
A Última Despedida do Monstro
Capítulo 2
Ponto de Vista: Helena
A linha ficou muda, deixando um silêncio ensurdecedor. Por um longo momento, o único som era minha própria respiração, ofegante e irregular. Então, o telefone tocou de novo, vibrando violentamente na minha mão. Caio. Encarei o identificador de chamadas, uma resolução fria endurecendo meu rosto. Eu não ia atender. Não desta vez.
Ele ligou de novo. E de novo. Cada toque era um apelo desesperado, depois uma exigência, depois uma ameaça. Deixei tudo ir para a caixa postal, meu dedo pairando sobre o botão de bloquear. Ainda não. Eu precisava que ele ouvisse isso. Eu precisava dizer uma última vez, com cada fibra do meu ser.
Meu telefone vibrou com uma mensagem. Caio: Não se atreva a fazer isso, Helena. Não se atreva! Você vai se arrepender. Você vai voltar rastejando.
Meus lábios se curvaram em um sorriso sem humor. Rastejando? Nunca. Não depois de tudo.
O telefone tocou mais uma vez, e desta vez, eu atendi. "O que você quer, Caio?" Minha voz estava neutra, desprovida da emoção que ele provavelmente esperava.
"O que eu quero?" Sua voz era um rugido estrangulado, explodindo pelo alto-falante. "Que porra você pensa que está fazendo, Helena? Terminando? Assim? Depois de tudo que passamos? Você acha que eu sou um brinquedo descartável que você pode simplesmente jogar fora quando se cansa?"
"Descartável?" retruquei, uma risada aguda escapando de mim. "Você está falando de descartável? Quem era descartável quando eu estava deitada numa cama de hospital, mal conseguindo respirar? Quem era descartável quando eu mais precisei de você?"
Sua voz vacilou por um segundo, um lampejo de algo que soou quase como culpa. Mas foi rapidamente substituído por raiva. "Isso não é justo, Helena! A Bárbara precisava de mim! A avó dela estava perambulando por aí, confusa. Você estava só tendo um ataque de pânico, você já teve isso antes!"
As palavras me atingiram como um golpe físico, mesmo que eu as esperasse. Só um ataque de pânico. Ele disse isso com tanto desdém, como se meu corpo convulsionando e meus pulmões se recusando a funcionar fossem um pequeno inconveniente comparado ao drama fabricado de Bárbara.
Eu me lembrava daquela noite com uma clareza visceral. O ar parecia denso, pesado, pressionando meu peito. Cada respiração era uma luta, um suspiro desesperado por vida. Minha bombinha era inútil, minha visão embaçando nas bordas. Eu tinha ligado para o Caio, minha voz um coaxar desesperado. "Caio... não consigo respirar. Está ruim. Preciso de você."
Ele estava a caminho, acelerando pela cidade. Lembro-me do alívio, do fraco lampejo de esperança de que ele estaria lá, que me salvaria. Então o telefone dele tocou. A voz em pânico de Bárbara, frenética e exagerada, cortou a estática. "Caio! Meu Deus, a vovó sumiu! Ela simplesmente saiu andando! Eu não sei o que fazer! Estou com tanto medo!"
Ouvi Caio suspirar, um som frustrado, mas então sua voz suavizou. "Bárbara, calma. Estou chegando. Onde você está?"
Meu coração despencou. "Caio, não!" engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Por favor, Caio! Eu estou morrendo! Preciso do hospital! Você disse que estava vindo pra cá!"
Ele hesitou. Uma pausa longa e agonizante onde minha vida estava em jogo. Então, sua voz, tingida com o que ele provavelmente achava que era razão. "Helena, a Bárbara está sozinha. A avó dela tem Alzheimer, isso é sério. Você só precisa tentar se acalmar. Respire fundo. Vou chamar uma ambulância para você. Estarei aí assim que puder, depois de ajudar a Bárbara."
Só se acalmar. Só um ataque de pânico. A memória era uma ferida aberta, infeccionada e podre. Eu tinha implorado, suplicado, até ameaçado nunca mais falar com ele se ele me deixasse. Ele simplesmente disse: "Não seja dramática, Helena. A Bárbara precisa mais de mim agora. Isso é uma emergência, a sua não é." E então, ele desligou.
Acabei chamando uma ambulância eu mesma, meus dedos trêmulos, minha visão turva. Eu estava sozinha quando os paramédicos chegaram. Sozinha quando me levaram às pressas para o pronto-socorro, me enchendo de oxigênio e medicamentos. Sozinha quando finalmente me estabilizei, fraca e aterrorizada, o fantasma de sua traição um peso frio no meu peito. Ele nunca apareceu. Nem naquela noite. Nem no dia seguinte. Ele finalmente me mandou uma mensagem dois dias depois, perguntando se eu já tinha "superado meu draminha".
"Não se preocupe, Caio", eu disse agora, minha voz pingando veneno, "eu não preciso tentar fazer você parecer que não se importa. Você faz um trabalho perfeito disso sozinho."
"Helena, você está sendo histérica!" ele gritou, me trazendo de volta ao presente. "A culpa é sua! É você que está jogando fora tudo que construímos! Você vai se arrepender! Você vai voltar implorando, eu juro por Deus que vai, e quando voltar, eu não vou te aceitar de volta! Não depois disso! Quer terminar? Ótimo! Mas não espere que eu fique esperando!"
Eu quase podia ver seu rosto, contorcido de raiva, sua mandíbula cerrada, seus olhos em chamas. Essa era sua tática de sempre. Gritar, culpar, ameaçar, e então me ver desmoronar e pedir desculpas. Mas eu não estava desmoronando. Não mais.
"Eu não vou implorar, Caio", eu disse, minha voz firme e fria. "E sabe qual é a parte engraçada? Eu não sinto absolutamente nada. Nenhum arrependimento. Nenhuma tristeza. Apenas... alívio."
Sua respiração engasgou. Ele claramente esperava uma briga, lágrimas, um apelo desesperado para que ele reconsiderasse. Não essa indiferença total.
Então, a voz açucarada de Bárbara, um sussurro que era para ser ouvido, flutuou do lado dele da chamada. "Caio, amor, não deixe ela te chatear. Ela só está descontando porque sabe que te perdeu. Ela sempre teve tanto ciúme da nossa amizade."
Revirei os olhos. A mesma ladainha de sempre. "Poupe-me, Bárbara", interrompi, minha voz afiada. "Sua atuação está ficando velha. E Caio? Antes de começar outro de seus discursos patéticos, saiba de uma coisa: estou indo aí para pegar minhas coisas. E então, acabou. Para sempre. Você e eu, somos estranhos."
Não esperei por sua resposta. Apenas desliguei. A finalidade do clique ecoou na sala silenciosa. Foi bom. Muito bom. Isso não era uma briga. Era uma execução. E eu era quem estava puxando o gatilho. A onda de raiva, a amargura, a dor – tudo estava se transformando em outra coisa. Algo limpo e resoluto. Foi o momento em que eu me escolhi. E eu sabia, com certeza absoluta, que nunca mais olharia para trás.
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