
A Traição do Cirurgião: A Vingança de uma Esposa
Capítulo 3
Sair do cemitério foi como trocar de pele. Uma pele pesada e dolorosa. Mas o alívio foi passageiro. A realidade, fria e cortante, esperava do lado de fora dos portões de ferro forjado. Eu precisava de um emprego. Minha vida antiga, a startup de tecnologia na qual eu havia derramado minha alma, era uma memória distante. Mas meu currículo, mesmo com três anos de idade, ainda tinha peso. Minhas conquistas passadas eram inegáveis.
Enviei candidaturas, uma enxurrada de e-mails de um computador de biblioteca pública. Em poucos dias, as ofertas começaram a chegar. Diretora de marketing, líder de projeto, consultora. Meu cérebro, antes entorpecido pela medicação, estava começando a zumbir novamente, afiado e claro. Uma frágil sensação de esperança floresceu em meu peito. Talvez, apenas talvez, eu pudesse reconstruir.
Aceitei uma oferta, uma boa, e uma lasca de paz se instalou sobre mim. Parecia uma pequena vitória. Uma pequena e desafiadora centelha contra a vasta escuridão que Artur havia lançado sobre minha vida. Permiti-me um momento para imaginar um futuro onde eu não estivesse constantemente olhando por cima do ombro, um futuro onde eu pudesse esculpir meu próprio espaço.
No dia seguinte, me vi passando pela minha antiga casa. Ou melhor, nossa antiga casa. A que Artur e eu havíamos compartilhado. A que Helena, minha mãe, nos ajudou a comprar. Estava recém-pintada, um azul vibrante que agredia meus olhos. Cortinas novas pendiam nas janelas. Outra pessoa morava lá agora. Outra pessoa ria na cozinha, dormia em nossa cama, construía memórias sobre as fundações da minha vida estilhaçada.
Uma onda de náusea me atingiu. Lembrei-me de cinco anos atrás, quando a carreira de Artur estava apenas decolando. Ele precisava de capital para um ensaio clínico de cirurgia inovador, algo que poderia revolucionar o tratamento cardíaco. Ele era brilhante, todos diziam. Mas o brilhantismo, naquela época, não pagava por pesquisas de milhões de reais.
Minha mãe, Helena, vendeu sua amada casa de praia em Ubatuba, o lugar onde viveu a vida inteira. Cada centavo da venda, todas as suas economias de uma vida, ela investiu na fundação de Artur. "Para o Artur", ela disse, seus olhos brilhando de orgulho. "Ele vai mudar o mundo, Alana. Precisamos ajudá-lo."
Então, menos de um ano depois, Artur foi diagnosticado com uma doença renal rara e agressiva. Sua carreira brilhante, seu futuro, estavam por um fio. Os médicos disseram que ele precisava de um transplante, rápido. Não havia doadores compatíveis. Ninguém.
Até que Helena se ofereceu. "Pegue o meu", ela disse a ele, sua voz firme, inabalável. "Eu sou mais velha. Ele tem muito mais a oferecer." Ela não hesitou. Nem por um segundo. Ela lhe deu seu rim. Sua vida.
E eu? Eu vendi minha empresa de tecnologia, aquela que construí do zero, aquela que estava prestes a abrir capital. Liquidei cada ativo, cada ação, cada centavo. Despejei tudo em suas contas médicas, sua recuperação, sua nova e acelerada pesquisa. Nosso dinheiro. O dinheiro da minha mãe. O meu dinheiro. Tudo para Artur Mason.
Ele melhorou. Ele prosperou. Ele se tornou o cirurgião de renome mundial que todos previam, aclamado como um gênio, um milagreiro. Seu nome estava em toda parte.
E quanto a nós? Minha mãe. Minha empresa. Minha vida. Tudo o que eu tinha, tudo o que ela tinha, nós demos a ele. Para isso? Para o memorial de uma cachorra? Para uma mulher que agora morava na minha casa, talvez até dormindo na minha cama?
A ironia pura e brutal de tudo aquilo fez meu estômago revirar. Tropecei, apoiando-me em um poste de luz, a casa azul vibrante zombando de mim.
Mais tarde naquela noite, encolhida em uma cama irregular em um motel barato, o silêncio do quarto era pontuado apenas pelo zumbido distante do tráfego. Assim que eu estava caindo em um sono agitado, meu telefone vibrou. Uma vez. Duas vezes. Depois, uma cascata interminável de notificações.
Meus olhos se abriram. O pavor se enrolou em minhas entranhas. Procurei o aparelho, minhas mãos úmidas. A tela se acendeu, um ataque ofuscante de vermelho e preto. Era Bianca. Claro que era Bianca.
Um vídeo. Seu rosto, manchado de lágrimas, dominava a tela. Ela estava chorando, soluçando para a câmera, sua persona perfeita de mídia social em pedaços. "Minha Princesa Fofolete", ela engasgou entre os soluços. "Alguém... alguém profanou o túmulo dela. Minha pobre bebê... ela se foi... e agora isso..." Ela mostrou uma foto borrada da urna quebrada e da lápide partida. Minha foto.
A seção de comentários explodiu. Uma torrente de veneno, um tsunami de ódio. "Crueldade animal!" "Psicopata!" "Encontrem ela!" Em minutos, meu nome, minha antiga empresa, meu breve período na clínica psiquiátrica, tudo foi desenterrado. Meu passado, transformado em arma contra mim.
*Nojento! Quem faria uma coisa dessas?*
*Essa é a Alana Hunt, a ex-CEO maluca! Ela foi internada por um motivo!*
*A Bianca é tão forte por compartilhar isso. Essa mulher precisa voltar para um quarto acolchoado!*
Minhas mãos tremiam, o telefone quase escorregando do meu aperto. A tela, viva com palavras cintilantes, tornou-se uma janela para minha própria execução pública.
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