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Capa do romance Á Sua Espera

Á Sua Espera

Dominada pela ganância, Beth deseja os cavalos de Uzziah e aceita ferir sua própria dignidade para possuí-los. O excêntrico herdeiro de um sheik árabe, mestre em cavalos e sedução, propõe um desafio decisivo: uma corrida. Se ganhar, ela leva os animais e volta ao Cairo; se perder, Beth deverá passar o fim de semana com ele, submetendo-se a todos os seus desejos. Agora, ela arrisca tudo em uma aposta perigosa onde a derrota custará sua liberdade.
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Capítulo 3

Estavam voando há cerca de uma hora, quando Beth endireitou-se no assento e gritou:

— Meu Deus! O que é aquilo?

— Aquilo — Omar explicou satisfeito — é a casa de meu amo.

Uma casa? Aquela coisa com ares de fortaleza?

À medida em que o helicóptero aproximou-se, a residência de Uzziah assumiu um aspecto menos assustador, apesar das enormes paredes de pedra que a cercavam.

— É um castelo — ela constatou.

— Exatamente — o criado concordou, apressando-se a oferecer um rápido resumo histórico.

Construída no século dezesseis por um pirata, o castelo do¬minava uma pequena enseada onde o proprietário original lançava navios para atacar as embarcações mercantes que se aproximassem da costa Atlântica. Posicionada estrategicamente num patamar elevado, a cidadela possuía canhões cuidadosamente colocados que davam cabo de navios britânicos e portugueses, enquanto os barcos do astuto pirata eram mantidos escondidos num rio pró¬ximo.

O helicóptero deu uma volta completa sobre a propriedade e Beth pôde ver as aberturas nas paredes através das quais os ca¬nhões atingiam os inimigos. Era realmente fascinante! Pete não acreditaria quando ouvisse. Gostaria de ter uma máquina foto¬gráfica.

Surpresa, percebeu que estavam pousando numa espécie de anfiteatro bem no centro do castelo.

Varandas cercavam a área circular e central, suas arcadas lem¬brando bocas sem dentes em meio às paredes brancas. Inúmeros degraus de pedra partiam de todas as partes do anfiteatro em direção às varandas, onde dezenas de vasos de gerânios emprestavam um colorido quase tropical ao ambiente.

Finalmente o piloto desligou os motores e ela suspirou aliviada.

— Meu amo virá recebê-la pessoalmente, Srta. Carney — Omar informou enquanto soltavam os cintos de segurança. — Eu mesmo levarei a bagagem para os seus aposentos.

— Por favor, não se preocupe comigo, Omar. Sou perfeita¬mente capaz de carregar minhas malas.

— Tenho certeza que sim, Srta. Carney. Mas, como diz o ditado, em Roma, faça como os romanos. Enquanto estiver em Morocco, por favor, esqueça que é uma ocidental liberada e permita que a tratemos com todas as honras. E como fazemos por aqui.

— É claro — ela suspirou. — Não quero criar problemas. Normalmente sou... — e parou, atônita com a cena que descor¬tinava-se diante de seus olhos.

Uzziah estava descendo os degraus da varanda rumo ao heli¬cóptero, e usava o traje mais exótico que já havia visto em toda sua vida. Parecia um personagem das Mil e Uma Noites!

— Venha, Srta. Carney. Meu amo não gosta de esperar. Balançando a cabeça, Beth levantou-se para desembarcar. Pete ficaria realmente perplexo quando ouvisse toda essa história!

A porta do helicóptero se abriu e ela deparou-se com o mais estonteante par de olhos negros que já vira.

No Egito, tivera a impressão de que Uzziah não era exatamente bonito, mas agora que o examinava de perto... seria capaz de ficar olhando para aquele rosto perfeito por toda a eternidade!

— Meus cumprimentos, Srta. Carney — ele disse com tom profundo e pronúncia perfeita. — Seja bem-vinda à minha casa — e segurou-a pelos braços, erguendo-a e colocando-a no chão como se fosse uma boneca sem peso.

