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Capa do romance Á Sua Espera

Á Sua Espera

Dominada pela ganância, Beth deseja os cavalos de Uzziah e aceita ferir sua própria dignidade para possuí-los. O excêntrico herdeiro de um sheik árabe, mestre em cavalos e sedução, propõe um desafio decisivo: uma corrida. Se ganhar, ela leva os animais e volta ao Cairo; se perder, Beth deverá passar o fim de semana com ele, submetendo-se a todos os seus desejos. Agora, ela arrisca tudo em uma aposta perigosa onde a derrota custará sua liberdade.
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Capítulo 2

Beth olhou em volta em busca do peão e sur¬preendeu-se ao notar que ele havia desaparecido. O árabe com trajes típicos corria em sua direção, e a expressão perturbada em seu rosto indicava que não estava nada feliz com o que havia feito.

Preocupada, admitiu que dera um passo precipitado ao montar o cavalo sem sua permissão e preparou-se para arcar com as conseqüências. Esperava poder fazê-lo compreender suas boas intenções.

— Peço desculpas por ter assumido o controle da situação, Sr. Uzziah — adiantou-se —, mas percebi que o rapaz estava apa¬vorado e temi que ele e o animal saíssem feridos da empreitada. Reconheço que fui presunçoso e atrevida, mas agi movida pelo instinto e espero que me desculpe. Afinal, tudo acabou bem, não? — sorriu. — A exibição facilitará a negociação do animal. Para ser franca, esperava comprá-lo, mas temo não ter a quantia ne¬cessária para adquirir um cavalo tão magnífico.

Sabia que estava falando demais, mas, encorajada pelo silêncio respeitoso do árabe, decidiu continuar.

— Meu nome é Beth Camey. Sou australiana, e possuo uma pequena escola de equitação em meu país. Sempre quis ter um animal propício para saltos, e quando vi esse potro, Sr. Uzziah, eu... eu...

Confusa, notou que a expressão do árabe tornava-se mais per¬turbada e precisou de alguns segundos para entender o que se passava.

— Oh! — exclamou. — Não conhece meu idioma! Que bo¬bagem a minha! Escute, vou procurar Monsieur Renault e então poderemos...

— Eu falo seu idioma, Srta. Camey, mas não sou quem está pensando. Meu nome é Omar, e sou um humilde criado de Sidi Uzziah.

— Você é...? Então quem...?

Droga! Monsieur Renault comentara alguma coisa sobre a ori¬gem inglesa do filho do xeque. Por que concluíra que ele estaria vestindo roupas típicas, e não um traje ocidental, como todos os outros homens na arquibancada? O grupo havia se dispersado. Alguns examinavam o cavalo com atenção, enquanto outros con¬versavam junto à cerca. Qual deles seria o famoso Uzziah?

— Meu amo já partiu — Omar informou.

— Partiu?

Apenas um homem havia ido embora, e aquele bárbaro com ares de peão não podia ser o proprietário do magnífico animal!

— Sim, partiu — Omar repetiu, apontando para o helicóptero que distanciava-se rapidamente no horizonte.

— Está dizendo que o... o homem que trouxe o cavalo para o rinque é o Sr. Uzziah? Aquele alto, com ombros largos e... e...

— Exatamente. Meu amo é realmente um homem impressio¬nante — o árabe sorriu orgulhoso.

Beth abriu a boca e fechou-a em seguida. Não podia discordar de uma afirmação como essa. Uzziah era realmente um homem de aparência extraordinária, mas, infelizmente, talvez não pudesse dizer o mesmo sobre seu caráter, uma vez que obrigava o pobre criado a chamá-lo de amo. Onde pensava viver? Na Idade Média? Não sabia que a escravidão havia sido abolida?

— Meu amo mandou-me agradecer pelo serviço que prestou cavalgado esse animal — Omar começou hesitante.

Mas a hesitação era desnecessária e sem fundamento. Como sempre Uzziah estava certo sobre o impacto que causava sobre as mulheres, e essa ocidental não representava uma exceção. Era óbvio que conseguiria cumprir a missão que lhe fora confiada. Como se não bastasse a aparência impressionante de seu amo, a ocidental ainda estava interessada no cavalo! E assim que a levasse para a casa de seu amo, Sidi Uzziah não teria nenhuma dificuldade em convencê-la a acompanhá-lo à suíte principal.

— Meu amo também disse que devo convidá-la para passar o próximo fim de semana em sua casa, como hóspede de honra. Ele quer agradecer pessoalmente e gostaria de poder lhe mostrar mais alguns de seus magníficos cavalos. Como disse que talvez não possa pagar por esse animal, Srta. Carney, é possível que encontre outro de seu interesse nos estábulos de meu amo.

