
A Última Vingança da Esposa
Capítulo 2
O cheiro de leite e talco ainda estava no ar, uma lembrança doce e torturante do que eu tinha perdido. Meu filho, meu pequeno anjo, não estava mais no berço.
Tudo aconteceu rápido demais. Os homens invadiram a casa, rostos cobertos, armas em punho. Eles não queriam dinheiro. Eles me queriam.
"Faça exatamente o que a gente mandar, e talvez o seu bebê volte pra você", um deles disse, a voz abafada pela máscara.
Eles me forçaram a ligar a câmera. Me forçaram a tirar a roupa. Por seis horas, eu fui um objeto na frente da lente, meu corpo exposto, minha alma rasgada, enquanto eu só conseguia pensar no choro fraco do meu filho no outro quarto. Cada segundo era uma eternidade de humilhação, mas eu fiz. Eu fiz tudo, acreditando na promessa vazia deles.
Quando terminaram, eles riram.
"Bom trabalho, mamãe."
Eles foram embora, e o silêncio que ficou era mais aterrorizante que qualquer grito. Corri para o quarto do meu filho. O berço estava vazio. A janela, aberta.
No dia seguinte, a polícia encontrou seu corpinho. Um anjo que mal teve tempo de conhecer o mundo. E o vídeo, o vídeo que eu gravei sob coação, viralizou. Meu nome, meu rosto, meu corpo, estavam em todos os celulares, em todos os computadores. Eu me tornei a "mãe vadia", a mulher que tinha perdido o filho por causa de sua "vida depravada".
Eu liguei para Ricardo, meu marido, esperando um ombro para chorar, um abraço que me dissesse que íamos superar aquilo juntos.
Sua voz do outro lado da linha era gelo puro.
"Maria Eduarda, eu vi o vídeo. Todo mundo viu. Como você pôde? Como pôde fazer isso com a nossa família, com a memória do nosso filho?"
"Ricardo, eles me forçaram! Eles sequestraram nosso filho! Eu fiz para salvá-lo!"
"Salvá-lo? Ele está morto, Maria Eduarda! E você é uma vergonha. Não me procure mais. Acabou."
Ele desligou. O homem que jurou me amar na saúde e na doença me abandonou no momento em que eu mais precisava dele.
Desesperada, procurei meus pais. Minha mãe abriu a porta, o rosto uma máscara de decepção. Meu pai estava atrás dela, incapaz de me olhar nos olhos.
"Filha, o que as pessoas estão dizendo... É vergonhoso", minha mãe disse, a voz baixa. "Não podemos ser vistos com você agora. Precisamos de um tempo. É melhor você ir."
A porta se fechou na minha cara. A família que me criou, o homem que eu amava, todos me viraram as costas. Eu estava sozinha, destruída, com a dor da perda do meu filho e a humilhação pública me consumindo.
Eu não tinha para onde ir. Sem dinheiro, sem apoio, eu vagava pelas ruas, um fantasma da mulher que eu era. Foi nesse estado que Pedro me encontrou.
Pedro era o arqui-inimigo de Ricardo. Eles se odiavam desde a faculdade, uma rivalidade que se estendeu para os negócios e para a vida. Ele parou seu carro de luxo ao meu lado, a janela descendo suavemente.
"Maria Eduarda? O que aconteceu com você?"
Seu rosto mostrava uma preocupação que eu não via há muito tempo. Eu desabei ali mesmo, na calçada, e contei tudo, entre soluços de dor e desespero. Ele ouviu pacientemente, e quando terminei, ele abriu a porta do carro.
"Entre. Eu vou cuidar de você. Ricardo é um lixo por ter feito isso. Você não merece nada disso."
Pedro me deu um lugar para ficar, roupas novas, comida. Ele me tratou com uma gentileza que parecia um bálsamo para minhas feridas. Ele me ouviu, me consolou e, pela primeira vez em muito tempo, eu senti um vislumbre de esperança.
Semanas depois, ele me fez uma proposta chocante.
"Case-se comigo, Maria Eduarda. Deixe-me te dar o nome e a proteção que você precisa. Deixe-me te ajudar a se reerguer e a mostrar para todo mundo, inclusive para o Ricardo, que você não está acabada."
Parecia loucura, mas eu estava tão desesperada por segurança, por alguém ao meu lado, que aceitei. O casamento foi marcado rapidamente, uma cerimônia íntima, apenas com alguns amigos de Pedro.