Beth ficou momentaneamente sem ação. Nenhum homem ja¬mais havia conseguido fazê-la sentir-se tão frágil e pequena!

Por outro lado, pensou, recuperando a compostura e o controle, sabia que ele era a reencarnação de Hércules! Na verdade, con¬seguia até ficar parecido com o herói lendário dentro daquelas roupas.

Como alguém conseguia usar uma calça de seda negra e um bolero de couro da mesma cor, bordado em tons vibrantes, sem tornar-se ridículo? Devia parecer ao menos efeminado, especial¬mente com aquela faixa vermelha em torno da cintura e os cabelos presos num rabo de cavalo!

Em vez disso, Uzziah parecia mais masculino que qualquer outro homem que conhecera. Músculos poderosos desenhavam-se ao longo dos braços morenos e do peito seminu, e o brilho intenso da pele dava a impressão de que havia sido massageado com algum tipo de óleo.

O aroma de sândalo que pairava à sua volta confirmava a impressão, e Beth entregou-se ao luxo de admirar o corpo perfeito por alguns instantes.

Afinal, que diabos estava fazendo? Se continuasse agindo desse jeito, o homem acabaria concluindo que estava interessada nele!

Impossível explicar que estaria igualmente impressionada com a perfeição física de um garanhão, e que seu olhar atônito não tinha nada a ver com atração ou interesse. Não podia sentir-se atraída por um homem capaz de permitir que outro ser humano o tratasse por amo!

Aborrecida por comportar-se como uma colegial idiota, Beth censurou-se mentalmente e tratou de recuperar a compostura, er¬guendo os ombros numa tentativa de mostrar-se imponente. In¬felizmente, ainda teria de esticar-se vários centímetros para al¬cançar a estatura do anfitrião, o que a obrigava a erguer a cabeça para encará-lo.

— O convite para o fim de semana foi muito gentil — disse com tom frio e polido.

Uzziah a encarou por alguns instantes e Beth teve receio de ter se mostrado altiva demais. Não queria ofendê-lo. Sua intenção era meramente corrigir qualquer falsa impressão que pudesse ter provocado com sua reação inicial. De repente, a esperança de finalmente conseguir o cavalo de seus sonhos começou a desfa¬zer-se. Desesperada, forçou um sorriso e experimentou uma imen¬sa onda de alívio ao ver que ele também sorria.

— Ah... Mas salvar minha reputação de criador foi muito mais que gentileza de sua parte.

Devia ter passado anos de sua vida trancado numa escola bri¬tânica para adquirir aquela pronúncia. Era óbvio que não havia sido educado nas areias do deserto da Arábia. Nem em Morocco...

— Serei eternamente grato — ele concluiu com uma inclinação graciosa.

Não é necessário, Beth pensou com ironia. Dê-me um de seus cavalos e estaremos quites aos olhos de Alá.

— Omar cuidou bem de você?

— Oh, ele foi muito atencioso. E pode me chamar de Beth — ela sugeriu com mais um sorriso educado. Ninguém poderia dizer que não estava se esforçando.

— Com todo o prazer...

— Omar disse que devo chamá-lo de Uzziah. Isso é verdade?

— É como prefiro ser tratado. Venha, vamos entrar e tomar um chá. Omar comentou que você recusou-se a comer ou beber qualquer coisa durante a viagem. Parece que estava ansiosa para chegar...

Beth virou-se para Omar com ar intrigado, mas ele estava cuidando de sua bagagem. Era evidente que havia telefonado do aeroporto de Casablanca, o que era perfeitamente razoável, mas preferia que não houvesse falado como se fosse uma idiota ansiosa para desfrutar da companhia de um árabe machista e pretensioso.