Beth mal podia conter o entusiasmo. Não estava interessada em visitar o amo desse pobre coitado. Qualquer homem capaz de tratar os empregados como escravos merecia apenas seu des¬prezo. Mas se o estábulo de Uzziah estava cheio de cavalos como o que acabara de montar, tinha de aceitar o convite. Além do mais, já ouvira falar que os árabes costumavam oferecer presentes valiosos quando queriam demonstrar gratidão. E se ele lhe desse um cavalo como o potro negro que dominara pouco antes? Se a deixasse comprar um bom animal por um preço razoável, já ficaria bastante satisfeita.

— É muita gentileza de seu amo — Beth respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. Tinha de esconder a antipatia que sentia pelo poderoso árabe, ou não conseguiria realizar um bom negócio. — Gostaria muito de poder aceitar o convite, mas tenho de voltar ao Cairo para embarcar no avião que me levará de volta para casa na próxima terça-feira. Acha que é possível ir a Morocco e voltar antes disso? Amanhã já é sexta-feira.

Omar sentiu-se ainda mais confiante. Então ela já sabia onde seu amo morava! Era evidente que andara fazendo perguntas e que, portanto, estava interessada. A reputação de Uzziah como amante perfeito o precedera, e o sucesso estava garantido.

— Cuidarei de tudo para que seja enviada à casa de meu amo amanhã mesmo, e garanto que estará no Cairo a tempo de em¬barcar no vôo de volta para casa.

Enviada? O árabe falava como se estivesse cuidando da remessa de um pacote!

— Mas, antes disso, tenho de providenciar tudo para o leilão do cavalo.

— Ah, é claro! Eu havia esquecido.

Como também esquecera Monsieur Renault. De qualquer ma¬neira, ele parecia bastante interessado na conversa que mantinha com um grupo de pessoas perto da arquibancada. Outros agentes, provavelmente. Ou clientes em potencial.

Omar afastou-se e Beth dirigiu-se à arquibancada. Ao vê-la, Monsieur Renault elogiou sua habilidade e sugeriu que tentasse participar da próxima Olimpíada.

— Eu adoraria, mas para isso preciso contar com o animal adequado. Como o que acabei de montar, por exemplo.

— Lamento que sua apresentação tenha elevado o preço do potro além de suas posses, mademoiselle.

— É verdade.

Quaisquer esperanças que pudesse ter com relação à compra do animal desapareceram assim que o leilão começou. O preço inicial foi estabelecido em cinqüenta mil dólares e disparou ime¬diatamente, atingindo quase o dobro dessa quantia. Quando o martelo foi batido por duzentos mil dólares, Beth sentia-se desapontada, mas não desanimada. Afinal, ainda tinha uma segunda possibilidade, tão excitante quanto a primeira.

— Não parece tão decepcionada quando esperava que estivesse — o francês observou.

— Tenho algo a lhe dizer, Monsieur Renault. Algo realmente incrível.

Ao ouvir o relato sobre o convite do filho do xeque árabe, o agente espantou-se:

— E pretende ir a Morocco?

— É claro que sim! Por que não?

— Não sei se sabe, mas Uzziah é um homem solteiro.

— E daí?

A aparição súbita de Omar impediu que o francês dissesse o que tinha em mente.

— Com licença, monsieur. Se pretende chegar à casa de meu amo amanhã à tarde, Srta. Carney, é hora de partir. Meu carro está esperando para levá-la de volta ao seu hotel.

— Mas eu pretendia voltar ao Cairo com Monsieur Renault.

— Tenho certeza de que ele não se importará com a mudança de planos. Tenho um telefone no carro, e poderemos tomar as primeiras providências imediatamente.

Beth encarou o francês com ar hesitante e o viu franzir a testa.

— Posso ter certeza de que Mademoiselle Carney será bem assistida?

— A hospitalidade árabe sempre foi elogiada, monsieur. A Srta. Carney terá todo o conforto e consideração.

— Sim, mas isso não garante que...

— Por favor, Monsieur Renault — Beth interrompeu. — Apre¬cio sua preocupação, mas tenho trinta anos de idade e sou per¬feitamente capaz de cuidar de mim mesma. Estou disposta a acom¬panhar Omar, e não tenho nenhum receio com relação à minha segurança.

Misericórdia! O francês comportava-se como se estivesse pres¬tes a oferecer-se ao comércio de escravas brancas! Ou estaria temeroso de que, como a mãe de Uzziah, fosse aprisionada num harém e mantida em cárcere privado?

A ideia a divertiu. Talvez Monsieur Renault não houvesse tido a oportunidade de ver Uzziah, ou saberia que o árabe era o tipo de homem que jamais precisaria de truques para ter qualquer mulher que desejasse. Não seqüestraria uma mulher sem graça, alta demais e sexualmente retardada para satisfazer seus desejos.

— Está pronta, Srta. Carney? — Omar perguntou.

— Sim, Omar. Adeus, Monsieur Renault, e muito obrigada por sua ajuda — e estendeu a mão para despedir-se.

Ignorando a mão estendida, ele aproximou-se para beijá-la no rosto, como era hábito entre os franceses.

— Tome cuidado — sussurrou.

