
A Traição Dele, Meu Retorno com Pernas de Aço
Capítulo 2
Ponto de Vista: Helena
A consciência retornou não como um amanhecer suave, mas como um rastejar lento e agonizante através de uma névoa de dor. Por um momento abençoado, pensei que era um pesadelo. Um sonho horrível e vívido. Tentei mexer os dedos dos pés, um pequeno teste secreto que eu fazia desde criança para provar que estava acordada. Meus dedos do pé esquerdo se mexeram. O direito... nada. Apenas um eco surdo e oco.
O cheiro me atingiu em seguida. Antisséptico e água sanitária. Um hospital.
Forcei meus olhos a se abrirem. O mundo nadou em um foco embaçado de paredes brancas e máquinas zumbindo. Eu estava em um quarto particular. A luz do sol entrava por uma grande janela, iluminando partículas de poeira dançando no ar.
Meu olhar desceu pelo meu corpo, sob o lençol branco e engomado. Minha perna esquerda estava apoiada em um travesseiro. Minha perna direita estava envolta em uma monstruosa estrutura de pinos e hastes de metal, uma peça brutal de arquitetura segurando o que restava do meu osso estilhaçado.
Laura.
O pensamento foi um choque de eletricidade, limpando a névoa em um instante. Onde ela estava? Ela estava segura?
Procurei o botão de chamada, minhas mãos desajeitadas e fracas. Nada estava onde deveria estar. Minha bolsa havia sumido, meu celular era uma memória de vidro quebrado em um chão de cimento.
Então ouvi vozes do corredor, do lado de fora da minha porta entreaberta. Sussurros suaves e conspiratórios.
"A mamãe ainda vai conseguir andar?"
Era a voz da Laura. Meu coração se apertou no peito, um nó de alívio puro e primitivo. Ela estava segura. Ela estava aqui.
Então a voz de Eugênio, baixa e calmante. "Os médicos disseram que foi uma fratura muito feia, querida. Vai levar muito tempo para sarar. Era o único jeito. Você entende isso, certo? Ela ia nos deixar. Ela ia te levar para longe de mim."
Meu sangue gelou. O único jeito? O que ele queria dizer?
"Ela vai ficar em uma cadeira de rodas?", Laura perguntou, sua voz pequena.
"Por um tempo, provavelmente", respondeu Eugênio. "Mas é para o melhor. Agora ela não pode ir embora. Podemos todos ser uma família de novo. Com a Brenda."
O nome caiu como um golpe físico.
"Eu fiquei com tanto medo, papai", sussurrou Laura. "Quando aqueles homens fingiram me pegar no parque. Pareceu de verdade."
"Você foi muito corajosa", disse Eugênio, sua voz cheia de orgulho. "Você fez exatamente o que ensaiamos. Fez a mamãe acreditar que você estava em perigo para que ela fosse ao galpão. Você foi a estrela do espetáculo."
Uma estrela. Minha filha foi a estrela de um espetáculo projetado para me aleijar.
"Tudo bem", disse Laura, sua voz se iluminando, o medo infantil evaporando em algo assustadoramente casual. "Eu gosto mais da Brenda mesmo. Ela é mais bonita que a mamãe. E ela me deixa comer todos os doces que eu quero. A mamãe nunca me deixa comer doces."
Um soluço seco e silencioso subiu pela minha garganta, mas nenhum som saiu. Meu corpo estava paralisado, mas minha mente gritava. A dor na minha perna era uma pulsação distante comparada à ferida aberta e cavernosa que acabara de ser rasgada no meu peito.
Isso não foi um sequestro. Foi uma armação. Uma armadilha. E minha própria filha, minha linda filha de oito anos, tinha sido a isca.
Meu marido. Minha filha. A bolsista que eu ajudei.
Uma trindade de traição, tão completa, tão absoluta, que parecia bíblica. Pensei na velha fábula que minha avó costumava me contar. O fazendeiro que encontra uma cobra congelada e a leva para casa para aquecê-la perto do fogo, apenas para que ela o pique mortalmente com seu veneno no momento em que revive.
Eu havia aquecido três cobras perto do meu fogo. Eu as alimentei com meu amor, meu dinheiro, minha vida. E elas me pagaram com um veneno mais mortal que qualquer outro.
Uma enfermeira entrou apressada, seguida por dois policiais uniformizados. Seus rostos estavam sérios.
"Sra. Moraes? Sou o Delegado Siqueira. Este é o Policial Bastos. Estamos aqui para fazer algumas perguntas sobre sua agressão."
Atrás deles, Eugênio e Laura entraram no quarto. Eugênio correu para o meu lado da cama, seu rosto uma máscara perfeita de angústia. Ele pegou minha mão, seu toque como uma marca de fogo.
"Oh, Helena. Meu Deus. Quando eu te encontrei... eu pensei..." Ele enterrou o rosto nos lençóis, seus ombros tremendo com soluços fabricados.
Laura ficou ao pé da cama, seus olhos grandes e úmidos com lágrimas de crocodilo. Ela parecia um anjinho perfeito de luto.
"Nós vamos encontrar os animais que fizeram isso com você, Sra. Moraes", disse o Delegado Siqueira, sua voz gentil, mas firme. "Nós prometemos. Nós vamos pegá-los."
Eugênio levantou a cabeça, seus olhos avermelhados e ferozes. "O que precisar, delegado. Qualquer coisa. Não vamos descansar até que esses monstros estejam atrás das grades."
Ele apertou minha mão. Olhei para seu rosto bonito e mentiroso. Olhei para minha filha, seu rosto doce e traiçoeiro. Olhei para o delegado, seu rosto sério e ingênuo.
O mundo havia se tornado um palco, e eu era a única que acabara de receber o roteiro verdadeiro. Todos os outros ainda estavam atuando em uma peça da qual eu não fazia mais parte.
O Delegado Siqueira se virou para mim, seu bloco de notas pronto. "Sra. Moraes, pode nos dizer o que aconteceu?"
Respirei fundo, um som arrastado. Senti o aperto de Eugênio em minha mão se intensificar, um aviso silencioso. Encarei seu olhar, meus olhos tão frios e mortos quanto um céu de inverno.
"Pergunte ao meu marido", eu disse, minha voz um sussurro rouco. "Ele parece saber de tudo."
---
Você pode gostar





