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Capa do romance A Vida Dupla Mortal do Meu Marido

A Vida Dupla Mortal do Meu Marido

Renomada analista, vi minha carreira ruir após uma sabotagem pública de Augusto, meu marido, e sua amante, Bia. Obrigada a treinar minha rival, recebo um áudio revelador: o atropelamento que vitimou minha mãe foi causado por Bia e ocultado por Augusto. Diante da traição cruel do homem que jurou me proteger, decido contra-atacar. Com apoio de meu mentor, Elísio, inicio um processo implacável para destruir aqueles que me tiraram tudo e obter justiça.
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Capítulo 3

Ponto de Vista de Clara:

O mundo girou, depois se estabilizou em uma clareza aterrorizante. Meu corpo parecia rígido, uma estátua esculpida em gelo e horror. As palavras do arquivo de áudio se repetiam em minha mente, um loop cruel e infinito. *A velha, ela era tão lenta. Vamos nos livrar do carro. Você vai fazer uma pequena viagem.* Cada detalhe, cada palavra insensível, cimentava a verdade que esteve escondida sob anos de mentiras calculadas de Augusto.

A data estampada no arquivo de áudio. Batia. O dia exato, a hora exata, em que minha mãe foi atropelada, sua vida irrevogavelmente alterada, seu futuro roubado. Bia Vilela, a mulher que Augusto acolheu, a estagiária ambiciosa que agora se deleitava em seu favoritismo, era o monstro ao volante. E Augusto, meu marido, o homem que jurou me proteger, que me consolou durante noites encharcadas de lágrimas, era seu cúmplice, seu protetor. Ele orquestrou o encobrimento, destruiu evidências e mandou Bia para longe para esconder seu crime, tudo enquanto eu sofria, tudo enquanto eu lutava para cuidar da minha mãe quebrada.

Meu estômago se revirou. Não. Não podia ser verdade. Minha mente gritava em negação, agarrando-se a uma realidade diferente, qualquer realidade onde Augusto não fosse esse monstro. Eu queria esmagar o telefone, obliterar a evidência, fazer com que não tivesse acontecido. Mas a verdade estava lá, inegável, visceral.

Encontrei Augusto na sala de estar, bebendo uísque, com Bia elegantemente jogada no sofá ao lado dele. A cena, antes familiar, agora parecia grotesca, um quadro de engano. Levantei meu telefone, minha mão tremendo tão violentamente que pensei que poderia derrubá-lo. "Você ouviu isso?", perguntei, minha voz um sussurro estrangulado. "Você ouviu o que você fez?"

Ele olhou para o telefone, depois para mim, seu rosto impassível. Ele não respondeu. Apenas tomou outro gole lento de sua bebida. O silêncio foi sua confissão. A última centelha de esperança, o apelo desesperado para que ele negasse, para que explicasse, morreu em meu peito.

Ele se levantou então, movendo-se em minha direção com aquela graça familiar e perturbadora. Ele estendeu a mão, tocando gentilmente meu braço. "Clara, querida", ele começou, sua voz suave, quase calmante, o mesmo tom que ele usou com Bia na gravação. Era uma performance, uma manipulação. "Você está claramente angustiada. Vamos conversar sobre isso com calma."

Eu me afastei de seu toque como se estivesse queimada. "Com calma? Você quer falar com calma sobre como você ajudou a assassinar a vida da minha mãe? Como você encobriu aquela... coisa?" Apontei um dedo trêmulo para Bia, que de repente parecia pálida, seus olhos dardejando entre Augusto e eu.

Augusto suspirou, uma exibição teatral de paciência. "Clara, foi um acidente. Um acidente trágico e infeliz. Bia era jovem, apavorada. Sua carreira, seu futuro, tudo estava em jogo. O que eu deveria fazer? Deixá-la ir para a prisão? Destruir a vida dela por um erro?" Ele olhou para Bia, uma ternura possessiva em seu olhar. "Ela é brilhante, Clara. Cheia de potencial. Talentosa demais para apodrecer numa cela." Suas palavras foram um soco no estômago. Ele valorizava o "potencial" dela mais do que a vida da minha mãe, mais do que a justiça, mais do que minha paz de espírito. Ele a estava defendendo, ainda.