O aviso provocou um arrepio que percorreu sua espinha, mas Beth desprezou a preocupação de Renault como totalmente in¬fundada. Talvez estivesse acostumado a lidar com mulheres mais frágeis. Se a houvesse visto em ação no bar onde ela e Pete iam tomar cerveja todas as sextas-feiras, certamente não estaria tão temeroso. Saberia que tinha um gancho de direita poderoso e uma língua ferina capaz de reduzir um homem a migalhas.

Um sorriso distendeu seus lábios. Se Omar ou Uzziah saíssem da linha, faria com que se arrependessem imediatamente.

— Vamos, Srta. Carney. Sidi Uzziah a espera para o jantar, amanhã à noite, e não me atreveria a desapontá-lo.

A sexta-feira amanheceu quente, mas a recepcionista do hotel avisou-a que a costa de Morocco podia ser bem mais fria que o Egito, especialmente à noite. Beth escolheu a jaqueta branca de mangas compridas e vestiu-a sobre uma camisa vermelha de man¬gas curtas, preparando-se para qualquer clima. Os cabelos estavam novamente presos, e a maquiagem reduzia-se a uma fina camada de batom.

Omar a esperava no saguão do hotel no horário combinado e elogiou sua aparência elegante e discreta sem exceder-se, o que a tranqüilizou. A preocupação de Monsieur Renault a enchera de receios, mas agora tinha certeza de que os temores não tinham nenhum fundamento.

Além do mais, se estivesse interessado, Uzziah teria ficado para convidá-la pessoalmente, em vez de enviar um criado.

A partir desse momento, Beth relaxou e decidiu aproveitar o fim de semana em Morocco, independente de conseguir realizar um bom negócio, ou não. As acomodações na luxuosa limusina negra que os levou até o aeroporto e na primeira classe do jato com destino a Casablanca fortaleceram sua decisão.

Da janela do avião, podia ver grandes extensões de deserto escaldante entrecortadas por pequenas faixas férteis, sempre pró¬ximas a um rio ou oásis. Depois de algum tempo, as dunas de areia foram dando lugar às montanhas cobertas por florestas den¬sas e verdejantes.

— Há quanto tempo trabalha para o seu... amo? — perguntou, divertindo-se com a dificuldade que tinha para pronunciar a pa¬lavra.

— Não trabalho para Sidi Uzziah. Eu vivo para ele.

— Quer dizer que é um escravo? — ela assustou-se.

— Não. Sou apenas um servo fiel. Sidi Uzziah salvou minha vida em certa ocasião, e minha honra muitas vezes. Em troca, jurei devotar minha vida a serviço dele.

— Disse que ele salvou sua vida? Como?

— Lamento, Srta. Carney, mas não posso dizer mais nada. Meu amo não aprovaria se soubesse que um criado andou co¬mentando detalhes de sua vida pessoal com uma mulher.

E pensar que chegara a acreditar que esse Uzziah pudesse ter alguma qualidade! Era mais chauvinista que todos os outros! Evi¬dentemente, sua metade inglesa havia sido devorada pela porção árabe. Se não tomasse cuidado, acabaria sendo obrigada a usar um céu em sua presença!

Francamente! Estaria a par dos acontecimentos do mundo atual? Saberia que as mulheres estavam no comando de diversos países? Ou preferia ignorar? Talvez por isso vivesse recluso em sua propriedade. Assim, poderia ignorar o progresso e viver como um senhor feudal.

Pois bem, tinha uma pequena surpresa para o chauvinista! Não pretendia inclinar-se diante de homem algum, nem mesmo que esse homem fosse o filho de um xeque árabe e tivesse o poder de lhe dar o cavalo com que sempre sonhara.

É claro que também não pretendia ser rude. Seria educada, e torceria para que ele não dissesse nada capaz de provocar uma reação imediata e instintiva.

— À que horas chegaremos na Casablanca? — perguntou, estranhando o silêncio prolongado de Omar.

— Por volta do meio dia.

— E quanto tempo levaremos para chegar aos domínios de seu amo?

— Mais duas horas de helicóptero.

— E como devo chamá-lo? Sidi Uzziah, como ouvi referir-se a ele ocasionalmente?

— Meu amo prefere ser chamado simplesmente de Uzziah.

Ora! O mundo é mesmo cheio de surpresas! Meia hora mais tarde, Beth estava começando a cochilar quando Omar comentou:

— Veja, Srta. Carney! O atlântico... e Casablanca.

Apesar de encantadora, a cidade parecia tão estranha quanto o Cairo. Tetos retos, casas brancas e diversas mesquitas com seus minaretes compunham o cenário de rara beleza. Mesmo assim, Beth estava começando a sentir saudades de casa, do cheiro do estábulo e dos campos verdejantes.

— Omar, temos de parar aqui para almoçar, ou podemos seguir diretamente para a casa de seu amo?

— Se prefere seguir viagem sem descasar... seu desejo é uma ordem.

— Obrigada.

Omar sorriu para si mesmo. Saber que ela estava tão ansiosa para encontrar seu amo era realmente gratificante.

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