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Capa do romance A Última Górgona - Livro 1

A Última Górgona - Livro 1

Martina vê sua vida mudar ao achar um livro no sótão que a leva a um reino mitológico. Lá, descobre ser a quarta irmã górgona, destinada a transformar o coração de Medusa e desvendar segredos ancestrais. Entre batalhas contra monstros e dilemas amorosos com dois pretendentes distintos, ela lida com a morte do pai abusivo e as verdades ocultas que surgem. Agora, essa heroína relutante precisa de coragem para enfrentar seu destino e mistérios profundos.
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Capítulo 3

Depois de uma semana de luto, que eu não fiz nenhuma questão de vivê-lo, voltei hoje para o que seria o meu segundo dia de aula. Era incrível como todos os alunos da escola não conseguiam parar de me olhar sinistramente como no primeiro dia.

"Será que vai ser sempre assim todos os dias ou só quando alguma tragédia acontecer na minha família?"

Caminho exausta de toda aquela atenção desnecessitaria, decidida a evitá-los, sigo pelo jardim que dá acesso à segunda escadaria do prédio.  Debaixo da árvore a minha esquerda estava Rodrigo com aquele belo sorriso faceiro, enquanto resenhava com os seus amigos. Quando ele me viu, pude perceber o momento exato que os seus olhos brilharam. Para não dar na pinta que o observava ao caminhar, desviei os meus olhos para outro lugar e, novamente, mudei a minha rota.

"Aquele garoto não é para mim"

Rodrigo pertencia a um mundo totalmente oposto do meu, ele precisava encontrar uma garota que estivesse à sua altura. Que fosse rica e tivesse o padrão de beleza igual das patricinhas que estavam no pátio da escola. Eu nem de longe era essa garota, então resolvendo evitar as possíveis e futuras decepções amorosas, ignorei o seu chamado. Mas senti a presença de alguém me seguindo, não tinha dúvidas de quem seria, entretanto, me virei para confirmar se era o Rodrigo vindo atrás de mim. Apressei os meus passos tentando fugir dele, o que apenas o encorajou a correr para me alcançar antes que eu chegasse no meu destino.

— Espera um pouco! — disse ofegante, enquanto segurava o meu braço, me obrigando a parar de andar. — Por que está fugindo de mim? — perguntou desconfiado.

— Porque estou com pressa! — disse me soltando do seu aperto e tornando a andar.

— Espera, vamos conversar! — insistiu ficando na minha frente.

— Depois a gente conversa, tá? Agora estou sem cabeça para isso. — falei sem paciência, era louvável a sua persistência, mas era frustrante não conseguir evitá-lo.

— Ok, mas eu não desistirei de você tão fácil assim. Você que lute para se livrar de mim! — Ele começou a gritar colocando as mãos ao redor da boca como se falasse em um megafone, para depois sai correndo de volta para os seus amigos.

Ele é inacreditável, como controlaria as sensações se ele não desgruda. Pelo menos ele não viu que eu ri da cara dele, pois daria mais corda a sua perseguição. Mas acho que lá, no fundo, eu gosto de vê-lo correndo atrás de mim, era como um desafio.

"Acho que vou me aproveitar um pouquinho disso para brincar um pouco."

A sala de aula parecia mais um deserto de tão vazia. A maioria dos alunos ainda não havia chegado ou até mesmo entrado, nem mesmo a professora havia dado sinal de vida. Sentei na mesma cadeira do primeiro dia, coloquei a minha mochila em cima da mesa da carteira, e fazendo-a de travesseiro, tentei relaxar enquanto a aula não começava.

Em questão de minutos o sinal bateu me arrancando do maravilhoso cochilo, passo as mãos no rosto de modo a limpar qualquer vestígio de baba. Vejo uma multidão espalhafatosa de alunos entrarem na sala tão desanimados que pareciam uma torcida que acabara de ver o seu time favorito perder e logo em seguida a professora adentrou fazendo um contraste enorme com turma, pois tinha em seu rosto um enorme sorriso de orelha a orelha. Deveria ser novata, os novatos sempre são assim, calorosos.

— Bom dia, turma! Preparados para mais um dia de aula? — perguntou animada. A professora me avistou lá, no fundo da sala e eu cruzei os dedos para que não me chamasse. — Srta. Leoni? — Ela me chamou, fazendo despertar de imediato o pânico em ter que ir à frente e encarar todo esse povo estranho, por favor, que não seja isso. — Meus pêsames, espero que esteja tudo bem com você e a sua família.

— Obrigada. Está tudo bem, sim! — respondi com uma vozinha melodiosa, não podia quebrar a expectativa dela ao identificar o meu "foda-se" aos pêsames pela morte do seu pai.