Admitia que a maioria das mulheres devia atirar-se aos pés de um homem tão sensual, e reconhecia que hoje ele comporta¬va-se com um charme absolutamente inesperado, especialmente depois da arrogância que demonstrara no Egito.

Mas, apesar da voz aveludada, da calça de seda e do sorriso resplandecente, sabia tratar-se de um bárbaro. Sob a aparência sofisticada existia um indivíduo primitivo, um homem que nem sempre seguia as regras da sociedade.

O aviso sussurrado de Monsieur Renault passou rapidamente por sua mente. Não acreditava que seu anfitrião pudesse ter qual¬quer intenção sexual, mas, para evitar problemas, decidiu sorrir menos.

— Chá é uma ótima ideia — disse com seriedade.

— Podemos entrar, então? — Uzziah sugeriu segurando seu braço.

Beth sabia que o gesto era apenas uma forma de cavalheirismo, mas o contato a incomodava. Assim que chegaram à varanda, aproveitou a primeira desculpa disponível para livrar-se da mão firme e quente que a guiava.

— Meu Deus! Nunca vi um piso tão lindo! — e abaixou-se para examinar os mosaicos. Eram realmente bonitos, feitos de pequenos fragmentos de cerâmica em diferentes tons de azul e colocados de forma a criar um intrincado padrão geométrico.

— Vai encontrar muitos outros exemplos da arte e da arqui¬tetura moura em minha casa. Amanhã a levarei para conhecer toda a propriedade. Por enquanto, acho que devia tomar seu chá e descansar um pouco antes do jantar. A viagem deve ter sido exaustiva...

Agora que parava para pensar, sentia-se realmente cansada.

— Talvez tenha razão.

Desta vez ele não tentou segurar seu braço e Beth o acompa¬nhou aliviada. Logo atravessavam um corredor de teto alto e arredondado, largo como uma sala e elegante como o interior de um palácio francês. Um tapete persa abafava o som dos passos sobre o piso de mármore e lanternas ricamente trabalhadas em bronze iluminavam o caminho.

Beth lançava olhares intrigados para os murais altamente eró¬ticos que adornavam as paredes, chocada com a nudez excessiva e com as posições e atividades dos corpos pintados. Sabia que algumas pessoas ficavam absolutamente fascinadas com esse tipo de arte, mas, pessoalmente, julgava-a aborrecida e até grosseira.

Como Pete costumava dizer sobre filmes pornográficos, quem já viu um, viu todos. Além do mais, tinha certeza que o artista havia exagerado ao reproduzir certas partes da anatomia mascu¬lina. Típico! Em sua opinião, tudo o que se dizia sobre sexo era um exagero. Os homens falavam muito, mas, quando chegava o momento da ação, a realidade era sempre uma experiência pe¬quena e sem graça.

— Não aprova o nu nas artes? — Uzziah perguntou.

Droga! A última coisa que queria era ofender o senso artístico de seu anfitrião. Devia gostar muito dos tais murais, ou não teria coberto as paredes com eles. E no entanto, lá estava ela, torcendo o nariz como se a tinta cheirasse mal.

— Oh, não! Eu gosto — mentiu. — A nudez é algo muito... natural.

— É exatamente o que penso. O mundo é muito cheio de preconceitos, especialmente com relação ao sexo.

Sexo? Mas não estavam discutindo a nudez? Felizmente alcançaram as pesadas portas de madeira que se¬paravam o corredor de outro ambiente e o assunto foi encerrado. Felizmente, porque odiava falar sobre sexo.

Uzziah girou as maçanetas de bronze e escancarou as portas, revelando uma visão estonteante. A sala em questão era maior que um salão de baile, e o espaço parecia ainda mais amplo graças ao contraste entre o piso de mármore e o teto alto e ar¬redondado de onde pendiam vários lustres de cristal. Frisos de gesso cobriam as paredes, contra as quais alinhavam-se vários vasos de cerâmicas que, separados por intervalos regulares, lem¬bravam sentinelas silenciosas. Na metade da sala, o piso erguia-se como uma plataforma e vários degraus garantiam o acesso ao ambiente diferenciado.

