
A Última Chama Apagada
Capítulo 3
Na manhã seguinte, a luz do sol entrou pela janela, mas não trouxe qualquer calor.
Eu não dormi a noite toda.
Fiz as minhas malas, apenas com algumas roupas e os meus documentos.
As coisas que Pedro me comprou, deixei-as todas para trás.
Não queria levar nada que me lembrasse dele.
Quando estava prestes a sair, a porta abriu-se.
Pedro entrou, com o rosto cansado e barba por fazer.
Ele viu as malas aos meus pés e o seu rosto mudou.
"O que estás a fazer?"
"A ir embora."
A minha resposta foi simples e direta.
Ele franziu o sobrolho, a sua impaciência era óbvia.
"Catarina, não sejas infantil. A Sofia acabou de sair de perigo, não tenho tempo para as tuas birras."
"Birras?"
Repeti a palavra, sentindo-a ridícula.
"Pedro, estamos a divorciar-nos."
Entreguei-lhe o acordo de divórcio que o advogado tinha enviado por email durante a noite.
Ele olhou para o título do documento, e a sua expressão passou de impaciência para raiva.
"Divórcio? Estás a brincar comigo? Só porque eu não voltei para casa ontem à noite?"
Ele agarrou o meu braço, a sua força era grande.
"Sabes o quão perigosa era a situação da Sofia ontem? Ela quase morreu! E tu só consegues pensar nisto?"
A sua acusação era como uma faca afiada.
Mas eu já não sentia dor.
"E eu? Pedro, ontem era o nosso aniversário. Eu esperei por ti a noite toda."
Olhei diretamente para os olhos dele, tentando encontrar um traço de culpa.
Mas não encontrei nada.
Apenas raiva e desapontamento.
"Aniversário? É mais importante que uma vida humana? Catarina, quando te tornaste tão egoísta e insensível?"
As palavras dele fizeram-me rir.
"Eu sou insensível? Pedro, nos últimos três anos, quantas vezes saíste a correr a meio da noite por causa dela? Quantas vezes me deixaste sozinha em ocasiões importantes?"
"Isso é diferente! A condição dela é especial, ela tem depressão!"
"Então a depressão dela é uma desculpa para destruir o casamento de outra pessoa? E eu? Tenho que aguentar tudo isto porque sou saudável?"
Soltei-me da mão dele com força.
"Chega, Pedro. Estou cansada. Não quero mais viver assim."
"Catarina, não faças isto."
A voz dele suavizou um pouco, talvez percebendo a minha determinação.
"A Sofia precisa de tempo para recuperar. Depois de ela melhorar, eu prometo que vou compensar-te. Podemos ir de férias, para onde tu quiseres."
Era a mesma promessa de sempre.
Uma promessa que ele nunca cumpriu.
"Não preciso. Só quero o divórcio."
Peguei na minha mala, pronta para sair.
Ele barrou-me o caminho.
"Eu não concordo."
O seu tom era firme.
"Eu sou o teu marido, não me podes deixar."
"Marido?"
Sorri amargamente.
"Quando é que realmente me trataste como tua esposa?"
Nesse momento, o telemóvel dele tocou.
O nome "Sofia" piscou no ecrã.
Ele atendeu a chamada sem hesitar, a sua voz tornou-se instantaneamente gentil.
"Sofia? Como te sentes? Não te preocupes, estou a caminho."
Ele desligou e olhou para mim, com um ar de desculpa.
"A Sofia acordou e não me vê. Tenho de ir para o hospital. Falamos sobre isto quando eu voltar."
Ele passou por mim, apressado.
No momento em que ele abriu a porta, eu disse com uma voz fria.
"Pedro, se saíres por esta porta hoje, nunca mais voltes."
Ele parou, de costas para mim.
Depois de alguns segundos de silêncio, ele disse sem se virar.
"Não sejas assim, Catarina. Sê compreensiva."
E depois, ele saiu.
A porta fechou-se com um clique, cortando a última réstia da minha esperança.
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