— Bom, proponho começarmos a aula. Afastar toda a tristeza, pois hoje teremos trigonometria! — disse trocando de assunto, e distribuindo toda a sua euforia nada contagiante.

A professora escrevia no quadro branco o novo tema. Estava abrindo a minha mochila para pegar o meu caderno e a caneta quando de repente sinto uma leve pancadinha na cabeça e pelo barulho que fez, deduzo que alguém havia jogado uma bolinha de papel. Olhei para trás e uma garota mal-encarada acenou para mim com as mãos. Ela tinha um belo par de olhos verdes-claros e o seu cabelo caracolado era loiro com duas mechas tingidas de rosa e preto na região da nuca, parecia uma boneca, embora as argolas no nariz e sobrancelhas — tinha a maior cara de maloqueira —, gritasse o oposto.

— Fiquei sabendo que o seu pai morreu. Ele foi degolado, não foi? Tadinha de você, né? Nasceu tão azarada. — Ela me provocou com um olhar debochado. — Que dó, tô com peninha, sabia?

Não entendi o porquê que essa doida começou a me atacar passivamente do nada, sendo que eu nada fiz a ela, nem mesmo a conheço. Decidi não cair nas suas provocações, voltando a minha posição, e me mantendo em silêncio. Se ela soubesse que a morte do meu pai foi um livramento para mim, talvez o papo seria outro ou nem existiria.

— Não vai me responder? Ownt, ainda tá sofrendo com a morte do papaizinho ou será que não? — Ela estava determinada a me tirar do sério.

Fechei meus olhos e respirei fundo, buscando a calma que estava começando a esgotar antes de me virar para ficar de frente com ela.

— O que você quer comigo, hein? — indaguei entre dentes, quase perdendo a paciência.

— Vi você e o Rodrigo hoje mais cedo. Me contaram que vocês dois estavam juntinhos no dia em que descobriu que o teu paizinho morreu. Só vou te dar um aviso guria, fica longe do meu namorado ou você terá muitos problemas aqui, fui clara? — Ela me ameaçou na maior cara de pau.

— Nossa, olha como tô morrendo de medo, chega, tô me tremendo todinha, olha! — debochei simulando tremer as minhas mãos.

— Você está avisada, depois não diga o contrário. — Ela disse com uma cara bem séria e tenebrosa.

— Ui! Calma aí, garota, eu nem te conheço, então abaixa essa bola. — debochei mais uma vez, perdendo toda a paciência.

— Ei?! — A professora reclamou, o que me fez automaticamente me recompor — Vocês duas, aí, no fundo, não é hora de conversinha. — reclamou — Vou começar a chamada, façam silêncio, pois não repetirei!

Na chamada da escola descobri que a minha suposta rival se chama Rebecca.

O sino da escola bateu indicando o intervalo, precisava comer, embora não tivesse fome naquele momento. Arrumando minhas as coisas para sair da sala quando a tal da Rebecca esbarrou de forma brutal e propositalmente em mim, fiquei sem reação com a tamanha falta de educação daquela garota.

"Meu Deus! Que garota mal-educada"

Saio da sala atordoada com o que acabara de acontecer, o colegial é sempre uma merda, mas esse ganharia o prêmio do ano, e o pior: ainda não havia conseguido um armário novo, então pedi para Herbert guarda as minhas coisas mais uma vez junto com as suas, e ele assentiu

No caminho para a cantina, senti uma presença masculina e em seguida, sua voz

— Vai continuar fugindo de mim? — Rodrigo surgiu ao meu lado.

— Não, quer ir comigo para cantina? — convidei estendendo a mão para ele segurar.

— Claro. Eu já ia fazer o convite — respondeu maravilhado e com os olhos brilhando de imediato.

Durante toda a caminhada até a cantina, Rebecca nos seguia com os olhos. Pegamos a fila para escolhermos nosso almoço e por fim sentamos juntos numa mesa vazia no fundo, esquerdo do salão. Aquilo foi intencional da minha parte, queria provocá-la para mostrar que eu não tenho medo de nada que venha dela.

Percebi de longe que a garota estava furiosa somente pela forma que segurava com força o garfo, nem queria imaginar o que ela faria com aquele garfo caso eu estivesse na sua frente. Eu realmente sou uma pessoa que rir da cara do perigo.

— E aí, como você está? — Rodrigo perguntou dando uma garfada no espaguete de carne em seu prato.

— Estou bem, poderia abrir a minha latinha de coca? — pedi, aproveitando cada momento ao lado do Rodrigo para alfinetar a queridinha da Rebecca.