A mobília ficava justamente na porção mais alta. Divãs de veludo cobertos por almofadas de cetim agrupados em torno de mesas baixas de madeira nobre e escura, tudo sobre um tapete de padrão exótico e colorido. Além das mesas e divãs, a sala prolongava-se numa espécie de alcova semicircular, onde janelas de vidro em forma de arco eram cobertas por uma grade de aço retorcido em desenhos intrincados e pintado de preto. Podia-se apenas vislumbrar o azul do céu através dos arabescos de aço.

O castelo devia ser provido de ar condicionado, porque já notara os nichos típicos do equipamento nas paredes, apesar das peças de decoração e das cortinas delicadas que eram usadas para escondê-los.

O homem devia ser multimilionário, concluiu sem nenhuma admiração. Era óbvio que todo esse conforto provinha da fortuna de seu pai. Uzziah só precisava assinar um cheque para conseguir tudo o que desejava, de castelos históricos a cavalos de raça.

Seu único consolo ao pensar numa situação tão irritante era a certeza de que algumas coisas não podiam ser compradas pelo dinheiro. Coisas como amor e respeito, por exemplo. Mas, talvez esse Uzziah não precisasse de coisas tão singelas. Talvez estivesse satisfeito com substitutos, como sexo e escravos.

— Está franzindo a testa outra vez. Muitas mulheres apreciam a decoração de minha sala particular.

— E eu também — ela apressou-se, forçando um sorriso. — O castelo todo é realmente encantador, mas acabei de lembrar que deixei minha máquina fotográfica no hotel. Adoraria tirar algumas fotos para mostrar aos amigos.

Essa história de mentir estava se tornando um hábito. E, pior ainda, estava ficando cada vez melhor nisso. Ou não?

Por que seu anfitrião levantava a sobrancelha como se algo o intrigasse?

— É só isso? — ele sorriu. — Nesse caso, tenho certeza de que Omar poderá encontrar uma boa câmera emprestada — e aproximou-se da porta, erguendo o braço e puxando o cordão de um sino dourado que pendia do teto.

O chamado de Uzziah foi imediatamente atendido por uma linda jovem de longos cabelos negros e pele morena e suave.

Não usava nenhum véu sobre o rosto, e vestia-se com uma saia florida e uma blusa branca de delicados bordados. Vários colares de ouro adornavam seu pescoço, e grandes argolas do mesmo metal pendiam de suas orelhas, conferindo-lhe um ar mais espa¬nhol que árabe. Devia ter antecipado o desejo do amo, pois car¬regava uma bandeja com um serviço de chá de prata maciça e brilhante.

Depois de sorrir para a convidada e inclinar-se diante do amo, a jovem foi deixar a bandeja sobre uma das mesas localizadas na parte mais alta da sala.

— É só isso por enquanto, Aisha. Mas vou querer vê-la mais tarde...

— Oui, monsieur — a jovem respondeu em francês, apesar de compreender o que ele dissera em inglês. Era evidente que conhecia os motivos pelos quais Uzziah desejaria vê-la mais tarde, pois seu rosto estava vermelho quando saiu da sala.

Beth também tinha plena consciência das intenções de seu anfitrião, uma vez que ele não tentara esconder o desejo pela garota. Seu olhar penetrante acompanhara todos os movimentos da jovem, e havia um sorriso em seus lábios quando ela saiu e fechou a porta.

Beth julgava difícil esconder o desgosto. Talvez Aisha estivesse interessada, talvez não. De qualquer forma, duvidava que fosse consultada.

Mesmo assim, não podia dar-se ao luxo de julgar o compor¬tamento decadente do árabe sem correr o risco de trair as emoções através do olhar.

— Vamos lá, minha cara — ele suspirou, os olhos brilhando intensamente. — O chá nos espera...

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