
A Traição do Amor: A Filha Oculta
Capítulo 2
Os olhos aguçados da minha mãe captaram algo brilhando no meu pescoço. Era o meu medalhão. Um coraçãozinho prateado vagabundo que comprei de um camelô na 25 de Março por vinte reais.
Ela o alcançou. Por um momento louco e impossível, pensei que ela o reconheceria.
"Não use essa porcaria, Larissa", meu pai tinha zombado no mês passado, na mesa de jantar. "Isso te deixa com cara de pobre. Faz esta família parecer pobre."
Eu o apertei na mão, o metal frio contra a minha pele.
"Eu gosto dele", eu sussurrei.
"Você gosta?", ele debochou. "E o que isso importa? Quando você vai começar a pensar em como suas ações refletem em nós?"
Agora, eu via minha mãe segurar o medalhão entre os dedos enluvados. Eu rezei. *Veja. Lembre-se. Lembre-se de mim.*
Ela o estudou por um segundo, a testa franzida. Então sua expressão ficou vazia novamente. Ela se virou para um policial próximo.
"Embale isso. Pode ter as digitais do assassino."
Ela o deixou cair no pequeno saco plástico que o policial segurava. Meu coração, aquele que não batia mais, se partiu. Era apenas uma evidência. Eu era apenas uma evidência.
O som de outra porta de carro batendo cortou o ar. Meu pai. O Promotor de Justiça Caio Oliveira. Ele entrou na cena do crime, o maxilar travado, seus olhos varrendo a multidão de policiais. Ele parecia poderoso, furioso. Aquele assassinato era uma mancha em sua cidade, uma complicação em uma semana agitada.
Ele viu Diana e se aproximou, o rosto sombrio. "Que bagunça. Alguma ideia de quem ela é?"
"Ainda não", disse Diana, a voz baixa. "Sem identificação. O rosto está... bem, vamos precisar da arcada dentária."
Caio praguejou baixinho. "Essa é a última coisa que eu precisava agora. A imprensa vai fazer a festa. 'Assassinato Brutal de Jovem na Cidade do Promotor'."
Ele passou a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. Já estava pensando na narrativa, na percepção pública.
Eu era um fantasma, e eles estavam parados sobre meu cadáver, reclamando de suas próprias vidas.
"Além de tudo", meu pai continuou, a voz carregada de irritação, "a Larissa sumiu do mapa de novo. Ela te ligou?"
Minha mãe suspirou, um som de pura exaustão. "Não. Tentei ligar para o celular dela uma dúzia de vezes. Cai direto na caixa postal. A Carolina ligou hoje de manhã, histérica. Acha que algo aconteceu."
"Algo aconteceu?", Caio riu, um som amargo e sem humor. "Sempre 'acontece' algo com a Larissa. Ela só está fazendo drama. Provavelmente se enfiou na casa de algum Zé Ninguém pra nos provocar por a termos deixado de castigo. Ela vai voltar rastejando quando precisar de dinheiro."
Eles não sabiam. Não podiam saber. Estavam falando de mim, a filha desaparecida deles, enquanto meu corpo se decompunha a seus pés. A ironia era tão densa, tão cruel, que parecia um peso físico.
Eu não estava "fora do mapa". Eu não estava fazendo drama.
Eu estava bem aqui.
Havia dois dias.
Um homem de terno se aproximou deles. O Juiz Artur Mendes, um amigo próximo da família. Seu rosto, geralmente jovial, estava sombrio.
"Caio, Diana. Isso é horrível." Ele olhou de seus rostos estressados para o lençol que agora cobria meu corpo. "Ouvi no rádio da polícia. Sabemos de alguma coisa?"
"Nada", disse Caio, a voz tensa. "Apenas mais uma tragédia. Alguma pobre família está prestes a receber a pior notícia de suas vidas."
Ele balançou a cabeça, uma performance de simpatia para as câmeras que logo chegariam.
O olhar de Artur suavizou ao olhar para Diana. "Você parece exausta. Está tudo bem em casa?" Ele conhecia as tensões da nossa família. Tinha visto em primeira mão o favoritismo do meu pai e a frieza da minha mãe.
"É só a Larissa", disse Diana, agitando uma mão desdenhosa. "Ela fugiu. De novo. Bem antes da final do João Victor, claro. Ela sempre tem que fazer tudo ser sobre ela."
Eu queria gritar. Queria uivar até que a força da minha dor pudesse sacudi-los.
Nunca foi sobre mim. Não de verdade. Sempre foi sobre o João Victor.
João Victor, o garoto de ouro, o filho adotivo que preencheu perfeitamente o espaço que eu deixei para trás quando me perdi na infância. Quando me encontraram anos depois, aquele espaço já estava ocupado. Eu voltei para um lar que não era mais meu. Eu era um fantasma na casa deles muito antes de me tornar um de verdade.
"Desculpe, Caio", sussurrei ao vento, mas as palavras se perderam. "Eu não posso voltar para casa."
Não desta vez.
Nunca mais.
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