Eu estava no quarto, terminando de me arrumar. O vestido branco parecia uma fantasia, uma mentira. Meu coração estava pesado, mas eu tentava me convencer de que era a coisa certa a fazer. Eu precisava de um recomeço.
Foi quando ouvi vozes vindo do jardim, perto da janela entreaberta. Eram Pedro e Ricardo.
"Você tinha que ver a cara dela quando eu a pedi em casamento", Pedro dizia, rindo. "Ela realmente acreditou que eu era o seu príncipe encantado."
A voz de Ricardo respondeu, cheia de desprezo. "A idiota sempre foi ingênua. Ela caiu direitinho no seu papo. Mas e o plano? Tudo está pronto para hoje?"
"Claro", disse Pedro. "Os convidados já estão preparados. Assim que ela disser 'sim', o telão vai acender. Vamos passar o vídeo dela de novo, para todos os meus amigos importantes verem a 'qualidade' da minha nova esposa. E a melhor parte? Eu mesmo orquestrei tudo, desde o início. O sequestro, os traficantes... até a morte do pirralho. Foi caro, mas ver a sua vida e a da sua família arruinada valeu cada centavo. Uma vingança perfeita contra você e o seu paizinho."
Meu mundo parou. O ar sumiu dos meus pulmões. Cada palavra era uma facada. O sequestro. A morte do meu filho. O vídeo. O abandono de Ricardo. O "resgate" de Pedro. Tudo. Tudo tinha sido um plano. Um plano cruel, sádico, orquestrado pelos dois homens que mais marcaram a minha vida.
O som da marcha nupcial começou a tocar. A porta do quarto se abriu. Um dos funcionários de Pedro sorriu para mim.
"A cerimônia vai começar, senhora."
Eu andei pelo corredor, meu corpo se movendo no automático. Minha mente era um turbilhão de ódio e dor. Vi Pedro no altar, sorrindo para mim, o monstro disfarçado de salvador. Vi Ricardo em um canto, com um sorriso satisfeito no rosto.
Quando cheguei ao altar, o juiz de paz começou a falar. Atrás dele, um enorme telão branco. O mesmo telão que eles planejavam usar para me humilhar mais uma vez.
De repente, as luzes diminuíram. O telão se acendeu. Mas não era o meu vídeo que apareceu. Era uma foto antiga, minha e de Ricardo, em tempos mais felizes. E então, o som do meu vídeo íntimo começou a ecoar pelo salão.
Os convidados começaram a cochichar, a rir. Celulares foram sacados, gravando minha reação. Eu fiquei paralisada, revivendo o horror, o som das minhas súplicas, a risada dos traficantes.
E então, Pedro agiu. Ele gritou, fingindo fúria.
"Quem fez isso?! Desliguem isso agora! Como ousam fazer isso com a minha noiva?!"
Ele correu até o equipamento de som, "desligando" o áudio. Ele veio até mim, me abraçou, como um herói me protegendo da maldade do mundo.
"Calma, meu amor, eu estou aqui. Eu vou te proteger."
Eu olhei para o rosto dele, para a falsa preocupação em seus olhos. Eu olhei para Ricardo, que assistia a tudo com um prazer doentio. A "brincadeira" no casamento era só mais uma encenação. A humilhação, o resgate heroico... tudo parte do jogo doentio deles.
Naquele momento, algo dentro de mim morreu. A Maria Eduarda ingênua, a mulher que chorava e esperava ser salva, desapareceu para sempre. No lugar dela, nasceu uma nova mulher. Uma mulher forjada na traição, na dor e no ódio.
Eu me afastei do abraço de Pedro, meu corpo frio como pedra. Eu olhei para ele, depois para Ricardo. Eu não disse uma palavra. Apenas os encarei, e no meu olhar, eles viram. Eles viram que eu sabia.
O desespero no meu peito se transformou em uma chama gelada. Eles tiraram meu filho. Eles destruíram minha vida, minha reputação, minha família. Eles pensaram que tinham me quebrado.
Mas eles estavam errados. Eles apenas me deram um propósito.
Justiça. Não, era mais do que isso.
Vingança.
Eu ia lutar. Eu ia expor a verdade. Eu ia derrubá-los, um por um. Pelo meu filho. Pela vida que eles roubaram de mim. O jogo deles tinha acabado. O meu estava apenas começando.
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