
A Traição Que Libertou Sofia
Capítulo 2
A porta do quarto bateu com uma força que fez o espelho na parede tremer.
"Sofia, você tá maluca? Abre essa porta agora!"
A voz de Marcos, do outro lado, estava cheia de raiva. Uma raiva que eu conhecia bem. Mas desta vez, algo estava diferente.
Eu não estava com medo. Estava com nojo.
Meu celular ainda estava na minha mão, aberto na conversa que eu não deveria ter visto. A tela iluminava as lágrimas silenciosas que escorriam pelo meu rosto.
Fotos. Mensagens. Planos. Tudo com ela. Jéssica.
Minha melhor amiga.
De repente, palavras estranhas começaram a piscar na minha frente, flutuando no ar como poeira iluminada pelo sol. Eram transparentes, em um tom azul claro.
[Finalmente! A protagonista descobriu a traição!]
[Essa cena é clássica. Agora começa o drama do perdão. Que preguiça.]
[Foge, Sofia! Esse cara não presta!]
Pisquei, esfregando os olhos com força. As palavras não sumiram. Elas apenas tremeram um pouco e se reorganizaram.
Eu estava ficando louca? Era o choque?
"Sofia, eu vou arrombar essa porta! Você tá me ouvindo?"
A maçaneta girou violentamente. Ele estava forçando a fechadura.
[Ele vai entrar e começar o show de vitimismo. "Ela me seduziu, eu não queria" . Aposto cinquenta.]
[Cem que ele vai culpar a Sofia por não dar atenção suficiente pra ele.]
[Eu já vi essa história. Ela vai perdoar, e ele vai trair de novo. Livro chato.]
As palavras flutuantes... elas sabiam. Elas sabiam o que ia acontecer. Era como se estivessem assistindo a um filme. Um filme da minha vida.
Um frio percorreu minha espinha. Não era loucura. Era uma informação. Uma ajuda bizarra e inexplicável.
Ignorei os baques na porta. Respirei fundo, sequei as lágrimas com as costas da mão e caminhei até o guarda-roupa.
Peguei a primeira mochila que vi.
Joguei dentro algumas camisetas, calças, roupas íntimas. O carregador do celular. Minha carteira.
"É isso, Sofia? Vai fugir como uma criança?" , ele gritou, a voz distorcida pela madeira.
[Ação! Ela tá fazendo alguma coisa!]
[Isso! Não fica aí chorando. Pega suas coisas e some!]
As palavras flutuantes pareciam estar torcendo por mim. Era a única torcida que eu tinha naquele momento.
Abri a porta de repente.
Marcos quase caiu para dentro do quarto. Ele me olhou, surpreso, depois olhou para a mochila nas minhas costas. Sua expressão mudou de raiva para um desprezo calculado.
"O que é isso? Um teatrinho? Acha que eu vou implorar pra você ficar?"
Ele cruzou os braços, encostando-se no batente da porta, como se fosse o dono da situação.
"Você vai guardar essa mochila, e nós vamos conversar como adultos. Você entendeu tudo errado."
Sua calma era a coisa mais assustadora. A calma de quem já tinha feito aquilo antes. De quem tinha um roteiro pronto.
[Aí vem. O gaslighting de manual.]
[ "Você entendeu tudo errado" = "Você entendeu tudo certo, mas eu não vou admitir" .]
Eu apenas o encarei. Meu silêncio o desarmou mais do que qualquer grito.
"O que foi? O gato comeu sua língua?" , ele zombou. "Vai, fala alguma coisa. Grita. Chora. Faz o seu show."
"Acabou, Marcos" , eu disse. Minha voz saiu firme. Mais firme do que eu esperava.
Ele riu. Uma risada curta, sem humor.
"Acabou? Sofia, a gente não 'acaba' . Nós temos uma vida juntos. Um apartamento. Planos. Você tá tendo um ataque de histeria por causa de umas mensagens idiotas."
"Mensagens idiotas? As fotos no hotel também eram idiotas? Os planos de viajar com ela nas minhas férias?"
O sorriso dele vacilou.
"Ela é sua melhor amiga, Sofia. Estávamos planejando uma surpresa pra você."
A mentira era tão descarada, tão insultuosa, que por um momento eu quis rir também.
[Que mentiroso patético! Surpresa? Sério?]
[Ele nem se esforça pra inventar uma desculpa boa.]
[Sofia, por favor, não caia nessa.]
"Eu não vou ficar" , eu repeti, e tentei passar por ele.
Ele segurou meu braço. Com força.
"Você não vai a lugar nenhum. Essa é a minha casa."
"O aluguel está no nome dos dois" , eu disse, puxando meu braço. "E estou saindo da minha metade."
A raiva voltou aos olhos dele, pura e sem disfarces.
