
A Última Bala: O Adeus de Um Amor
Capítulo 2
A decisão foi tomada na sala fria e impessoal da Polícia Federal em Brasília. O ar condicionado zumbia, um som constante que parecia zombar do caos dentro de mim.
"Você entende, Hugo? A partir de hoje, Hugo Gordon está morto. Você será um fantasma, uma nova pessoa, com uma nova história."
O delegado colocou sobre a mesa uma carteira de identidade policial. O número era familiar, uma herança dolorosa. Era o número do meu pai.
"Sim, senhor. Eu entendo."
Minha voz saiu firme, mas minhas mãos, escondidas sob a mesa, tremiam. Para desmantelar o cartel que assassinou meu pai, eu precisava morrer. E para morrer, eu precisava primeiro matar a única coisa que me mantinha vivo: meu amor por Raina Hayes.
Três anos depois.
O som da porta do apartamento de luxo em São Paulo se abrindo me fez encolher. Eu estava na cozinha, lavando a louça do jantar que preparei para um.
Raina entrou, o cheiro do seu perfume caro misturado com o de outro homem. Ela não estava sozinha.
Ela me viu e um sorriso cruel curvou seus lábios perfeitos.
"Hugo, querido", ela disse, a voz pingando sarcasmo. "Seja um bom menino e prepare um café para o nosso convidado."
O homem ao seu lado, um estranho com traços vagamente parecidos com os meus, me olhou com uma mistura de pena e desprezo. Era sempre assim. Raina fazia questão de trazer para casa homens que se pareciam comigo, uma tortura silenciosa e constante.
Eu assenti, sem dizer uma palavra. Peguei o pó de café, minhas mãos se movendo no automático.
Raina se aproximou, sua presença preenchendo a cozinha. Ela abriu a carteira, tirou um maço de notas de cem reais e jogou sobre o balcão.
"Para você. Pelo seu bom comportamento."
A humilhação queimou meu rosto, mas eu mantive a expressão neutra. Peguei o dinheiro. Eu dependia dela para tudo. Essa era a minha realidade agora. O homem que um dia teve um futuro brilhante, agora vivia da caridade da mulher que ele amava e que o odiava.
Mas esta noite foi diferente. Quando me virei para servir o café, meu mundo parou.
O "convidado" que Raina trouxera para casa não era um estranho.
Era Conrad Perry. Meu melhor amigo da universidade. A única pessoa no mundo, além dos meus superiores, que sabia a verdade sobre a minha "morte".
O choque me paralisou. A bandeja de café tremeu em minhas mãos.
Conrad me olhou, e em seus olhos eu não vi surpresa. Vi um triunfo frio e calculado. Ele sabia. Ele planejou isso.
Minha mente voltou no tempo, para uma noite chuvosa, três anos atrás. Eu e Raina, encharcados, rindo debaixo do toldo de uma loja fechada. Éramos jovens, apaixonados e pobres.
"Um dia, Hugo," ela disse, me entregando um pequeno medalhão de prata barata, "vamos ter tudo. Mas isso," ela apontou para o medalhão, "será a prova de que já tínhamos tudo o que importava."
A lembrança foi interrompida pela voz dela, afiada como vidro quebrado.
"O que você está esperando, Hugo? O café vai esfriar."
Eu servi o café, minhas mãos como chumbo. A traição de Conrad era uma ferida muito mais profunda do que qualquer humilhação que Raina pudesse me infligir.
Mais tarde, quando o amante dela foi embora, a verdade sobre o passado de Raina veio à tona em minha mente. Depois que eu a deixei, com a desculpa cruel de que tinha encontrado uma herdeira mais rica, ela não apenas se reergueu. Ela desmoronou.
Uma crise de saúde devastadora, uma doença rara que exigia um transplante de medula óssea urgente. Eu fui o doador. Anônimo. Secreto. Um último ato de amor antes de desaparecer.
Mas foi essa crise que a transformou. Movida pela dor, pelo abandono e por uma sede de vingança insaciável, Raina Hayes se tornou uma magnata do mercado imobiliário. Uma das mulheres mais poderosas do Brasil. E seu principal alvo era eu.
Eu aceitei a missão para vingar meu pai, mas também para proteger Raina. O cartel era impiedoso. Se soubessem da nossa ligação, ela seria a primeira a morrer.
Minha família já havia sido destruída. Os homens do cartel não apenas mataram meu pai; eles fizeram parecer um acidente, e minha mãe e irmã, incapazes de lidar com a "verdade", morreram em um acidente de carro real meses depois, fugindo da dor. Eu estava sozinho.
Raina não sabia de nada disso. Para ela, eu era um alpinista social, um traidor. E eu precisava que ela continuasse acreditando nisso.
"Por que você fez isso, Conrad?" perguntei a ele em um sussurro, quando Raina foi ao quarto.
Ele sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos.
"Porque eu a amo, Hugo. E você a jogou fora."
A resignação tomou conta de mim. Eu não podia revelar a verdade. Minha missão, a memória do meu pai, a segurança de Raina... tudo dependia do meu silêncio. Eu era o vilão da história dela, e precisava continuar sendo.
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