
A Sombra da Infidelidade
Capítulo 2
A chamada do hospital chegou no meio da noite, rasgando o silêncio do meu estúdio.
A luz fria do monitor iluminava os modelos de personagens do meu novo jogo, um projeto que consumia minhas noites há meses, mas agora, tudo aquilo parecia distante e sem importância.
"Senhor Pedro? Estamos ligando do Hospital Central. Sua filha, Ana, sofreu um acidente."
A voz do outro lado da linha era calma, profissional, mas cada palavra era um soco no meu estômago. Eu não conseguia responder. O mundo ficou mudo, só o zumbido do meu computador preenchia o vazio.
"Senhor? O senhor está aí?"
"Estou. Estou a caminho."
Joguei o telefone no banco do passageiro e dirigi como um louco pelas ruas vazias da cidade. Minha mente era um borrão de pânico. Ana. Minha filha de dezesseis anos. Ela deveria estar em casa, segura. Tinha me ligado mais cedo, dizendo que ia ficar até mais tarde na biblioteca da escola para um trabalho em grupo. Eu disse para ela ter cuidado.
No hospital, o cheiro de desinfetante me agrediu. Uma enfermeira me guiou por um corredor branco e estéril até a UTI.
E lá estava ela.
Minha Ana, tão pequena naquela cama enorme, ligada a uma teia de tubos e fios. Seu rosto estava inchado, roxo, quase irreconhecível. Um respirador fazia o trabalho que seus pulmões não conseguiam mais. O monitor cardíaco apitava num ritmo lento e assustador.
Eu caí de joelhos ao lado da cama, minha mão tremendo ao tocar a dela, tão fria.
"O que aconteceu?" , minha voz era um sussurro rouco.
Um policial parado no canto do quarto se aproximou. "Ela foi encontrada num beco perto da escola. Agressão brutal. Estamos investigando."
Naquele momento, Maria, minha esposa, entrou no quarto. Ela era advogada, sempre impecável em seus ternos caros, com uma postura que impunha respeito. Mas agora, seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados de choque.
Ela olhou para Ana, depois para mim. Sua expressão mudou. O choque deu lugar a uma frieza que me gelou a espinha.
"Onde você estava, Pedro?" , ela perguntou, a voz cortante.
"Eu? Eu estava trabalhando. No estúdio."
"Trabalhando?" , ela riu, um som sem humor. "Sei. Vocês não discutiram hoje à tarde? Ana me ligou, chateada. Disse que você não queria que ela saísse."
Era mentira. Eu nunca disse isso. Mas a forma como ela falou, a acusação velada em seu tom, fez o policial me olhar de um jeito diferente.
Fui levado para a delegacia. Respondi a todas as perguntas, expliquei cada minuto da minha noite. Eles me liberaram horas depois, mas eu sabia que era um suspeito. O monstro que agrediu a própria filha. A ideia era tão absurda, tão doentia, que eu mal conseguia respirar.
Voltei para casa exausto, quebrado. A casa estava vazia. Maria não estava lá. Ela preferiu ficar no hospital, disse. Mas eu sentia que não era por Ana. Era para me evitar.
Precisava de ar. Decidi ir até o estúdio, não sei por quê. Talvez para sentir algo normal. Entrei no carro, o mesmo que Maria usara durante o dia. Minha cabeça latejava. Bati a mão no painel, frustrado, e sem querer apertei o botão do gravador de bordo, um dispositivo que instalei para segurança e nunca usava.
Uma gravação começou a tocar. A voz de Maria.
E a voz de um homem. João. Seu antigo amor da faculdade, um empresário com quem ela tinha "reatado a amizade" recentemente.
"Todas as testemunhas daquela noite já receberam o suborno" , dizia a voz de Maria, calma e precisa como a de uma advogada fechando um caso. "A polícia já o considera o principal suspeito. A pressão da mídia vai fazer o resto."
João riu, um som arrogante e desdenhoso que fez meu sangue ferver. "Quem mandou aquela garotinha atrapalhar nossos planos? Ela ouviu nossa conversa no telefone, sobre a fusão. Tive que dar um jeito nela."
Minha respiração parou. Meu coração parecia ter parado de bater.
"Você não precisava ter feito aquilo com ela, João" , a voz de Maria tinha um pingo de irritação, mas nenhuma dor. Nenhuma preocupação com a própria filha. "Mas já que está feito... Perfeito! Usaremos essa aberração para colocar o Pedro na prisão de vez. Assim, poderemos ficar juntos abertamente, e a empresa de jogos dele será nossa."
"Ele vai lutar" , disse João.
"Ele não tem chance" , respondeu Maria. Sua voz se encheu de um ressentimento antigo, um veneno que ela guardava há anos. "Ele nunca me deu o que eu merecia. Sempre com aquele sonho idiota de fazer joguinhos, enquanto eu construía uma carreira de verdade. Ele me prendeu, me limitou. E aquela filha... sempre do lado dele. Sempre a princesinha do papai. Seria melhor para todos se ela simplesmente não acordasse."
Um tremor violento tomou conta do meu corpo. A raiva era uma onda quente e sufocante subindo pelo meu peito. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. A mulher com quem dividi a vida, a mãe da minha filha, não só estava me traindo e me incriminando, como desejava a morte de Ana.
Meu olhar caiu sobre o painel do carro. Preso ali, um pequeno porta-retratos digital que eu tinha dado a ela, que passava fotos da nossa família. Numa das fotos, eu segurava uma Ana sorridente no colo. Uma família feliz. Uma mentira.
Com um grito de pura agonia, arranquei o porta-retratos do painel e o esmaguei com as minhas mãos. O plástico se partiu, a tela se estilhaçou. Os rostos felizes desapareceram, substituídos por cacos de vidro e escuridão. Assim como a minha vida.
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