— Claro! Ah, Martina, eu... — pausou ponderando se devia ou não continuar. — Por que não atendeu as minhas ligações? Deixei até recado, mas acho que não o escutou. — indagou direto ao ponto.

— Eu não estava me sentindo bem esses dias. Precisava ficar um pouco sozinha — respondi à verdade.

— Tô te achando um pouco cabisbaixa. Queria te convidar para sair hoje à noite, para quem sabe tirar você dessa bad. Que tal? — Ele disse, com uma carinha meiga, esperando uma resposta positiva da minha parte.

— Eu não sei...

— Ah, por favor! — disse juntando as duas mãos.

— Tá bom, eu topo! — aceitei.

— Isso! — comemorou, me fazendo gargalhar da sua postura cativante.

Fui uma das primeiras a entrar na sala após o intervalo, e logo em seguida aquela garota — Rebecca —, passou por mim com passos fortes e firmes como se fosse rachar o chão da sala, parando apenas ao chegar em sua carteira. Ela ficou me fitando intensamente com os olhos, aquilo já estava me dando calafrios e confesso que até deu um pouco de medo, mas não deixei ela me intimidar, mantive a cabeça erguida. E para o meu alívio, o professor de biologia entrou na sala, dei graças a Deus.

— Boa tarde, turma! — cumprimentou a classe e, em seguida, olhou para mim — Para quem está começando agora. Sou Matias, o professor de biologia — Ele se apresentou olhando diretamente para mim. — Como se chama aluna nova?

— Martina, o meu nome é Martina! — respondi, cansada de repetir o meu nome tantas vezes.

— Seja bem-vinda! — acenei positivo com a cabeça ao ouvir a felicitação.  — Bom, turma, na nossa aula de hoje vamos falar sobre moléculas, células, tecidos...

Horas mais tarde o sinal bateu marcando o fim das aulas. No momento em que eu estava arrumando os meus materiais na mochila, a tal da Rebecca me pegou pelo braço.

— Você acha que estou brincando, né? Garota, você não sabe com quem está mexendo! — Rebecca me empurrou contra a parede sem largar o meu braço, enquanto me lançava um olhar psicopata.

— Me solta! — gritei, puxando o meu braço da mão dela com força. — Eu não tenho medo de você. Saio com quem eu quiser, e se ele quisesse ficar realmente com você, era você que ele procuraria todos os dias e não eu! — vomitei algumas verdades na cara dela. — Agora saia da minha frente!

Esbarrei em seu ombro retribuindo o empurrão anterior. Não aguentava mais ficar ali, dando as costas para ela, fui embora daquela sala.

"Que garota insuportável!"

Quando cheguei em casa encontrei vários caixotes na sala de estar, a minha mãe estava arrumando alguns pertences do meu pai na intenção de se desfazer e colocar para a doação.

— Acho que deixarei essas coisas no sótão por enquanto, a ONG ainda não confirmou o dia que virá buscar os caixotes. E não estou pretendendo entrar lá até esvaziar dessa casa todas as coisas dele, mas apesar de tudo eu ainda o amava... — Sentada no chão, lançava um olhar vazio à medida que embalava cada peça de roupa, perfumes e objetos que Saulo costumava usar.

— Eu realmente não entendo como a senhora conseguiu amar um homem desse! Quando chorei ao saber da sua morte, saiba que não foi um choro de tristeza, mamãe, foi um choro de alívio e vitória. Eu não consigo sentir luto por quem nos fez sofrer tanto. — desabafei enquanto as lágrimas caiam dos meus olhos.

— Quando você conhecer alguém que ama e se casar, aí, sim, você vai entender. — disse com uma expressão cabisbaixa.

— Não, eu não entenderei, porque eu nunca permanecerei ao lado de alguém que me faça mal. Sou de reagir e fazer muito pior, e era o que a senhora deveria ter feito — encerrei o assunto indo em direção a escada.

Entrei no quarto apenas para me jogar na minha cama com mochila e tudo, estava chateada, não entendia o porquê de ela agir assim. Mas precisava me acalmar antes de descer para o jantar, respirando fundo, levantei da cama para retirar o meu tênis e a farda escolar. Apenas de calcinha e top, volto a deitar na cama e abro a mochila para fazer os deveres da escola, ao tirar o caderno um papel amassado acaba caindo no colchão.

Por curiosidade, abri e dentro dele tinha um pequeno texto, escrito de recortes de jornais e revistas, que dizia:

"Se afaste ou sofrerá as consequências."

Revirei os olhos diante do papel, se tratava de uma ameaça muito infantil, já imaginava de quem seria aquele temível bilhete. Estou começando a ter uma certeza, Rebecca não vai me deixar em paz nunca, pois de fato ela acredita que sou a sua rival.

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