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Capa do romance A Última Herdeira da Lua Rubra

A Última Herdeira da Lua Rubra

Adrián Salvatore, CEO e herdeiro da linhagem Lua Prateada, vive isolado por muros emocionais e segredos sobrenaturais. Ele acredita ser o fim de sua raça até contratar Rúbia Moreau, uma arquiteta renomada, para um projeto nas montanhas. O encontro desperta uma conexão intensa, mas o passado sombrio de Adrián ameaça esse vínculo. Entre perigos ocultos e revelações, os dois últimos sobreviventes devem escolher entre a dor do passado ou um futuro sob a lua.
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Capítulo 3

Quando a elegância tem outro nome, e não é lar.

RÚBIA VALLEN MOREAU

28 anos

O inverno de Paris sempre chega assim, pesado, como se a cidade colocasse um casaco por cima de tudo e decidisse respirar mais devagar. Eu nunca gostei do frio. Não do jeito romântico que as pessoas gostam, como se o gelo nas mãos fosse poesia e o vento cortante no rosto fosse charme. O frio me deixa alerta, me deixa impaciente, me deixa com vontade de estar em outro lugar, com outra luz, outro cheiro, outra temperatura. Ainda assim, eu aprendi a conviver com ele, porque Paris ensina isso a qualquer um que se atreva a chamá-la de lar.

Minha mãe adotiva dizia que o frio deixa a mulher elegante. Ela falava com a certeza de quem acreditava que elegância era uma escolha e não um acaso. Casacos pesados, luvas de couro, botas que soam firmes no chão, tecido bem cortado, perfume discreto que sobrevive à brisa gelada.

Pode ser. Eu só sei que a elegância do frio é uma elegância de armadura, como se as camadas fossem necessárias para o corpo e para a alma.

Se existe uma vantagem, é que o inverno tem seus pequenos consolos. A lareira acesa no fim do dia. O chocolate quente espesso o suficiente para parecer abraço. Um cappuccino bem tirado, com espuma cremosa e aroma de café que invade a cabeça e te lembra que você ainda está viva. Eu gosto disso. Gosto das coisas quentes quando o mundo se torna frio demais, talvez porque exista algo em mim que sempre buscou calor, mesmo sem admitir.

Eu cresci assim, buscando. Não respostas, porque respostas eu nunca tive, mas uma sensação. Um encaixe. Algo que dissesse, sem palavras, aqui é o seu lugar. Quando eu era pequena, antes mesmo de entender o que significa ser adotada, eu já sentia uma espécie de deslocamento silencioso, como se eu estivesse sempre um passo atrás do próprio corpo. Não era tristeza explícita, nem drama. Era uma ausência discreta, uma falta que eu não sabia nomear.

Foi por isso que comecei a desenhar.

Eu desenhava porque o papel me obedecia. Porque uma linha torta podia ser corrigida. Porque uma casa sempre podia ser melhorada. Eu não tinha poder sobre as perguntas sem respostas da minha vida, mas eu tinha poder sobre traços.

Aos sete anos, eu já rabiscava chalés e cabanas como se estivesse tentando inventar um refúgio que eu pudesse habitar por dentro.

Aos dez, comecei a desenhar prédios com varandas e janelas demais, sempre com a mesma obsessão: estrutura.

Minha mãe ria quando via meus cadernos. Dizia que eu não desenhava casas, eu desenhava proteção.

Ela não sabia o quanto estava certa.

Minha adolescência foi um roteiro de disciplina silenciosa. Eu era a garota que não dava trabalho, não fazia escândalo, não pedia demais, porque eu aprendi cedo que pedir demais poderia significar perder. Não de forma literal, mas emocional. Eu tinha uma família adotiva que me amava do jeito deles, e eu aprendi a amar de volta sem exigir além do que me ofereciam. Havia carinho, havia cuidado, havia rotina. E havia uma curiosidade que eu guardava como segredo, uma curiosidade sobre de onde eu vim, quem eu era antes de me tornar quem eu me tornei.

