
A Última Bala: O Adeus de Um Amor
Capítulo 3
A humilhação se tornou rotina. Todas as noites, Raina trazia um homem diferente para casa. E todas as manhãs, eu limpava os vestígios da noite anterior, o cheiro de outro homem no nosso quarto, as taças de vinho vazias na sala.
Eu me tornei uma sombra, um fantasma em minha própria vida. Minha existência era um lembrete constante da sua dor e do seu poder sobre mim.
Uma noite, eu não consegui dormir. Os sons do quarto ao lado eram altos demais, os gemidos de Raina, fingidos ou reais, ecoavam em minha cabeça. Eu me levantei e fui para a varanda, o ar frio da noite de São Paulo um alívio para a minha pele febril.
Lá embaixo, a cidade brilhava, indiferente ao meu sofrimento. Eu era um prisioneiro em uma gaiola de ouro, e a chave estava nas mãos da mulher que eu amava e que se deliciava em me torturar.
Na manhã seguinte, acordei no sofá com o som de atividade na casa. Empregados corriam para lá e para cá, arrumando flores, preparando comida.
Raina desceu as escadas, deslumbrante em um vestido de seda. Ela me ignorou, como sempre.
"O que está acontecendo?" perguntei a uma das empregadas.
"A Sra. Hayes está dando uma festa esta noite," ela respondeu, sem me olhar nos olhos. "Em homenagem ao Sr. Perry."
Meu estômago se revirou. Uma festa. Para Conrad. A ironia era tão cruel que quase me fez rir.
A noite chegou, e o apartamento se encheu de gente rica e poderosa. Eu fui relegado a um canto, servindo bebidas, invisível.
Raina e Conrad eram o centro das atenções. Eles riam, se beijavam, uma exibição pública de afeto que era uma faca em meu peito. Ele a segurava pela cintura, sussurrava em seu ouvido, e ela olhava para ele com uma adoração que um dia fora minha.
Ouvi os sussurros ao meu redor.
"Coitado do Hugo. Olhe para ele."
"Ela o mantém por perto só para humilhá-lo."
"Eu ouvi dizer que ele não tem um centavo. Vive do dinheiro dela."
A vergonha era um manto pesado sobre meus ombros. Eu queria desaparecer, mas não havia para onde ir.
Mais tarde, encontrei Conrad sozinho na biblioteca. A porta se fechou atrás de mim, o som abafado da festa desaparecendo.
"Você está se divertindo?" perguntei, minha voz baixa e tensa.
"Mais do que você pode imaginar," ele respondeu, virando-se para mim. "Eu a amo, Hugo. Sempre amei. Desde a universidade."
A confissão me atingiu como um soco. Conrad, meu amigo, meu irmão.
"Você não tem ideia do que ela passou depois que você a deixou," ele continuou, a voz cheia de uma raiva contida. "Eu a vi definhar. Eu a vi quase morrer. Eu estava lá."
Ele se aproximou, seus olhos brilhando com uma intensidade febril.
"Ela guardava uma foto sua na carteira, mesmo no hospital. Ela chorava seu nome enquanto dormia. Você a quebrou, Hugo."
A culpa me sufocou. Eu sabia. Eu sabia de tudo. Eu acompanhei cada passo da sua recuperação de longe, através dos relatórios que meus contatos na polícia me forneciam.
"E eu a salvei," disse Conrad, e a peça final do quebra-cabeça se encaixou. "Eu disse a ela que fui eu. O doador anônimo. Eu salvei a vida dela."
O ar saiu dos meus pulmões. A mentira era monstruosa, uma profanação do meu sacrifício.
"Eu preciso que você desapareça, Hugo," ele disse, sua voz agora um sussurro perigoso. "Ela nunca vai me amar de verdade enquanto você estiver por perto. Você é uma sombra entre nós."
"E o que você espera que eu faça?" perguntei, a voz rouca.
"Eu preciso que você a machuque. Mais uma vez. Para que ela o odeie para sempre."
Antes que eu pudesse reagir, ele agarrou meu braço. Seus olhos estavam selvagens.
"Faça isso, ou eu conto a ela a verdade. Conto que você é um agente federal, que sua família está morta, e o cartel virá atrás dela. A escolha é sua."
Ele não me deu tempo para responder. Com um grito, Conrad se jogou para trás, batendo com força contra uma estante de vidro. O som de vidro quebrando ecoou pela sala, seguido pelo grito dele.
A porta se abriu com um estrondo. Raina estava lá, seus olhos arregalados de horror. Ela olhou para o corpo de Conrad no chão, sangrando, e depois para mim, parado no meio da sala, paralisado.
A cena foi perfeitamente montada. Eu era o agressor. Ele, a vítima. E nos olhos de Raina, vi o ódio final e absoluto que Conrad tanto desejava.
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