
A Vida Depois Dele
Capítulo 3
As lágrimas que Maria segurou durante a ligação com Pedro desabaram sem aviso no corredor do supermercado.
Ela estava parada em frente à prateleira de fraldas, tentando se concentrar nos pacotes coloridos, mas tudo o que via era o rosto de Pedro no vídeo, rindo. O som do samba parecia ecoar em sua cabeça.
Uma senhora que empurrava um carrinho parou ao seu lado e perguntou, com uma gentileza preocupada:
"Tudo bem, minha filha?"
Maria apenas balançou a cabeça, incapaz de formar palavras. As lágrimas escorriam quentes por seu rosto, e ela se sentia estúpida por chorar em público, mas não conseguia parar.
De repente, uma voz masculina, calma e firme, soou perto dela.
"Com licença. Você parece não estar se sentindo bem. Precisa de um copo d'água?"
Ela ergueu os olhos e viu um homem alto, de jaleco branco, parado a uma pequena distância. Ele tinha um olhar sereno e preocupado. Pela identificação em seu peito, ela viu que era médico da clínica que ficava dentro do supermercado. Dr. Ricardo.
"Eu... eu estou bem", ela mentiu, tentando secar o rosto com as costas da mão.
"Tem certeza? Você está muito pálida", ele insistiu, sem ser invasivo. "Se precisar, a clínica está logo ali. Pode descansar um pouco."
Ela murmurou um "obrigada" e se virou, empurrando o carrinho vazio para longe, querendo apenas fugir daquela situação, da gentileza do estranho, de tudo.
Foi quando ela os viu.
No final do corredor, perto da seção de vinhos, estavam Pedro e Sofia.
Eles não a viram. Estavam rindo, escolhendo uma garrafa. Pedro pegou uma, mostrou para Sofia, e ela tocou o braço dele de um jeito que não era de colega de trabalho. Era um toque íntimo, demorado.
O ar sumiu dos pulmões de Maria. Ele disse que estava em reunião. Mentiu. Estava ali, com ela.
Com o coração martelando no peito, Maria empurrou o carrinho na direção deles. O barulho das rodas no piso liso pareceu um trovão.
Pedro se virou ao ouvir o som e seu rosto congelou quando a viu. O sorriso morreu em seus lábios. Sofia também a viu e deu um passo para trás, adotando uma expressão de inocência assustada.
"Maria? O que você tá fazendo aqui?", Pedro perguntou, a voz tensa.
"Eu te pergunto a mesma coisa. Pensei que estivesse numa reunião importante", ela disse, a voz tremendo de raiva contida.
"Eu... a reunião acabou mais cedo. Sofia precisava de uma carona e passamos aqui pra comprar um vinho pra um jantar de negócios", ele gaguejou, a desculpa fraca e óbvia.
Sofia deu um passo à frente, com um sorriso sem graça.
"Oi, Maria. Tudo bem? A gente só tava..."
"Eu não falei com você", Maria a cortou, fria.
Pedro franziu a testa, a irritação substituindo a surpresa.
"Maria, não seja grossa. O que deu em você? Você estava chorando?"
Ele notou o rosto inchado dela, mas não havia preocupação em seu tom, apenas impaciência, como se o choro dela fosse um incômodo.
"Não importa", ela disse, o olhar fixo nele.
"Claro que importa! Você tá fazendo uma cena no meio do supermercado", ele disse, baixando a voz, olhando ao redor para ver se alguém estava prestando atenção. Ele colocou a mão no braço de Sofia, um gesto protetor quase inconsciente. "Vamos pra casa. A gente conversa lá."
A mão dele no braço dela. Aquele pequeno gesto foi a confirmação final. Ele a estava protegendo. Dela.
Foi então que Maria entendeu. A garota do vídeo e a estagiária do escritório eram a mesma pessoa. A "menina esforçada" era a amante de seu marido.
"Então é ela?", Maria perguntou, a voz baixa e perigosa.
Pedro ficou em silêncio, o rosto se fechando em uma máscara de teimosia.
"Do que você está falando, Maria?", Sofia perguntou, a voz soando falsamente confusa. "Eu sou a estagiária do Pedro, você sabe..."
"Eu sei exatamente quem você é", disse Maria, olhando diretamente nos olhos dela. A máscara de inocência de Sofia vacilou por um segundo.
O mundo de Maria parecia ter encolhido àquele corredor de supermercado, com as luzes fluorescentes zumbindo acima de sua cabeça e o cheiro de produtos de limpeza no ar. Tudo era uma mentira.
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