"Você vai se arrepender disso, sua vadia ingrata. Depois de tudo que eu fiz por você!"
"Tudo o que você fez por mim?" , eu questionei, e o som da minha própria risada amarga encheu o corredor. "Você quer dizer mentir? Me enganar? Com a minha melhor amiga?"
A imagem de dois anos atrás veio à minha mente, nítida como uma foto.
Nós tínhamos acabado de nos mudar para este apartamento. As caixas estavam por toda parte. Estávamos cansados, cobertos de poeira, mas felizes.
Pedimos pizza e sentamos no chão da sala vazia, usando uma caixa como mesa.
Ele me abraçou por trás e sussurrou no meu ouvido: "É o nosso começo, meu amor. Daqui pra frente, vai ser sempre a gente contra o mundo."
Naquele momento, eu acreditei nele. Acreditei com cada fibra do meu ser. Aquele Marcos, sorrindo com molho de tomate no canto da boca, parecia incapaz de qualquer maldade.
A lembrança me atingiu com força. A dor daquele momento feliz, agora contaminado, era pior do que a raiva.
Ele não era o homem com quem eu sentei no chão para comer pizza. Ele era um estranho que usava o rosto dele.
[O flashback da dor. Clássico.]
[Isso é pra fazer a gente sentir pena dela. Mas a gente sente é raiva dele.]
[Essa memória agora tá estragada pra sempre. Que desgraçado.]
As palavras flutuantes, de alguma forma, me ancoravam na realidade. Elas verbalizavam o caos dentro de mim.
Uma nova leva de comentários apareceu, mais densa.
[Para quem chegou agora: essa é a história da "Doce Sofia" . Ela é a típica protagonista boazinha que sempre é enganada. O roteiro original diz que ela perdoa o Marcos, ele promete mudar, e eles ficam nesse ciclo por mais 50 capítulos.]
[Até que ele a trai com a própria irmã dela e rouba a herança da família.]
[Mas parece que algo bugou. A protagonista tá agindo diferente.]
[Ela tá vendo a gente? Ela tá nos lendo?]
Eu estava. E estava entendendo. Eu não era louca. Eu era uma personagem. Uma personagem em um roteiro de merda, destinada a sofrer para o entretenimento de... seja lá quem eles fossem.
E a traição com a Jéssica era só o começo.
Tudo começou uma hora atrás. Marcos estava no banho, e o celular dele, que nunca saía do lado dele, estava na mesa de cabeceira. Ele sempre o deixava com a tela virada para baixo. Um hábito que começou há uns seis meses.
Eu nunca tive o impulso de olhar. Confiança, eu dizia a mim mesma.
Mas hoje, o celular vibrou sem parar. Uma, duas, dez vezes. A tela se acendeu, e o nome "Jéssica" apareceu.
"Amor, já falou com ela?"
"Esquece ela. Só quero você."
"Quando vamos contar?"
"Ele já tá no banho?"
Minhas mãos tremeram quando peguei o aparelho. A senha era o aniversário dele. Não. Tentei o meu aniversário. Abriu.
A galeria de fotos estava cheia de imagens deles. Jantares. Cinema. Um fim de semana em um hotel fazenda que ele me disse que foi uma "viagem de trabalho" .
Neles, Jéssica usava um colar. Um colar que eu dei a ela de aniversário.
O ar sumiu dos meus pulmões. Fui rolando as mensagens, cada palavra me afundando mais e mais.
Eles não estavam apenas tendo um caso. Eles estavam planejando um futuro. Falavam sobre como eu era ingênua, carente, fácil de manipular. Riam de mim.
O som do chuveiro parou. Eu larguei o celular na cama como se queimasse e corri para o quarto de hóspedes, trancando a porta.
Foi quando os gritos começaram. E as palavras flutuantes apareceram.
Agora, de pé no corredor, eu o olhava sem uma única lágrima. A dor tinha se transformado em uma pedra de gelo no meu peito.
Meu único objetivo era sair dali.
Com o Milo.
Meu gato. Onde estava o Milo?
Meu coração gelou.
"Onde está o Milo?" , perguntei, a voz subitamente urgente.
Marcos deu de ombros, um gesto cruel de indiferença.
"Sei lá. Por aí. Talvez a sua amiguinha Jéssica saiba. Ela adora brincar com ele."
O jeito que ele disse "brincar" me deu um calafrio.
Eu me virei e fui em direção à porta da frente, ignorando os protestos e insultos dele. A mão na maçaneta, eu parei.
Eu não podia ir sem o Milo.
Com a determinação renovada, eu me virei, passei por Marcos como se ele fosse um poste e comecei a procurar meu gato, chamando seu nome.
Minha liberdade teria que esperar alguns minutos. Mas eu não iria a lugar nenhum sem a única criatura naquela casa que realmente me amava.
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