
A Traição Que Libertou Sofia
Capítulo 3
O desespero começou a subir pela minha garganta.
"Milo! Cadê você, meu filho?"
Minha voz ecoou pelo apartamento silencioso e hostil.
Marcos tinha saído, batendo a porta com força. Provavelmente para se encontrar com Jéssica e planejar a próxima mentira.
Eu olhei debaixo do sofá, atrás das cortinas, dentro do meu próprio guarda-roupa. Nada.
Então, eu o vi.
Ele estava no parapeito da janela da cozinha. A janela estava escancarada.
Morávamos no décimo andar.
Milo estava encolhido, o pelo preto eriçado, olhando para o vazio lá embaixo. Um vento forte balançou seu corpo pequeno.
Meu coração parou.
"Milo, não se mexe. A mamãe tá aqui."
Minha voz era um sussurro trêmulo. Eu comecei a andar lentamente em sua direção, com as mãos estendidas.
[NÃO! NÃO SE APROXIME! ELE VAI SE ASSUSTAR!]
As palavras azuis piscaram com urgência na minha frente.
[Se você for direto, ele pode pular! Gatos se assustam fácil em parapeitos!]
[Ela deixou a janela aberta de propósito! A Jéssica fez isso!]
Parei imediatamente, o corpo rígido de pavor. Eles estavam certos. Um movimento em falso e seria o fim.
As lágrimas que eu segurei antes agora ameaçavam transbordar. Eu não podia perdê-lo. Ele era minha família.
"O que eu faço?" , sussurrei para o ar, para as palavras flutuantes. "Me ajudem."
[Distração! Você precisa de uma distração!]
[Jogue algo barulhento no chão, longe da janela, no canto oposto da cozinha.]
[Isso o fará olhar para trás, para dentro. E te dará uma chance de fechar a janela.]
Olhei ao redor. A cozinha estava impecavelmente limpa. Jéssica provavelmente tinha feito uma "limpeza" para o Marcos.
Meu olhar caiu sobre um vaso de metal na bancada. Era pesado. Perfeito.
Respirei fundo, mirando no canto mais distante da cozinha.
[Espere! Pergunte se a porta da frente está trancada!]
[Boa! Se o Marcos voltar, você tá ferrada!]
Meu coração martelava. Eu não tinha tempo de ir até a porta.
"A porta está trancada?" , perguntei em voz alta, me sentindo uma idiota.
[NÃO! ELE SAIU COM TANTA RAIVA QUE BATEU A PORTA, MAS NÃO TRANCOU!]
[Ele e a Jéssica estão na cafeteria da esquina. Vimos pela "Câmera do Vizinho" .]
[Você tem uns 10 minutos, talvez menos.]
Ok. Dez minutos.
Com uma mão trêmula, peguei o vaso de metal. Com toda a minha força, eu o arremessei contra o chão de azulejos no outro lado da cozinha.
O barulho foi ensurdecedor.
Milo deu um pulo, virando-se para o som com os olhos arregalados. Ele se achatou no parapeito, mas agora estava virado para dentro.
Era a minha chance.
Num movimento rápido, me lancei para a frente. Minha mão agarrou o puxador da janela e a fechou com um estrondo.
O corpo de Milo pulou do parapeito para o chão da cozinha, assustado com o barulho da janela batendo. Ele correu e se escondeu debaixo da mesa.
Eu deslizei pela parede até o chão, o corpo inteiro tremendo. A adrenalina me deixou fraca. Por um segundo, a imagem do meu gato caindo ecoou na minha mente.
Eu fechei os olhos, respirando fundo.
"Acabou. Ele tá seguro."
Rastejei até debaixo da mesa. Milo estava encolhido em um canto, tremendo.
"Oi, meu amor" , eu sussurrei. "Tá tudo bem agora. A mamãe tá aqui."
Estendi a mão lentamente. Ele cheirou meus dedos e então esfregou a cabeça na minha mão, ronronando baixinho.
Eu o puxei para o meu colo, abraçando seu corpo pequeno e quente. Enterrei meu rosto em seu pelo macio e finalmente chorei.
Chorei pela traição, pela mentira, pelo perigo que meu gato correu. Chorei pela vida que eu achei que tinha e que se desfez em uma hora.
O ronronar dele era a única coisa real naquele momento.
O som da porta se abrindo me fez congelar.
Marcos e Jéssica entraram, rindo de alguma piada. Meu coração endureceu.
Eu saí de debaixo da mesa com Milo nos braços.
"O que foi isso? Que barulho foi esse?" , perguntou Marcos, o sorriso sumindo do seu rosto ao me ver.
Jéssica me olhou, e pela primeira vez, vi um brilho de triunfo em seus olhos antes que ela o escondesse atrás de uma máscara de preocupação.
"Sofia! Você ainda está aqui! Ficamos preocupados" , ela disse, com sua voz doce e falsa. "O que aconteceu? Você está bem?"
Ela se aproximou como se fosse me abraçar.
Eu dei um passo para trás, apertando Milo contra o peito.
"A janela da cozinha estava aberta" , eu disse, olhando diretamente para ela.
A cor sumiu do rosto de Jéssica.
"Aberta? Ai, meu Deus! Deve ter sido o vento. Essa janela tem um trinco ruim" , ela mentiu, colocando a mão no peito em um gesto dramático. "O Milo... ele está bem?"
Marcos olhou da janela fechada para o vaso amassado no chão e depois para mim.
"Você está acusando a Jéssica? Você enlouqueceu de vez?" , ele disse, a voz subindo de tom. "Ela veio aqui pra te ajudar, pra conversar com você!"
"Ajudar?" , repeti.
"Sim! Ajudar! Ela está preocupada com sua saúde mental, Sofia! Esse seu ciúme está doentio!"
Eu olhei para Marcos. O homem que eu amei. O homem que prometeu ficar do meu lado.
Ele não estava me defendendo. Ele não estava preocupado com o nosso gato.
Sua prioridade era proteger Jéssica. Proteger a nova vida deles.
Naquele momento, eu soube. Não havia nada para salvar. Nenhuma conversa a ser tida.
A imagem do Marcos que comia pizza no chão comigo se dissolveu completamente. Em seu lugar, estava um estranho. Um inimigo.
Eu não sentia mais tristeza. Não sentia mais o coração partido.
Eu sentia uma clareza fria e cortante.
O amor tinha morrido. E no seu lugar, algo muito mais forte estava nascendo.
A vontade de lutar.
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