
A Verdade Oculta da Heroína Acidental
Capítulo 3
O médico entrou no quarto com uma prancheta na mão, a sua expressão séria.
"Senhora Eva Santos, tenho os resultados dos seus exames."
Eu sentei-me, o meu corpo a protestar com a dor. Sofia ajudou-me a ajustar as almofadas.
"Tenho boas e más notícias", continuou o médico. "A boa notícia é que, para além de contusões e uma concussão leve, não tem ferimentos graves. Vai recuperar totalmente com algum descanso."
Eu assenti, à espera da outra parte.
"A má notícia", disse ele, olhando para os papéis, "é que descobrimos algo durante os exames. Senhora Santos, está grávida."
O mundo parou.
Grávida.
Eu e o Leo tínhamos tentado ter um bebé durante mais de um ano, sem sucesso. Tínhamos desistido há alguns meses, aceitando que talvez não fosse para ser.
E agora, isto.
As lágrimas que eu tinha segurado com tanta força começaram a cair. Eram lágrimas de choque, de alegria, de medo e de uma tristeza avassaladora.
Sofia agarrou a minha mão com força. "Eva? Isto é... isto é verdade?"
Eu só conseguia assentir, a minha garganta apertada demais para falar.
Um bebé. Um bebé nosso.
Um bebé que o pai dele não sabia que existia, porque estava demasiado ocupado a preocupar-se com outra mulher.
O médico, percebendo a complexidade da situação, pigarreou. "Normalmente, isto seria uma notícia maravilhosa. No entanto, dado o acidente e a concussão, precisamos de ser muito cuidadosos. Terá de evitar o stress a todo o custo. É crucial para a saúde da gravidez nas primeiras semanas."
Evitar o stress.
Ri-me, um som oco e sem alegria. Era como pedir a alguém no meio de um furacão para não se molhar.
"Obrigada, doutor", consegui dizer.
Quando ele saiu, o silêncio no quarto era pesado.
"O que vais fazer?", perguntou Sofia suavemente.
"Eu não sei", admiti, colocando a mão instintivamente sobre a minha barriga lisa. "Eu queria isto mais do que qualquer coisa. Mas agora..."
Agora, tudo estava diferente. O divórcio que eu tinha declarado com raiva momentos antes já não parecia tão simples.
Um filho merece uma família. Um pai.
Mas que tipo de pai seria o Leo? Um que escolheria sempre outra pessoa em vez da sua própria família?
O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Hesitante, atendi.
"Eva?"
Era a voz do Leo. Ele devia estar a usar o telemóvel de outra pessoa.
"O que queres?", perguntei, a minha voz desprovida de emoção.
"Olha, eu sei que estás zangada", começou ele, a sua voz mais baixa agora. "A minha mãe exagerou. Mas tenta entender o meu lado. A Clara..."
"Não digas o nome dela para mim", interrompi-o.
Ele suspirou. "Ok. Mas ela vai ficar bem. A cirurgia correu bem. Ela vai precisar de fisioterapia, mas vai andar de novo."
"Que bom para ela", respondi sarcasticamente.
"Eva, por favor. Não vamos lutar. Podemos falar sobre... sobre o que disseste mais tarde? Quando as coisas acalmarem?"
Eu pensei no pequeno segredo que agora guardava. Pensei no conselho do médico. Evitar o stress.
Talvez ele tivesse razão. Talvez eu precisasse de tempo para pensar, para decidir o que era melhor. Não só para mim, mas para o bebé.
"Está bem, Leo", eu disse, a minha voz cansada. "Falamos mais tarde."
"Obrigado, Eva. Sabia que ias entender. Vou tentar passar aí assim que puder."
Ele desligou, e eu fiquei a olhar para o telemóvel.
Eu não o tinha perdoado. Longe disso. Mas tinha comprado tempo.
E tempo era algo de que eu precisava desesperadamente.
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