
A Última Chama Apagada
Capítulo 2
No dia do nosso terceiro aniversário de casamento, o meu marido, Pedro, enviou-me uma mensagem.
"Catarina, a Sofia tentou suicídio outra vez. Estou a caminho do hospital. Não me esperes para jantar."
Olhei para a mesa cheia de pratos que preparei durante toda a tarde.
A luz das velas tremeluzia, refletindo-se no meu rosto pálido.
Senti um aperto no peito, uma sensação familiar e sufocante.
Respondi calmamente.
"Ok."
Não perguntei porquê, nem como ela estava.
Porque eu sabia que não obteria uma resposta que quisesse ouvir.
Nos últimos três anos, o nome "Sofia" tornou-se um tabu entre nós, uma ferida que nunca cicatrizava.
Ela era a ex-namorada dele, a luz branca da lua no coração dele, a razão pela qual ele ficava acordado até tarde a beber.
E eu, era apenas a esposa dele no papel.
Desliguei o fogo debaixo da sopa, apaguei as velas uma a uma.
A sala mergulhou na escuridão, apenas a luz fraca do ecrã do telemóvel iluminava o meu rosto sem expressão.
O telemóvel vibrou novamente.
Era uma fotografia enviada por Pedro.
Na foto, Sofia estava deitada numa cama de hospital, com o rosto pálido e os pulsos enrolados em ligaduras grossas.
Pedro segurava a mão dela com força, os olhos dele cheios de uma preocupação e dor que eu nunca tinha visto.
Debaixo da foto, uma linha de texto.
"Ela precisa de mim."
O meu coração, que eu pensava já estar entorpecido, doeu de repente.
Ela precisa dele. E eu?
No dia do nosso aniversário, eu não precisava dele?
Eu também era a esposa dele.
Ri-me de mim mesma, um som seco e amargo na sala silenciosa.
Peguei no telemóvel e disquei um número.
"Advogado Martins? Sou eu, Catarina. Quero iniciar o processo de divórcio."
Do outro lado da linha, o advogado fez uma pausa.
"Tem a certeza, Sra. Catarina? Pensou bem?"
"Tenho a certeza absoluta."
A minha voz estava surpreendentemente calma.
"Por favor, prepare os documentos o mais rápido possível. Não quero mais nada dele, apenas a liberdade."
Desliguei a chamada e bloqueei o número de Pedro.
Olhei para a aliança de casamento no meu dedo.
Ele colocou-a no meu dedo há três anos, prometendo cuidar de mim para sempre.
Agora, parecia uma piada.
Tirei o anel e coloquei-o em cima da mesa, ao lado do bolo de aniversário por cortar.
Este casamento, para mim, acabou.
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