Na faculdade de arquitetura, tudo aquilo que eu fazia por instinto virou método. Eu entendi que minha cabeça não desenhava apenas por beleza. Eu pensava em peso, em vento, em segurança, em como o mundo tenta derrubar o que a gente constrói.

Eu me sobressaí rápido. Bolsa, concursos, projetos, prazos. A sensação de não pertencer continuava ali, só que agora eu tinha uma identidade que as pessoas respeitavam. Rúbia, a arquiteta. A jovem que projeta como se estivesse conversando com o terreno. A francesa de criação com nome espanhol, sotaque que as pessoas não sabem definir, sorriso fácil e olhos que ficam sérios rápido demais quando falam de estrutura.

Naquele dia, eu estava em um canteiro de obra em Paris, cercada por concreto, aço e vozes. O ar estava gelado, mas havia um sol tímido tentando tocar as fachadas. Eu usava capacete, casaco grosso e luvas, mas o frio ainda assim entrava pelas frestas, como sempre entra quando quer entrar. O som das máquinas era um tipo de música que eu conhecia bem, e eu gostava, porque trabalho bem feito tem som. Tem cheiro. Tem ritmo.

Eu atravessava o canteiro com uma prancheta na mão, rindo de alguma piada idiota que um dos engenheiros tinha acabado de fazer. Eu sempre fui assim. No meio do peso, eu encontro espaço para leveza. Talvez seja meu jeito de respirar. A equipe gostava de trabalhar comigo por isso. Eu cobrava muito, mas eu não esmagava ninguém. Eu perguntava, eu ouvia, eu ensinava quando pediam. Eu não precisava ser dura para ser respeitada.

Um dos pedreiros acenou para mim de longe e eu respondi com um gesto, avisando que depois iria olhar a parede que ele queria me mostrar. Um carpinteiro veio reclamar do vento que estava atrapalhando uma parte da instalação, e eu disse que vento não é desculpa, vento é variável. Ele riu, resmungando que eu falava como se fosse a própria natureza.

Eu ia responder quando o meu telefone vibrou no bolso do casaco.

O número era desconhecido, com código internacional.

Atendi por impulso, imaginando que pudesse ser alguma confirmação de fornecedor ou algo do tipo.

- Rúbia Vallen Moreau?

A voz era masculina, profissional, polida demais para ser improviso. Havia aquela cadência de gente que fala como se estivesse sempre em um escritório, mesmo quando não está.

- Sim. Sou eu.

- Aqui é da consultoria que representa um cliente interessado em um projeto residencial. Ele recebeu recomendações sobre seu trabalho e gostaria de marcar uma reunião.

Eu me afastei alguns passos do barulho das máquinas, procurando uma zona menos ruidosa entre os contêineres.

- Residencial onde? Paris?

- Não. Espanha.

A palavra Espanha me atravessou de um jeito que não fez sentido.

Eu senti como se o ar tivesse mudado, mesmo estando no mesmo lugar. Uma pressão discreta no centro do peito. Nada dramático, nada que alguém notasse. Apenas uma reação íntima, involuntária, como um reflexo que não pede permissão.

- Qual região? Perguntei, tentando manter o tom neutro, como se aquilo fosse apenas mais um trabalho.

- Montanhas. Próximo à fronteira. O cliente possui um terreno e deseja construir uma casa isolada.

Eu deveria ter sentido apenas interesse profissional. E eu senti, porque casa em montanha sempre me atraiu. Mas junto do interesse veio algo mais, uma sensação estranha de familiaridade, como se alguém tivesse pronunciado um nome que eu esqueci, mas o corpo lembrou.

- Montanhas onde exatamente? Insisti, já me irritando comigo mesma por me importar.

A voz do outro lado demorou meio segundo a mais do que o normal, como se consultasse algo.

- Região de acesso reservado. O cliente prefere discutir detalhes pessoalmente. Ele é extremamente reservado.

Aquela frase era para ser um aviso simples.

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