
A Verdade Oculta da Heroína Acidental
Capítulo 2
Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas, e o teto branco do hospital era a primeira coisa que eu via.
O meu corpo doía por todo o lado, especialmente a minha cabeça, que parecia que ia explodir.
A minha melhor amiga, Sofia, estava sentada ao meu lado, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
"Eva, finalmente acordaste", disse ela, a sua voz rouca. "Assustaste-me de morte."
Eu tentei falar, mas a minha garganta estava seca.
"Onde... onde está o Leo?", consegui perguntar.
A expressão de Sofia mudou, e ela evitou o meu olhar.
"Eva, o Leo... ele está na outra sala. A mãe dele, a Clara, magoou-se para o proteger."
Clara.
O nome dela causou-me uma dor no peito.
Clara era a ex-namorada do meu marido, Leo. Eles tinham-se separado há anos, mas ela nunca desapareceu realmente das nossas vidas.
Eu e o Leo estávamos a caminho de casa depois de um jantar quando um carro descontrolado veio na nossa direção. O Leo virou o volante bruscamente, mas não conseguiu evitar a colisão.
A última coisa que me lembro foi do som de metal a torcer e do grito agudo de alguém.
"Como é que ela estava lá?", perguntei, a minha voz a tremer ligeiramente.
Sofia hesitou. "Aparentemente, ela estava a passar por ali e viu o acidente. Ela correu para tirar o Leo do carro antes que ele pegasse fogo."
Claro que sim. A heroína. Sempre no lugar certo, na hora certa.
Peguei no meu telemóvel na mesa de cabeceira. Estava rachado, mas ainda funcionava.
Havia dezenas de chamadas não atendidas e mensagens da minha mãe e amigos, mas nenhuma do meu marido. Nem uma.
Disquei o número dele. Chamou uma, duas, três vezes.
Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava cheia de preocupação e ansiedade, mas não era por mim.
"Eva? Estás bem? A Clara está em cirurgia. Ela empurrou-me para fora do caminho e ficou com a perna presa. Os médicos dizem que pode ser grave."
"E eu?", perguntei, a minha voz fria como gelo. "Eu estava no mesmo carro que tu, Leo."
Houve uma pausa do outro lado.
"Eu sei, Eva, mas a Clara salvou a minha vida. A minha mãe está aqui, ela está um farrapo. Eu não posso sair agora."
"Então a tua mulher, que acabou de sofrer um acidente de carro contigo, não é tão importante como a tua ex-namorada que convenientemente apareceu para te salvar?"
"Não sejas assim, Eva. Não é a altura para isto. A Clara está a lutar pela vida por minha causa!"
A voz da mãe dele, a Dona Isabel, soou ao fundo, alta e cheia de angústia.
"Leo, querido, como está a Clara? Oh, meu Deus, aquela rapariga é um anjo! Se não fosse por ela, eu teria perdido o meu filho!"
Depois, a voz dela dirigiu-se diretamente ao telefone, cheia de veneno.
"Eva, é melhor não estares a incomodar o meu filho agora! Se não fosses tu a insistir em ir àquele jantar estúpido, nada disto teria acontecido! A Clara é uma heroína, e tu devias ter vergonha!"
Ele não me defendeu. Ele não disse uma palavra.
"Leo", eu disse, a minha voz perigosamente calma. "Quero o divórcio."
O silêncio do outro lado foi ensurdecedor.
Depois, a raiva dele explodiu.
"Divórcio? Estás a brincar comigo? Depois de tudo o que aconteceu hoje? A Clara está numa cama de hospital por minha causa e tu só consegues pensar em ti? És inacreditavelmente egoísta!"
Ele desligou.
Eu olhei para o telemóvel na minha mão. Tentei ligar de volta. Ocupado. Tentei de novo. O número estava bloqueado.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios.
Egoísta? Eu era a egoísta?
Eu, que passei os últimos três anos a aturar a presença constante da ex dele, as comparações intermináveis da mãe dele, e a sua própria incapacidade de colocar a sua mulher em primeiro lugar.
Sofia pegou na minha mão. "Eva, não o ouças. Ele não está a pensar direito."
"Não, Sofia. Ele está a pensar perfeitamente direito", eu disse, olhando para o teto. "Ele acabou de me mostrar exatamente quais são as suas prioridades."
E eu não era uma delas.
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