Eu não conseguia falar. Minha garganta estava contraída. Parecia que meu sangue tinha virado gelo, fluindo lentamente por minhas veias. A traição era absoluta, um peso esmagador que roubou minha voz, minha respiração. Minha mente voltou para aquela noite, o hospital, o cheiro estéril, os rostos sombrios dos médicos. Lembrei-me de Augusto, segurando minha mão, dizendo-me: "É uma tragédia, Clara. Mas vamos superar isso, juntos. Eu cuidarei de tudo." Ele me fez acreditar que era minha rocha. Meu protetor. Eu tinha sido tão ingênua, tão desesperada por conforto, que me agarrei às suas mentiras como uma mulher se afogando. Eu confiei nele. Acreditei que ele era capaz de decência, de buscar justiça. Em vez disso, ele simplesmente varreu a verdade para debaixo do tapete, preservando sua imagem perfeita enquanto minha mãe definhava. Ele roubou minha capacidade de encontrar um desfecho, de sofrer adequadamente.

Naquele momento, a porta da frente se abriu com um estrondo. Bia, que estava ouvindo com alarme crescente, soltou um grito engasgado, seu rosto contorcido em uma mistura de medo e angústia fingida. "Augusto! Clara! O que está acontecendo?" Ela correu para frente, então tropeçou, desabando dramaticamente no chão. "Oh, minha cabeça! Clara, você me bateu! Você está louca!" Ela apontou um dedo trêmulo para mim, lágrimas escorrendo por seu rosto. Um arranhão fino e vermelho apareceu em sua bochecha, como por mágica.

Augusto imediatamente se ajoelhou ao lado dela, seu rosto gravado com preocupação. "Bia! O que você fez, Clara?" Ele se virou para mim, seus olhos agora ardendo em acusação. "Olha o que você fez! Você a machucou! Você está completamente fora de si?"

Minha boca se curvou em um sorriso lento e arrepiante. Não era diversão. Era o sorriso do desespero absoluto, de uma alma que finalmente se libertou de sua gaiola dourada, mesmo que isso significasse se despedaçar no processo. A dor, a traição, a manipulação, tudo se fundiu em uma única e aterrorizante resolução.

"Eu disse que queria o divórcio", afirmei, minha voz saindo em um tom assustadoramente calmo. "E agora, eu estou pegando." Tirei da minha bolsa uma pilha de papéis, já assinados e autenticados. O acordo de divórcio. Elísio o preparara semanas atrás, antecipando este momento, esta ruptura final e inevitável. "Aqui. Está tudo pronto para sua assinatura, Augusto. E não se preocupe, não vou pedir um centavo do seu dinheiro sujo."

Augusto olhou para os papéis, depois para o meu rosto, uma mistura de choque e incredulidade guerreando em suas feições. A fachada cuidadosamente construída de controle começou a rachar. "Você... você realmente fez isso?", ele gaguejou, sua voz carregada de veneno. Ele arrancou os papéis, seus olhos percorrendo as cláusulas. Sua assinatura. A minha. Já legalmente vinculativo. Com um rugido furioso, ele pegou uma caneta da mesa próxima, rabiscou seu nome no documento, rasgando levemente o papel em sua raiva. "Ótimo! Você quer sair? Conseguiu! Você vai se arrepender disso, Clara! Você vai voltar rastejando, implorando, mas eu vou me certificar de que não sobre nada para você!" Ele jogou os papéis assinados em mim.

Ele então puxou Bia para seus pés, seu braço um escudo protetor ao redor dela. "Vamos, Bia. Vamos te afastar dessa lunática." Ele me fuzilou com o olhar uma última vez, uma promessa de vingança em seus olhos, e então saiu da casa, com Bia agarrada a ele, lançando um olhar triunfante e malicioso por cima do ombro.

Os funcionários, que haviam aparecido misteriosamente de vários cantos da casa, murmuravam entre si, seus olhares de pena uma nova onda de humilhação. "Ela deve estar louca", ouvi um sussurrar. "Abandonar Augusto Carvalho? Ela vai ficar na miséria." "Bia realmente subiu na vida, não é? De estagiária a esposa substituta."

Eu fiquei ali, os papéis do divórcio apertados na minha mão, o selo oficial parecendo tanto uma marca quanto uma libertação. Augusto, fiel à sua palavra, não perdeu tempo. Em poucos dias, Bia Vilela foi oficialmente nomeada a nova âncora financeira principal, tomando meu lugar no horário nobre. Era a reprise de uma história antiga e dolorosa, uma declaração pública de que eu era descartável, facilmente substituível. Meu escritório foi esvaziado, minha placa de identificação substituída.

Mas desta vez, foi diferente. Desta vez, eu não estava chorando. Eu não estava implorando. Andei pelos cômodos vazios da mansão, meus passos ecoando no silêncio. Meus pertences, cuidadosamente embalados em algumas malas, estavam junto à porta da frente. Olhei para o vasto espaço vazio, um monumento a uma vida construída sobre mentiras. Então, virei as costas e fui embora.

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