
A Vida Depois Dele
Capítulo 2
O celular vibrou na mesa da cozinha, mas Maria nem notou.
Seus olhos estavam fixos nas duas linhas vermelhas que apareceram na pequena janela de plástico.
Positivo.
Uma onda de calor subiu por seu corpo, um misto de euforia e pânico. Ela pegou o teste de gravidez com as mãos trêmulas, trazendo-o para mais perto do rosto, como se a proximidade pudesse tornar aquilo mais real.
Grávida.
Depois de dois anos de tentativas, de tabelas de ovulação, de chás de ervas recomendados pela sogra e de uma decepção silenciosa a cada mês, finalmente aconteceu.
Um sorriso lento se abriu em seus lábios. Ela imaginou a reação de Pedro. Ele ficaria surpreso, talvez um pouco assustado, mas no fundo, feliz. Eles teriam um filho, uma família de verdade. Dona Lúcia, sua sogra, finalmente pararia de olhá-la com aquele ar de pena e desaprovação.
O celular vibrou de novo, com mais insistência.
Ela o pegou, ainda sorrindo, e viu uma notificação de mensagem de um número desconhecido. Por um instante, pensou em ignorar, mas a curiosidade foi mais forte.
Era um vídeo.
Ela abriu.
O som alto de um samba de roda encheu a cozinha. A imagem tremia, como se filmada às pressas. No centro da roda, suado e com um copo de cerveja na mão, estava Pedro. Ele ria, um riso alto e solto que ela não ouvia há muito tempo.
Alguém fora da câmera gritou: "E a Maria, Pedro? Cadê a patroa?"
Pedro virou o rosto para a câmera, os olhos brilhando de álcool e de uma euforia cruel. Ele deu um gole na cerveja e disse, com a voz arrastada:
"Maria? A gente tá junto por costume, só isso."
Ele fez uma pausa, e o sorriso em seu rosto se tornou um esgar.
"A verdade? Eu não a amo mais como antes. Chega uma hora que cansa, sabe?"
O vídeo terminou abruptamente.
O silêncio na cozinha era ensurdecedor. O sorriso de Maria desapareceu. O teste de gravidez em sua mão de repente pareceu pesado, frio. Ela sentiu um frio na barriga, o mesmo frio que sentia todo mês quando a menstruação descia, mas mil vezes pior.
Ela assistiu ao vídeo de novo. E de novo. Cada vez, as palavras de Pedro pareciam mais nítidas, mais cruéis. "Não a amo mais como antes." "Cansa."
Seu olhar vasculhou a tela, buscando algo, qualquer coisa que negasse o que ouviu. E então ela viu. Atrás de Pedro, um pouco desfocada, mas inconfundível, estava uma garota. Jovem, cabelo liso e preto, olhando para Pedro com uma admiração que beirava a adoração.
Maria a reconheceu.
Sofia. A nova estagiária do escritório de Pedro. A garota que ele descreveu como "uma menina esforçada, cheia de gás".
A bile subiu por sua garganta. A alegria de minutos atrás se transformou em pó. Em uma mão, a promessa de uma nova vida. Na outra, a prova de que a sua vida atual era uma mentira.
Ela precisava falar com ele. Precisava ouvir da boca dele.
Seu dedo pairou sobre o nome de Pedro na lista de contatos. Seu coração batia descontroladamente, um tambor de pânico em seu peito. O que ela diria? Como começaria a conversa? A imagem de Sofia olhando para Pedro não saía de sua cabeça.
Ela respirou fundo e ligou.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Ela quase desligou quando ele finalmente atendeu.
"Oi, amor. Aconteceu alguma coisa?"
A voz dele era normal, talvez um pouco cansada. Nenhuma pista do homem bêbado e cruel do vídeo.
A voz de Maria saiu como um sussurro.
"Onde você está, Pedro?"
"No trabalho, ué. Reunião atrás de reunião. Por quê?"
"Eu recebi um vídeo seu."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Um silêncio que durou uma eternidade.
"Que vídeo?", ele perguntou, a voz agora cautelosa.
"Você numa festa de samba. Dizendo que... dizendo que não me ama mais."
Ela ouviu um suspiro do outro lado. Não era um suspiro de surpresa ou negação. Era um suspiro de cansaço, de quem foi pego.
"Ah, isso", ele disse, com uma leveza que a feriu profundamente. "Maria, pelo amor de Deus, era só uma brincadeira de bêbado. Você sabe como são essas coisas, o pessoal fica enchendo o saco, a gente fala qualquer besteira."
"Besteira?", ela repetiu, a voz embargada. "Você disse que está comigo por costume."
"E qual o problema? A gente não tá? Olha, eu tô no meio de uma coisa importante aqui. A gente conversa em casa, tá bom?"
E antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, ele desligou.
Maria ficou olhando para o telefone, o som do "tu-tu-tu" ecoando na cozinha silenciosa. "Só uma brincadeira", ele disse. Ela olhou para o teste de gravidez sobre a mesa. A maior notícia de sua vida, reduzida a nada em menos de cinco minutos.
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