ouviu tudo sem interromper. Seus olhos encontraram os meus, e pela primeira vez naquela noite, eu senti que alguém realmente me via. Via minha dor, meu medo.
"Isso é uma barbárie", ele disse, a voz baixa e furiosa. "Esqueçam o marido. Eu assumo a responsabilidade. Esta mulher precisa de uma cesariana de emergência agora. O bebê não vai aguentar mais dez minutos. Alice, prepare a sala de cirurgia 2. Eu vou buscar outro anestesista, nem que seja na casa dele."
Mas antes que ele pudesse se mover, o monitor ao meu lado disparou num alarme agudo e contínuo. O som dos batimentos do meu bebê tinha desaparecido.
"Parada cardíaca fetal!", gritou a Dra. Alice.
O mundo ao meu redor começou a escurecer. A dor na minha perna se tornou uma coisa distante. O som do alarme ficou abafado. A última coisa que vi antes de a escuridão me engolir completamente foi o rosto do Dr. Pedro, uma máscara de determinação e fúria, enquanto ele gritava ordens. Eu estava perdendo a consciência, a vida se esvaindo de mim e do meu filho, abandonada pelo homem a quem eu tinha entregado meu coração.
Você pode gostar





